Pular para o conteúdo principal

AS AVES (2025) Dir. Pedro Magano


Texto por Marco Fialho

As Aves, filme português dirigido por Pedro Magano, se conforma como uma obra com forte viés filosófico, baseado em dois escritos diferentes: um deles, o conto A Morte, o Tempo e o Velho, de Mia Couto; e outro, o livro As Aves, vindo da distante Grécia Antiga, escrito por Aristófanes. 

O filme parte de uma ideia de que vivemos à espera da morte, e que somente a imortalidade nos livraria de prisão absurda que é o nosso cotidiano miserável e repetitivo. Assim vive um velho homem, que sombriamente habita uma região inóspita cercado por um rio que o mantem preso a sua pequena e humilde casa. Sua fonte de alimentação são as aves que mata ou um peixe, cada vez mais raro de ser pescado. 

Pedro Mangano constrói a narrativa de As Aves sem pressa, repetindo ad aeternum ações de seu personagem, que só tem uma Cacatua presa numa gaiola para quem pode dirigir suas palavras de reflexão e indignação ao mundo. De certo modo, essa ave representa a própria prisão do personagem, imerso nessa vida sem grandes novidades e expectativas. 

A rusticidade do local e do personagem caminham juntos, até a chegada de um barco com dois tripulantes, uma jovem menina e um homem com uma roupa preta comprida e com um capuz a esconder a identidade de seu rosto. A imagem desse homem remete à obra de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo (1957) e ao sonho do professor aposentado de Morangos Silvestres (1956), em que a morte personificada se mostra algo significativo para a trama e aqui esse aspecto não é diferente. O velho está de frente para ela, e em breve, terá que prestar contas.

Mas não basta viver em um mundo sombrio. Em As Aves, o lúgubre está nas cores sempre fechadas, em planos gerais lentos que se combinam com closes cruéis, onde rugas e mau humor se combinam violentamente. Os diálogos são poucos, e na maioria das vezes, curtos e diretos. A exceção são as idas do nosso protagonista à biblioteca onde as cores dos livros aparecem em um vermelho insinuante. Aqui os livros representam uma lufada de esperança e cor em um mundo próximo ao purgatório e cercado por sombras e pouca luminosidade.  

As Aves é um filme que requer uma certa paciência por flertar com uma discussão sobre o tempo (representado pela menina, justamente o momento de maior plenitude e vitalidade humana, em que a vida ainda nem sonha esbarrar na morte) e como a nossa consciência da mortalidade modifica nossa relação com o tempo. E como lidamos com a liberdade no mundo que vivemos? Creio que essa seja uma pergunta que ronda a nossa cabeça enquanto assistimos a esse longa curto que bem poderia ser também um curta longo. O tempo, a morte e quem sabe a imortalidade se estabelecem como um jogo narrativo, em que o humor cáustico paira não sobre a narrativa, mas no conjunto, mais especificamente sobre a energia vital da obra. E o pior é a constatação que a nossa vida pode ser tão miserável que nem a morte pode fazer questão de nos levar.             

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...