1) Fossilização (RJ) Dir. João Folharini
Pode-se dizer que "Fossilização" narra um encontro sensível entre dois tempos passados e um presente na praia. Participam dele uma menina e sua avó. Incrível como João Folharini lança metáforas poderosíssimas para falar acerca de uma perda. Tudo é tão conciso e forte que fica difícil resistir a força do que vem da tela. Planos e enquadramentos precisos se somam para que a execução abrace ternamente a primorosa concepção da direção em expressar a dificuldade e resiliência para se encarar uma perda irrevogável e fatal, para que o curso da vida continue em seu inexorável fluxo. "Fossilização" é pura poesia, um encontro poderoso da imaginação dolorida de uma criança com a sua fantasia acerca de um fóssil que viveu há mais de 60 milhões de anos atrás.
2) Cama vazia (SP) Dir. Fabio Rogério e Jean-Claude Bernardet
Esse é um curta impressionante, que caminha pelo tortuoso, pela exposição do corpo que questiona o fim inevitável da vida, ao mesmo tempo que abre um espaço para a denúncia acerca dos descaminhos comerciais nos quais a medicina tomou. Uma obra instigante e que abala estruturas filosóficas e socias de uma só vez. Mais uma vez, destaca-se a coragem do crítico de cinema Jean-Claude Bernardet como um ator que pensa o terreno das representações e da autorrepresentação.
3) Ela mora logo ali (RO) Dir. Fabiano Barros e Rafael Rogante
4) Remendo (ES) Dir. Roger Ghil
Tem filmes em que a força do popular se encontra com a performance, embora essa nuance passe quase despercebida pelo viés humorístico que sustenta o filme. Essa é uma produção do Espírito Santo que podia ser baiana, em especial pelo uso de uma comicidade rasgada não muito recorrente nas produções capixabas e que nos faz ver o mundo por uma ótica própria e desconcertante. A representação do modo de viver popular está emaranhado em toda a narrativa leve e irreverente de "Remendo", justamente aquela que aceita o improviso tanto na vida quanto no processo narrativo da obra. A arte do remendo é mais do que uma arte, é uma maneira de ver e levar a vida. Uma delícia de assistir e dar ótimas gargalhadas.5) Os animais mais fofos e engraçados do mundo - Dir. Renato Sircilli (SP)
Sabe aquele filme que possui a capacidade de surpreender a cada nova cena? Esse é o caso de "Os animais mais fofos e engraçados do mundo". Aqui tudo é inusitado e criativo. Gravar o áudio de várias transas que acontecem no motel onde trabalha já seria algo inesperado, mas usá-lo como mote para apimentar a sua relação com o namorado já extrapola qualquer previsão que se podia fazer. Tudo é tão libidinoso, proibido e surpreendente que nos resta absorver o choque e curtir essa aventura sexual sedutora. Sem contar que ninguém daria nada pelo protagonista, jamais imaginaríamos um homem egresso na terceira idade cometer os atos que são praticados. Há cenas explícitas, mas elas casam tão bem com a proposta do diretor Renato Sircilli que o resultado é termos aquele filme que promete muito ousadia e entrega sem dó todos os pingos nos is.6) Era uma noite de São João (PB) Dir. Bruna Velden
A animação "Era uma noite de São João" foi realizada em um período em que as festas juninas não puderam acontecer durante a pandemia e esse fato só faz aumentar o encantamento que este trabalho provoca no espectador. O seu traço é todo inspirado na arte naif, o que acentua ainda mais o seu caráter popular. Tudo nele é envolto de carisma e beleza. A animação narra a história de uma senhora idosa e viúva, Dona Dorinha, que não pode estar junto aos seus familiares e apenas possui o celular como meio de comunicação, que se utiliza de sua memória para relembrar histórias de outras festas de São João e o quão alegres essas foram para ela. O mais bonito e tocante dessa história é a liberdade narrativa que a diretora estabelece para colocar passado, presente e todos os vizinhos da senhora (que de certa maneira representa todos nós) juntos com diversos artistas do nordeste ligados ao São João. De Sivuca a Chico César vão desfilando pelas varandas da vizinhança grandes nomes da nossa música popular, separados em suas casas, porém unidos a preparar um espetáculo possível de São João. Essa é uma obra sobretudo que versa acerca do papel que as artes desempenharam durante ao período mais difícil de nossa história no que tange à sociabilidade e a importância da memória e da afetividade em nossas vidas. Um filme que esbanja sensubilidade, que toca não só uma música que muito diz sobre nossos costumes, a clássica "Que nem jiló", do nosso rei do baião, como atinge a alma bem lá no fundo e mostra a força da animação brasileira. Os desenhos de "Era uma noite de São João" lembra muito os traços simples da arte naif e sua palheta multicor inconfundíveis.
