Pular para o conteúdo principal

DESTAQUES DE CURTAS BRASILEIROS 2023

1) Fossilização (RJ) Dir. João Folharini

Pode-se dizer que "Fossilização" narra um encontro sensível entre dois tempos passados e um presente na praia. Participam dele uma menina e sua avó. Incrível como João Folharini lança metáforas poderosíssimas para falar acerca de uma perda. Tudo é tão conciso e forte que fica difícil resistir a força do que vem da tela. Planos e enquadramentos precisos se somam para que a execução abrace ternamente a primorosa concepção da direção em expressar a dificuldade e resiliência para se encarar uma perda irrevogável e fatal, para que o curso da vida continue em seu inexorável fluxo. "Fossilização" é pura poesia, um encontro poderoso da imaginação dolorida de uma criança com a sua fantasia acerca de um fóssil que viveu há mais de 60 milhões de anos atrás.         



2) Cama vazia (SP) Dir. Fabio Rogério e Jean-Claude Bernardet

Esse é um curta impressionante, que caminha pelo tortuoso, pela exposição do corpo que questiona o fim inevitável da vida, ao mesmo tempo que abre um espaço para a denúncia acerca dos descaminhos comerciais nos quais a medicina tomou. Uma obra instigante e que abala estruturas filosóficas e socias de uma só vez. Mais uma vez, destaca-se a coragem do crítico de cinema Jean-Claude Bernardet como um ator que pensa o terreno das representações e da autorrepresentação.   



3) Ela mora logo ali (RO) Dir. Fabiano Barros e Rafael Rogante 



4) Remendo (ES) Dir. Roger Ghil

Tem filmes em que a força do popular se encontra com a performance, embora essa nuance passe quase despercebida pelo viés humorístico que sustenta o filme. Essa é  uma produção do Espírito Santo que podia ser baiana, em especial pelo uso de uma comicidade rasgada não muito recorrente nas produções capixabas e que nos faz ver o mundo por uma ótica própria e desconcertante. A representação do modo de viver popular está emaranhado em toda a narrativa leve e irreverente de "Remendo", justamente aquela que aceita o improviso tanto na vida quanto no processo narrativo da obra. A arte do remendo é mais do que uma arte, é uma maneira de ver e levar a vida. Uma delícia de assistir e dar ótimas gargalhadas.   



5) Os animais mais fofos e engraçados do mundo - Dir. Renato Sircilli (SP)

Sabe aquele filme que possui a capacidade de surpreender a cada nova cena? Esse é o caso de "Os animais mais fofos e engraçados do mundo". Aqui tudo é inusitado e criativo. Gravar o áudio de várias transas que acontecem no motel onde trabalha já seria algo inesperado, mas usá-lo como mote para apimentar a sua relação com o namorado já extrapola qualquer previsão que se podia fazer. Tudo é tão libidinoso, proibido e surpreendente que nos resta absorver o choque e curtir essa aventura sexual sedutora. Sem contar que ninguém daria nada pelo protagonista, jamais imaginaríamos um homem egresso na terceira idade cometer os atos que são praticados. Há cenas explícitas, mas elas casam tão bem com a proposta do diretor Renato Sircilli que o resultado é termos aquele filme que promete muito ousadia e entrega sem dó todos os pingos nos is. 



6) Era uma noite de São João (PB) Dir. Bruna Velden

A animação "Era uma noite de São João" foi realizada em um período em que as festas juninas não puderam acontecer durante a pandemia e esse fato só faz aumentar o encantamento que este trabalho provoca no espectador. O seu traço é todo inspirado na arte naif, o que acentua ainda mais o seu caráter popular. Tudo nele é envolto de carisma e beleza. A animação narra a história de uma senhora idosa e viúva, Dona Dorinha, que não pode estar junto aos seus familiares e apenas possui o celular como meio de comunicação, que se utiliza de sua memória para relembrar histórias de outras festas de São João e o quão alegres essas foram para ela. O mais bonito e tocante dessa história é a liberdade narrativa que a diretora estabelece para colocar passado, presente e todos os vizinhos da senhora (que de certa maneira representa todos nós) juntos com diversos artistas do nordeste ligados ao São João. De Sivuca a Chico César vão desfilando pelas varandas da vizinhança grandes nomes da nossa música popular, separados em suas casas, porém unidos a preparar um espetáculo possível de São João. Essa é uma obra sobretudo que versa acerca do papel que as artes desempenharam durante ao período mais difícil de nossa história no que tange à sociabilidade e a importância da memória e da afetividade em nossas vidas. Um filme que esbanja sensubilidade, que toca não só uma música que muito diz sobre nossos costumes, a clássica "Que nem jiló", do nosso rei do baião, como atinge a alma bem lá no fundo e mostra a força da animação brasileira. Os desenhos de "Era uma noite de São João" lembra muito os traços simples da arte naif e sua palheta multicor inconfundíveis. 



