Texto por Marco Fialho
As Cores do Tempo, novo trabalho do diretor francês Cédric Klapisch, trata de um encontro temporal de uma mesma família. De repente, o rústico final do século XIX se encontra com o tecnológico mundo digital do século XXI, numa tentativa de criar um diálogo entre essas duas temporalidades tão díspares. Klapisch é conhecido por se afeiçoar a um cinema popular, caso marcante do sucesso Albergue Espanhol (2002), e aqui nesse, ele se esmera por realizar algo leve, muito bem filmado e interpretado, mas fugindo de importantes discussões expostas pela trama, como os projetos megalomaníacos típicos do capitalismo corporativista de hoje.
Apesar de suas limitações e de fazer a opção pelo superficial, Klapisch capricha na produção, no acabamento imagético e em personagens jovens carismáticos. Infelizmente, o melhor personagem de As Cores do Tempo, interpretado por Vincent Macaigne, tem a sua força reduzida, sendo relegado a ser um mero coadjuvante, logo ele, o mais questionador da ambição desenfreada de empresas que só pensam em faturar altos lucros e comprar governantes que esperam também se beneficiar do negócio.
A trama circula em torno de uma velha casa aristocrática que foi abandonada por uma família, que a prefeitura de uma cidade reconstitui a árvore genealógica para poder comprá-la e construir um grande empreendimento comercial. A partir daí a família dona do imóvel faz uma visita à residência, o que impactará na vida de alguns deles.
O maior problema de As Cores do Tempo são as sucessivas coincidências que vão se enfileirando cena após cena. Tudo é tão encaixadinho que ficamos com a sensação que Klapisch força a barra para que tudo se encontre "naturalmente", como estabelecer uma ligação entre o fotógrafo Felix Nadar (Fred Testot), nome relacionado à criação do cinema, e Seb, o menino que no século XXI, que igualmente, trabalha com câmeras e mundo digital. Isso tudo para sugerir uma mágica coincidência que só o cinema poderia contar.
Em As Cores do Tempo os flashbacks evocando o passado da família em pleno século XIX vão se alternando com o presente. O primeiro conta a história de Adele Meunier (Suzanne Lindon) de 21 anos que após a morte da avó, vai à Paris em busca da mãe, mas acaba fazendo amizade com dois jovens e descobre uma insólita paternidade. No presente, acompanhamos as diferentes visões da família em relação ao empreendimento, sendo que o enfoque maior recai sobre Seb.
As Cores do Tempo se apresenta como uma obra bonita que tenta criar uma conexão inspiradora com valores que estão sendo abandonados pelo atropelo tecnológico de nossos dias, que impõe transformações vertiginosas, que geram um distanciamento entre as pessoas. Incomoda no filme a pretensão de querer tocar propositalmente a emoção das pessoas, de se esforçar em mostrar como o universo da arte sensibiliza o ser humano e que presente, passado e futuro estão bem mais relacionados do que pensamos.
Há um quê de superficialidade por trás da beleza imagética e sonora que transborda de As Cores do Tempo. Muito porque o filme é repleto de cenas e situações matematicamente pensadas para emocionar o público. Não são conexões que surgem da experiência, e sim, conexões prefabricadas para tocar as pessoas durante a experiência de fruição. É um cinema intencional, de perfumaria, que se utiliza de ardis, de estratégias históricas e emocionais para fisgar o coração da plateia, um cinema para "confortar" a alma em tempos de desilusão capitalista.

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