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BOWIE: O ATO FINAL (2025) Dir. Jonathan Stiasny


Texto por Marco Fialho

Apesar de tratar da carreira de um dos maiores ícones pops da música, Bowie: O Ato Final se dignifica por escolher um viés muito bem delimitado: o de trazer à luz alguns momentos difíceis de sua trajetória. O diretor Jonathan Stiasny mergulha nas fases mais obscuras, se esforçando por entender como David Bowie pensava a arte e extraindo desses momentos elementos que colaborou para a sua definição como artista. Talvez seu foco nem seja tanto o da fases em si, mas sim o de captar o modus operandi de Bowie como artista.

Mesmo que o formato convencional expositivo dê o tom narrativo de Bowie: O Ato Final, o recorte da direção alavanca esse documentário, por trazer fases menos conhecidas do astro. Se a narrativa é previsível e baseada sobretudo nos depoimentos frontais de músicos e de pessoas que gravitaram em torno de Bowie, a montagem desorganiza o tempo para poder tornar coerente o discurso cinematográfico. De 1983 o filme parte para 1989, depois retrocede para 1967, 1973, 1994, 1999, 2004, até chegar em 2013 e o começo da preparação do álbum Blackstar (2016), que marcaria o fim de sua caminhada musical.

Jonathan Stiasny compõe um desenho interessante de como David Bowie arcou com os insucessos em nome da coerência artística e de buscar constantemente se reinventar, de não aceitar o sucesso fácil e deitar na fama conquistada. Por isso faz sentido olhar para os supostos "fracassos" como ponto de partida para melhor compreender as escolhas de Bowie. O filme inicia com Bowie na sua fase mais popular, em 1983, com o estrondoso sucesso mundial de Let's Dance, no instante que a indústria identifica a fórmula ideal para o vender como um produto e todos faturarem mais. A propaganda da Pepsi com a cantora Tina Turner e ele é a maior expressão desse sucesso.

Contudo, a avalanche de popularidade só levou Bowie para a crise e para a necessidade de mudar. A inquietude do artista o inclinou para a criação em 1989 da banda Tin Machine, que recebeu diversas críticas duras por parte da crítica. Bowie: O Ato Final registra os depoimentos do guitarrista Reeves Gabrels e do baterista Hunt Sales sobre essa época e como o astro queria apenas ser um integrante de uma banda. 

Bowie: O Ato Final mostra como o artista se manteve fiel à experimentação, como foi o caso da aproximação com a música eletrônica nos anos 1990. Como bem diz um dos entrevistados, "Bowie era o Miles Davis do rock", o que o permitiu criar personagens icônicos na década de 1970, muitos baseados em sua fascinação pelo espaço sideral, o que possibilitou explorar uma imagem alienígena de si mesmo, com maquiagens ousadas e roupas que o fizeram romper com uma identificação determinada de gênero. 

Lá no início da carreira, em 1971, David Bowie, ainda com um figurino inclinado para a moda hippie, tocou em Glastonbury, uma espécie de Woodstock inglês, com grandes descampados e aquela enxurrada de ácidos lisérgicos perpassando e impregnando os jovens frequentadores. Bowie: O Ato Final demarca bem, que logo no ano seguinte Bowie muda pela primeira vez seu visual ao lançar uma nova proposta no disco The Rise And Fall of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars, assumindo uma faceta claramente alienígena nos shows que faria a partir de 1973. Glastonbury retorna 30 anos depois, também como um momento de renascimento da carreira de Bowie e preparação para os últimos álbuns e com uma reconciliação com o passado musical.

Bowie: O Ato Final não resgata muitas entrevistas do astro em seus 90 minutos, pois prefere reconstituir os fatos a partir sobretudo dos músicos que tocaram para ele, mas Jonathan Stiasny recupera uma entrevista para uma TV em que o cantor e compositor enaltece a internet como algo revolucionário. Evidente que na época desse depoimento a internet ainda não era domesticada pelas chamadas big techs como hoje e apontava para algo que poderia realmente gerar uma imensa transformação pelo poder de comunicação e democratização que a rede possuía naquele momento.

Jonathan Stiasny trabalha o último álbum de Bowie, como um gran finale, colocando o artista como alguém capaz de cantar a própria morte. Esse bloco final é o maior problema estrutural do documentário, por não conseguir aprofundar tanto quanto deveria esse último disco de Bowie, afinal, não seria esse o elemento a impulsionar a realização do filme? Carências à parte, o que fica claro é o quanto Blackstar não deixa de ser o réquiem que Bowie inventou para si mesmo. Os clipes evidenciam isso até de maneira assustadora. Mais do que ser um filme sobre o fim, Bowie: O Ato Final sublinha a potência musical de Bowie ao arquitetar um fim à sua imagem e semelhança. Ao que tudo indica, Bowie manipulou a morte de tal forma que parece ter reservado o seu encontro com ela para dois dias após o lançamento de Blackstar.

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