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O GABINETE DAS FIGURAS DE CERA – Direção de Paul Leni – 1924

A reafirmação do caligarismo

O gabinete das figuras de cera, conforme o próprio título sugere, foi realizado ainda sob a égide estética do caligarismo. Seu diretor, Paul Leni, constrói imensos cenários tridimensionais, tipicamente expressionistas, calcados na suntuosidade das formas. Tal como em O gabinete do Dr. Caligari (1919) é numa feira que o museu está instalado como atração. Feira que pode ser entendida como uma metáfora do caos e desorganização política presentes na República de Weimar (1919-1933).

No filme vemos um jovem sendo contratado por um museu de cera para escrever as histórias de três de conhecidos personagens: o califa Haroun Al-Haschid, Ivan, o Terrível e Jack, o estripador. Mais uma vez o fantástico invade o cinema alemão de maneira surpreendente.  Paul Leni consegue reunir os três maiores atores alemães da época (Werner Krauss, Conrad Veidt e Emil Jannings), cada um representando uma das figuras de cera.

A saliência do exagero permeia a estética do filme, tal e qual na maioria dos filmes expressionistas alemães. A caracterização do personagem do Califa é um ótimo exemplo. A natureza obesa de Emil Jannings é aumentada com enchimentos em sua roupa na região do abdômen. As expressões faciais dos atores também são exacerbadas, assim como os gestos nos momentos mais dramáticos da trama.

Os cenários tridimensionais estão lá a causar uma terrível estranheza no espectador, as partes internas do palácio são labirínticas, com escadas tortuosas e irreais que lembram mais um formigueiro do que um interior palaciano. As casas, assim como seus interiores, possuem uma aparência disforme e claustrofóbica.

Enquanto a atmosfera cômica predominava no episódio do Califa, o tom sombrio e aterrorizante dá o tom no episódio dedicado a Ivan, o Terrível, interpretado por Conrad Veidt, que utiliza o corpo todo em sua construção do personagem. Nenhum detalhe parece fugir de Veidt, a cada andar, gesto ou olhar conduz a cena e o espectador para onde bem entender, demonstra ser um ator que compreende com plenitude a estética idealizada pelos realizadores expressionistas, e por isso mesmo foi um de seus ícones.

No episódio sobre Ivan, o terrível, Paul Leni faz uso de uma temática recorrente nas obras expressionistas, e em especial a caligarista, de promover uma mistura sinistra de ciência e misticismo, com estranhos rituais envolvendo tubos de ensaio, ampulhetas e práticas de magia.

O clima pesado que Leni imprime nesse episódio é salientado por um artificialismo que beira o grotesco, com chapéus maiores do que o normal, vestuários ornamentais, compostos em consonância com os cenários. Tais como o personagem brilhantemente encarnado por Veidt, todos os elementos de cena são falsos, o mal estar se instaura como inerente a esse episódio sobre Ivan, o Terrível, sua personalidade doentia parece conferir o tom desejado pelo diretor.

Jack, o estripador entra na história mais como um epílogo do que como um personagem a ter a sua história contada. Talvez Leni aproveita-se da reconhecida imagem assassina de Jack para realizar uma grande brincadeira com o universo onírico do cinema. Já cansado de escrever as outras duas histórias, o escritor imerge no sono e Leni nos brinda com as imagens mais belas e enigmáticas de todo o filme.

A partir do adormecer do escritor as imagens passam a se duplicar e o personagem de Jack adquire vida para atormentá-lo, perseguindo sua pretendente, a filha do dono do gabinete das figuras de cera. As imagens são impressionantes, com cenários repletos de formas geométricas, tais como em Caligari, numa atmosfera onírica, fantástica, com Jack capturando e assassinando o escritor, que imediatamente é acordado pela sua amada, para nos lembrar de que o filme, tal como as histórias, também é uma fábula.

Paul Leni cria então um curioso paralelo entre as histórias narradas no filme e o próprio cinema, ambos manipuladores de emoções, e assim como para caracterizar a feira como uma diversão barata, escapista e ilusória, um sonho que vale a pena ser vivido, apesar do terror que possa junto trazer.

Texto escrito em 2013 para a mostra "Sombras que assombram", dedicada ao cinema expressionista alemão.

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