Texto por Marco Fialho
Em tempos em que as ideias e práticas fascistas se mostram presentes é fundamental falar e discutir o período de exceção política da ditadura militar brasileira (1964-85). O documentário Honestino, dirigido por Aurélio Michiles, é mais um bom exemplo de filmes que trazem à luz uma temática tão atual de como seria o país com a volta dos militares ao poder.
Logo nas primeiras cenas vem à tona o tema da memória, com o discurso do neto de Honestino Guimarães, que jamais pode o conhecer o avô, e logo a seguir vemos o menino fuçando fotos e materiais que são as únicos elos que o conecta à história fervilhante de um homem que foi líder estudantil e não pode concluir o curso de geólogo na UNB (Universidade de Brasília). É sempre interessante poder promover esse diálogo entre presente e passado, entre memória e presente, especialmente nesses tempos em que alguns lunáticos pedem a volta da ditadura em nosso país.
Aurélio Michiles resgata o passado de luta de Honestino Guimarães contra a ditadura militar, que tinha como projeto exterminar o projeto educacional mais criativo e crítico da história do país. A UNB fora um projeto audacioso criado pelo gênio inquieto de Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, em 1962, que visava a experimentação e servir de modelo de modernização do Brasil, ainda dominado por estruturas arcaicas da monocultura e da escravidão. O filme falha um pouco nesse aspecto, de mergulhar no projeto revolucionário da UNB, passando muito rápido por ele, mas que seria fundamental para se entender o porquê de tanta perseguição dos militares a essa instituição, com o intuito mesmo de exterminar os avanços por ela preconizados.
Entretanto, Honestino dribla bem a falta de material de arquivo, ainda mais que por questão de segurança, pouquíssimas das ações de resistência ao regime militar foram registradas. O registro mais interessante de Michiles foi captar depoimentos de quem conheceu Honestino e para que se resgate memórias, acontecimentos e fatos daquele momento tão penoso para a educação do país, em que só restou a alternativa da luta política, mas que levaria os militantes descontentes à clandestinidade, à prisão, à tortura, e a muitos à morte prematura, caso do nosso jovem protagonista.
Mas vale registrar que Honestino não é só um projeto de resgate da nossa história política recente, também é um projeto pessoal de Michiles, que surge igualmente como personagem ao dar depoimentos sobre o amigo Honestino e de aparecer em alguns fatos narrados por terceiros. Por isso, esse é um documentário que traz um forte viés pessoal, onde o diretor é também um ator comprometido com o que está sendo narrado e como é bom ver que isto não só não está ocultado, mas ao contrário, forma um quadro transparente importante para situar o espectador tanto no tema quanto na própria perspectiva do filme.
O documentário ainda conta com uma parte supostamente "ficcional", que tem o ator Bruno Gagliasso como Honestino. É importante salientar que essa filmagem não contempla uma tentativa de reconstituição dramática dos fatos, mas apenas como um registro de ações de Honestino para completar a ausência de alguns momentos cruciais de sua vida. Não há diálogos do personagem, momentos de dramaturgia a serem analisados. Tudo na parte ficcional é meramente documental, o que de certo modo agrega ao invés de causar uma disputa narrativa, já que o ficcional é incorporado de maneira orgânica ao que é tão somente documental. Gagliasso é usado ainda para dar voz a Honestino pela leitura das cartas que o jovem deixou pelo caminho da luta política.
Na direção de arte, a maior preocupação está na recriação realista da parte ficcional, e na criação para os depoimentos de um fundo vermelho ou ocre no decorrer das falas dos amigos e familiares. Esse fundo chapado, de cor única, retira o contexto espacial das falas e as situam em uma lógica criada pelo próprio documentário. O uso do material de arquivo funciona pela escolha de imagens que conseguem alimentar o fluxo narrativo a contento, somando-se a um trabalho de trilha musical impecável e envolvente de Flavia Tygel. Outro aspecto interessante é a reconstituição pelos inúmeros depoimentos acerca do caráter de Honestino Guimarães, sua personalidade festiva fora da luta política.
Aurélio Michiles realiza com Honestino um documento crucial para a memória, o situando como um fenômeno não só histórico, mas também afetivo de um período que de certa forma ainda ronda nossas vidas, com a ameaça constante de volta de uma extrema direita tóxica, que pretende reinstaurar a perseguição a tudo que lembre a inteligência, a ideia de coletividade e a luta contra um passado opressor, estimulando a maleficência de alguns que teimam anacronicamente em pregar e tentar golpes de estado com o auxílio de grupos militares.

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