7) Ramal (MG) Dir. Higor Gomes
A princípio, "Ramal" parece ser um filme ingênuo, que quer registrar somente a aventura de jovens de uma periferia qualquer perdida em um interior do Brasil, embora a localização exata seja a cidade de Sabará. Mas aos poucos vemos que o curta é bem mais do que isso, pois o espaço onde ele é filmado, um trecho sem utilidade e abandonado de uma rodovia, revela um mundo à parte, um tipo de possibilidade de vida e liberdade que muitos buscam nos grandes centros e jamais encontram. Sem mais nem menos, nos tornamos voyeur de uma ação que só faz sentido para quem a pratica.
8) Ferro's Bar (SP) Dir. Aline A. Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra e Rita Quadros
O mais precioso desse curta é como ele consegue por meio de um bar, que com o tempo foi sendo ocupado por lésbicas tornar-se um lugar de encontros e conversas, além de ser referencial na luta LGBT. Mesmo que o seu formato seja mais para o convencional em se tratando de documentário, vale à pena cada imagem e depoimento presente nele e por conter um importante registro histórico. Cada personagem que ouvimos é tão rico que vamos conhecendo o bar por meio de suas frequentadoras mais assíduas. A luta das lésbicas para exercer livremente sua sexualidade está presente com muita força e amor nesse documentário. Uma ode a resistência e a resiliência contra todos os tipos de preconceitos.
9) Céu (PB) Dir. Valtyennia Pires
Esse é um documentário em homenagem à memória da ceramista, ativista quilombola e líder comunitária Maria do Céu, vítima de feminicídio. O filme é envolto de uma imensa emoção, filmado em parte na Associação Comunitária das Louceiras Negras da Serra do Talhado, Santa Luzia (PB), com a família e as amigas de Céu. Os depoimentos são fortes e as personagens enaltecem o papel de Céu para o coletivo, da ajuda incansável a quem precisava. A primeira cena é linda: a câmera vem do céu e encontra um lindo jarro feito por Maria do Céu, um objeto muito jeitoso. O filme narra a história de Céu que se mistura com a própria comunidade da Serra do Talhado. "Céu" é um documentário especial e emocionante sobre uma personagem fundamental, colaborativa e voltada para as necessidades de sua comunidade. Um dos pontos altos é o depoimento de Jovelina, que entoa um lindo cântico religioso. Outro ponto forte é quando sua prima Zezé chora ao lembrar do feminicídio do qual Céu foi vítima. A mãe colocando as flores no jarro que vimos lá no início é uma delicada homenagem à memória de Céu. Uma pintura de filme.
10) Thuë pihi kuuwi - uma mulher pensando (RR) Dir. Aida Harika, Edmar Tokorino e Roseane Yariana Yanomami
Essa obra faz parte de uma série de filmes realizados em uma aldeia yanomamis, feitos por eles, o que resultou em uma linguagem cinematográfica única e própria. A maior certeza que temos ao assistir a esse curioso trabalho é que o ponto de vista é de uma mulher yanomami, embora não a vemos, apenas a ouvimos falar sobre práticas culturais de seu povo. A maneira de filmar não é a mesma de nós brancos, se instaura uma narrativa na qual ficamos tentando apreender o seu significado, sem esquecer a importância que os indígenas dão às narrativas orais.


.webp)







Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!