Texto por Marco Fialho
Com Odisseia, Christopher Nolan sedimenta uma interessante tendência cinematográfica, a do filme paradidático. Livros dessa categoria se difundiram muito por aqui, para que alunos do ensino fundamental e médio pudessem ter acesso à obras consideradas robustas demais para quem estava se adentrando recentemente no mundo da leitura. Porém, a de destacar que esse show de didatismo narrativo foi todo filmado na tecnologia IMAX e em 70 mm, para a exultação dos fãs mais ardorosos do cineasta.
Muitos podem até julgar com isso que estou a desmerecer o trabalho do proeminente cineasta Nolan, mas essa não é de certo a intenção. O filme goza de uma notória agilidade narrativa, nenhuma sequência perdura demais, tudo é ágil, para que as quase três horas não sejam sentidas pelo espectador. Afinal, esse é o poder de Hollywood, transformar qualquer clássico literário em espetáculo de entretenimento. Por isso, os personagens são rasos. Odisseu (Matt Damon) é um dos poucos com um arco mais bem definido e desenvolvido, a maioria absoluta dos outros apenas orbitam em seu entorno, sem despertar um brilho compatível. Até os monstros não são tão empolgantes assim, talvez o gigante Ciclope Polifemo ainda seja o único a despertar algum sentimento, nem que seja asco.
Evidente que era de se esperar que Nolan não mantivesse a poética original da Odisseia de Homero, que consolidou uma tradição oral de tratar epopeias humanas por meio de cantos, com a introdução de deuses, e seres fantásticos, que enalteciam as conquistas de civilizações em luta com outras. As narrativas épicas precisam ser compreendidas dentro desse universo próprio dos povos da antiguidade clássica onde a civilização ocidental dava seus primeiros passos.
Os argumentos acima servem para embasar uma crítica à visão que anda se propagando em torno da Odisseia de Nolan, de que a obra retrata uma maneira de se ver a sociedade daquela época e aí reside o maior equívoco que o filme traz, o de sugerir que é capaz de traduzir o espírito de uma época, quando está realizando algo inverso: construindo uma determinada visão contemporânea sobre a sociedade grega antiga.
O olhar que este filme traz é o que vem sustentando a maneira pela qual Hollywood (peço desculpas pela generalização, mas é para falar de uma forma mais geral e predominante) vê o homem de todas as épocas: exacerbando a importância do heroísmo individual e ratificando as guerras como um mal, apesar de que aqui ele é tratado como essencialmente necessário, embora Odisseia de Homero construa o oposto, a vitória da astúcia e inteligência humana sobre o sobrenatural e a força bruta.
Assim como em Oppeheimer (2023), Nolan em Odisseia retrata um personagem arrependido. Enquanto Oppeheimer teve que viver com a amargura de seu invento ser usado como arma de destruição em massa, Odisseu se arrepende de ter vencido uma guerra oferecendo um falso presente ao povo de Troia. Nolan mostra uma obsessão que revela o quanto esse deve ser um sentimento que marca sua presença como cineasta, que precisa justificar em seus filmes como temos que rever determinados personagens tanto da vida real (Oppeheimer) quanto da ficção (Odisseu), como se o diretor quisesse salvar os atos abjetos ou desonestos desses personagens.
Mas como Nolan constrói os diversos personagens que aparecem na trama, se utilizando de nomes estrelares no elenco, como Zendaya (uma Atena pra lá de apagada tanto no tempo de tela quanto na composição)? Ou como pensou Penélope (uma Anne Hathaway quase nula)? Como pensou uma mulher como Calipso, uma das personagens mais fortes e sedutoras da mitologia, reduzida a uma bela insípida e nada atrativa Charlize Theron)? Ou ainda o duplo papel (Helena de Troia e Clytemnestra) da sensacional Lupita Nyong'o, personagens que mereciam mais tempo e maior consistência na trama? O fato é que as personagens femininas estão todas subdimensionadas. Mas tem mais: como lidar com um Telêmaco, interpretado por um Tom Holland que parece saído de uma série adolescente dos nossos dias? E Robert Pattison, que até se esforça para ser um vilão ameaçador, um pretendente mordaz de Penépole, mas cujo roteiro não o permite ousar mais? O que Nolan faz com Agamenon (Ben Safdie), o reduzindo a uma sombra da sombra? Mas porque isso acontece ao nosso ver? Especialmente por Odisseia ser demasiadamente um filme expositivo, por não ofertar momentos que provoque a participação do espectador, tudo ali já vem devidamente deglutido.
Mas vale ressaltar que a despeito de Nolan ser um cineasta superdimensionado na maioria das vezes, Odisseia é a sua obra mais acessível, por trazer uma intenção mais popular. Não casualmente, Nolan vem se tornando um cineasta tão venerado pela indústria. Discurso político eloquente, valorização da ideia de espetáculo e heróis conflituados em busca de redenção, com desafios quase impossíveis; e música e som imponentes que expressam mais emoção do que as imagens. A Odisseia é mais um filme cinematograficamente conservador de Nolan, com narrativa expositiva e planos dinâmicos, mas sem maiores ousadias. Porém, convenhamos, essas características nem são mais tão surpreendentes assim. Quem sabe, que depois de Odisseia, ele não se torne oficialmente um cineasta paradidático exemplar?

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