Texto por Marco Fialho
As Aves, filme português dirigido por Pedro Magano, se conforma como uma obra com forte viés filosófico, baseado em dois escritos diferentes: um deles, o conto A Morte, o Tempo e o Velho, de Mia Couto; e outro, o livro As Aves, vindo da distante Grécia Antiga, escrito por Aristófanes.
O filme parte de uma ideia de que vivemos à espera da morte, e que somente a imortalidade nos livraria de prisão absurda que é o nosso cotidiano miserável e repetitivo. Assim vive um velho homem, que sombriamente habita uma região inóspita cercado por um rio que o mantem preso a sua pequena e humilde casa. Sua fonte de alimentação são as aves que mata ou um peixe, cada vez mais raro de ser pescado.
Pedro Mangano constrói a narrativa de As Aves sem pressa, repetindo ad aeternum ações de seu personagem, que só tem uma Cacatua presa numa gaiola para quem pode dirigir suas palavras de reflexão e indignação ao mundo. De certo modo, essa ave representa a própria prisão do personagem, imerso nessa vida sem grandes novidades e expectativas.
A rusticidade do local e do personagem caminham juntos, até a chegada de um barco com dois tripulantes, uma jovem menina e um homem com uma roupa preta comprida e com um capuz a esconder a identidade de seu rosto. A imagem desse homem remete à obra de Ingmar Bergman, O Sétimo Selo (1957) e ao sonho do professor aposentado de Morangos Silvestres (1956), em que a morte personificada se mostra algo significativo para a trama e aqui esse aspecto não é diferente. O velho está de frente para ela, e em breve, terá que prestar contas.
Mas não basta viver em um mundo sombrio. Em As Aves, o lúgubre está nas cores sempre fechadas, em planos gerais lentos que se combinam com closes cruéis, onde rugas e mau humor se combinam violentamente. Os diálogos são poucos, e na maioria das vezes, curtos e diretos. A exceção são as idas do nosso protagonista à biblioteca onde as cores dos livros aparecem em um vermelho insinuante. Aqui os livros representam uma lufada de esperança e cor em um mundo próximo ao purgatório e cercado por sombras e pouca luminosidade.
As Aves é um filme que requer uma certa paciência por flertar com uma discussão sobre o tempo (representado pela menina, justamente o momento de maior plenitude e vitalidade humana, em que a vida ainda nem sonha esbarrar na morte) e como a nossa consciência da mortalidade modifica nossa relação com o tempo. E como lidamos com a liberdade no mundo que vivemos? Creio que essa seja uma pergunta que ronda a nossa cabeça enquanto assistimos a esse longa curto que bem poderia ser também um curta longo. O tempo, a morte e quem sabe a imortalidade se estabelecem como um jogo narrativo, em que o humor cáustico paira não sobre a narrativa, mas no conjunto, mais especificamente sobre a energia vital da obra. E o pior é a constatação que a nossa vida pode ser tão miserável que nem a morte pode fazer questão de nos levar.

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