7) Ramal (MG) Dir. Higor Gomes

A princípio, "Ramal" parece ser um filme ingênuo, que quer registrar somente a aventura de jovens de uma periferia qualquer perdida em um interior do Brasil, embora a localização exata seja a cidade de Sabará. Mas aos poucos vemos que o curta é bem mais do que isso, pois o espaço onde ele é filmado, um trecho sem utilidade e abandonado de uma rodovia, revela um mundo à parte, um tipo de possibilidade de vida e liberdade que muitos buscam nos grandes centros e jamais encontram. Sem mais nem menos, nos tornamos voyeur de uma ação que só faz sentido para quem a pratica.  



8) Ferro's Bar (SP) Dir. Aline A. Assis, Fernanda Elias, Nayla Guerra e Rita Quadros 

O mais precioso desse curta é como ele consegue por meio de um bar, que com o tempo foi sendo ocupado por lésbicas tornar-se um lugar de encontros e conversas, além de ser referencial na luta LGBT. Mesmo que o seu formato seja mais para o convencional em se tratando de documentário, vale à pena cada imagem e depoimento presente nele e por conter um importante registro histórico. Cada personagem que ouvimos é tão rico que vamos conhecendo o bar por meio de suas frequentadoras mais assíduas. A luta das lésbicas para exercer livremente sua sexualidade está presente com muita força e amor nesse documentário. Uma ode a resistência e a resiliência contra todos os tipos de preconceitos.  



9) Céu (PB) Dir. Valtyennia Pires

Esse é um documentário em homenagem à memória da ceramista, ativista quilombola e líder comunitária Maria do Céu, vítima de feminicídio. O filme é envolto de uma imensa emoção, filmado em parte na Associação Comunitária das Louceiras Negras da Serra do Talhado, Santa Luzia (PB), com a família e as amigas de Céu. Os depoimentos são fortes e as personagens enaltecem o papel de Céu para o coletivo, da ajuda incansável a quem precisava. A primeira cena é linda: a câmera vem do céu e encontra um lindo jarro feito por Maria do Céu, um objeto muito jeitoso. O filme narra a história de Céu que se mistura com a própria comunidade da Serra do Talhado. "Céu" é um documentário especial e emocionante sobre uma personagem fundamental, colaborativa e voltada para as necessidades de sua comunidade. Um dos pontos altos é o depoimento de Jovelina, que entoa um lindo cântico religioso. Outro ponto forte é quando sua prima Zezé chora ao lembrar do feminicídio do qual Céu foi vítima. A mãe colocando as flores no jarro que vimos lá no início é uma delicada homenagem à memória de Céu. Uma pintura de filme.



10) Thuë pihi kuuwi - uma mulher pensando (RR) Dir. Aida Harika, Edmar Tokorino e Roseane Yariana Yanomami

Essa obra faz parte de uma série de filmes realizados em uma aldeia yanomamis, feitos por eles, o que resultou em uma linguagem cinematográfica única e própria. A maior certeza que temos ao assistir a esse curioso trabalho é que o ponto de vista é de uma mulher yanomami, embora não a vemos, apenas a ouvimos falar sobre práticas culturais de seu povo. A maneira de filmar não é a mesma de nós brancos, se instaura uma narrativa na qual ficamos tentando apreender o seu significado, sem esquecer a importância que os indígenas dão às narrativas orais. 



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...