Texto por Marco Fialho
Há em Ecos do Teatro Experimental do Negro, documentário dirigido por Daniel Santiago, uma ousadia em abordar o crucial TEN (Teatro Experimental do Negro, alavancado por Abdias Nascimento) e os seus ecos no teatro e cultura brasileira de hoje. Essa ambição traz algo de vigoroso para este documentário, apesar de ser também um ponto de vulnerabilidade narrativa, especialmente por optar por muitas múltiplas vozes que acabam interferindo no resultado final.
Para falar com mais propriedade do TEN o diretor precisou discutir qual era o papel do negro no teatro contemporâneo brasileiro, explorar a realidade do racismo, cuja face mais visível foi a prática absurda do black face (quando um ator branco pintava o rosto de preto para interpretar um personagem negro) e como os teatrólogos construíram os personagens negros. Atores e nomes do teatro negros que participaram desse processo são ouvidos para que se pense o momento de eclosão do TEN e suas consequências para a transformação do nosso teatro.
Um mérito de Ecos do Teatro Experimental do Negro é mostrar a proposta social do TEN para além do próprio teatro, como a estratégia de Abdias de criar núcleos de alfabetização, já que muitos pretendentes a serem atores negros não sabiam ler e escrever. É importante refletir que pelos idos dos anos 1940 e 50 (o TEN foi criado em 1944) era um tempo ainda próximo do período da escravização dos negros brasileiro, daí a ideia de contribuir para que a proposta artística pudesse ser acrescida pela alfabetização.
Se a proposta de amplitude temática de Ecos do Teatro Experimental do Negro é ousada, a da narrativa nem tanto. Todas as entrevistas são filmadas em um plano convencional com a câmera fixa e frontal aos entrevistados enquanto imagens de arquivo são mostradas e continuamos ouvindo essas falas. Essa insistência narrativa se revela um tanto cansativa, já que algumas falas são longas e repetitivas. O documentário possui uma instabilidade narrativa a medida que sua intenção era tratar dos ecos do TEN enquanto se prolonga por demais na análise do próprio TEN e não dos pretendidos ecos.
Não casualmente, os melhores momentos de Ecos do Teatro Experimental do Negro são justamente quando ele aborda os tais ecos, o que só ocorre no último terço do documentário. Ver as repercussões do TEN em nossos dias é o que mais potencializa a obra e o trabalho de Abdias do Nascimento para a dramaturgia brasileira para muito além do seu tempo de existência.
O excesso de depoimentos e a falta de clareza dos blocos temáticos que organizam o documentário são pontos que atrapalham uma maior fluência da obra, que em alguns momentos se mostra ralentada e repetitiva. Depoimentos de atores mais devotados à televisão, como o caso de Taís Araújo não agregam muito à temática abordada. Sente-se falta de se ouvir mais sobre o TEN pela voz do próprio Abdias Nascimento. Mesmo tendo vários depoimentos que citam a ele e o seu legado, falta ouvir as ideias dele sendo ditas por ele mesmo, já que ele viveu numa época em que já era possível fazer gravações de vídeo.
No todo, Ecos do Teatro Experimental do Negro, tem um saldo positivo por trazer uma das temáticas mais importantes da nossa cultura, a do apagamento de atores negros no teatro brasileiro, mesmo que a montagem se revele muitas vezes caótica e provoque repetições desnecessárias. Ainda sim, temos depoimentos preciosos como o de Ruth de Sousa e Léa Garcia, duas atrizes que viveram intensamente o TEN. Esse é um documentário importante como registro e como uma ótima provocação sobre o papel do negro no teatro brasileiro.

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