Texto por Marco Fialho
A cada novo trabalho a atriz francesa Sandrine Kiberlain prova o quanto o seu talento amadurece vertiginosamente. Em A Divina Sarah Bernhardt, dirigido por Guillaume Nicloux, mais uma vez ela confirma o quanto capaz ela é de atrair para si as atenções do espectador. Essa é uma cinebiografia que valoriza mais a personalidade do que o talento artístico da mais célebre e cultuada atriz francesa da história. A atriz é tratada como um modelo de protocelebridade, por saber mobilizar e jogar com a opinião pública numa época em que a internet ainda nem ameaçava passar por perto de nós.
O filme de Guillaume Nicloux investe no vulcão em erupção que foi Bernhardt, dando a devida oportunidade para que Kiberlain possa brilhar. O lado extravagante e imponente da atriz é o que mais aparece no filme, numa produção bem caprichada embora não muito luxuosa, temperada com os comportamentos audaciosos e vanguardistas da atriz em sua vida pessoal, repleta de inúmeros amigos, a maioria composta por ex-amantes, numa época em que os artistas ainda não eram tão celebridades como em tempos atuais. Sarah Bernhardt se coloca à frente com suas festas e badalações, antecipando a vida louca que seria a grande marca da França nos anos 1920 e que possibilitou a eclosão de diversas vanguardas artísticas.
A narrativa comandada por Guillaume Nicloux caminha célere para captar a intensidade de Bernhardt e não tergiversa ao ir e vir no tempo, usando e abusando dos flashbacks para que personagens possam se encontrar em momentos diversos, caso do ator Lucien Guitry (Laurent Lafitte), grande amor de Sarah Bernhardt e que durante a vida estabeleceu aproximações e distanciamentos, em especial quando casou com a jovem e bela Charlotte Lysès (Mathilde Ollivier), que mais tarde o trocaria pelo filho de Lucien, o jovem Sacha Guitry (Arthur Mazet).
A Divina Sarah Bernhardt é construído como um drama de romance e costumes, cujas relações se sobrepõem às questões artísticas. Quase não há representações de peças ou discussões sobre a natureza do teatro na França do final do século XIX e começo do XX, nem tão pouco não se discute como o cinema impactou no teatro e vice-versa. Guillaume Nicloux transforma o filme uma interessante versão da Revista Caras, dando ênfase nas extravagâncias de uma artista que foi referência para a França e o mundo, inclusive o filme aborda rapidamente uma mensagem que Bernhardt recebe de vários chefes de Estado, inclusive a do Imperador Pedro II do Brasil.
Como o filme centra muito nas relações pessoais de Sarah Bernhardt, é dado destaque para muitas personagens que formavam um tipo de séquito, ávido pela atenção e festas que a artista ofertava aos muitos amigos que tinha. Vale mencionar a presença da pintora Louise Abbéma (numa ótima interpretação de Amira Casar), que desfrutou de muitos momentos íntimos com Bernhardt. Guillaume traça a sua protagonista como uma mulher libertária, entusiasta de farras e bebidas, sem amarras e afeita a romances ocasionais.
Mesmo que A Divina Sarah Bernhardt não seja uma obra magnífica, possui atrativos consideráveis, como a interpretação inebriante de Sandrine Kiberlain e de um elenco afiado, fora uma dinâmica narrativa envolvente, com uma montagem que embaraça a temporalidade para afirmar a personalidade imponente de Sarah Bernhardt. Carece de profundidade? Certamente sim, já que opta por ficar flutuando em fatos que salientam a dor (e nesse aspecto o filme é até cruel) e a delícia de ser uma atriz de sucesso numa época que se descobria os limites públicos de uma personalidade artística.

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