Texto por Marco Fialho
A Vida de Maria Manuela, dirigido por João Marques é um documentário sobre a jornada de 4 anos do amadurecimento de uma adolescente à idade adulta. Maria Manuela é uma artista que se relaciona com as cores e as formas de uma maneira muito própria. O filme da vida dela é filmado por um amigo, que a acompanha nessa jornada.
Há muitos registros da personalidade ainda muito infantil da personagem, dos excessos típicos dessa fase da vida e da forte interferência do celular como instrumento de divulgação não só do trabalho como da sua vida. A narrativa se impregna dessa vertigem que é a vida dessa jovem, o que faz com que a primeira parte seja quase intolerável.
Felizmente, a narrativa vai se transformando no decorrer do filme e se modificando tal como a própria personagem, que aos poucos vai deixando o celular de lado e se tornando mais introvertida. Suas sucessivas viagens são registradas, assim como as pinturas das paredes que ela leva a cabo em cada nova moradia. As cores vivas são realmente uma marca imagética de A Vida de Maria Manuela e essas extravagâncias cansam muitas vezes sensorialmente o espectador.
A relação com os pais também está presente no documentário, por mais que seja marcada por ausências. Maria Manuela teve problemas de saúde mental na adolescência, passou por internação em clínicas de reabilitação. A mãe pouco aparece, mas o pai, uma pessoa mais paciente não a abandonou e sempre esteve por perto para dar conforto e carinho, assim como a avó da menina, mas essas relações nunca parecem realmente com alguma força dramática no documentário, são aparições praticamente fugazes e quase aleatórias. Com exceção do pai e do amigo que filma, nenhum outro personagem possui alguma força expressiva na narrativa.
O passo mais importante da vida de Maria Manuela é como ela consegue voltar-se para si e se descolar da vida artificial das redes sociais. A Vida de Maria Manuela narra a vida de uma jovem contemporânea, excessivamente conectada e a tentativa de desligamento dessa vida repleta de energia, mas sem uma essência maior.
Mesmo que a atividade artística seja a melhor parte do documentário, essa necessidade de promover pessoas em celebridade se revela um câncer de nossa época. Não importa mais o que somos, mas sim o que aparentamos para os outros. As imagens céleres no começo se revelam banais e pouco tem a dizer. Quando Maria Manuela se comporta como uma pessoa em busca de si mesma, o filme cresce, mas a experiência de espectoralidade se mostra tão irregular quanto a personagem.

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