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A ÚLTIMA GARGALHADA – Dir. F. W. Murnau (1924)

 

A obra-prima de Murnau

Por Marco Fialho

Além de ser um dos maiores artistas de sua época, Murnau era um dos mais inventivos. Possuía um domínio exemplar da narrativa cinematográfica. Seus filmes primavam pelo ritmo e pela fluência, sabia como ninguém fazer a transposição de um roteiro em uma obra magnífica, seu talento como diretor era decididamente acima da média.

A última gargalhada talvez seja uma de suas obras mais sublimes e impecáveis. Com esse filme Murnau afasta-se mais substancialmente da estética caligarista e reafirma a tendência do Kammerspiel, com a utilização de mais locações do que de cenários, enredos mais realistas do que fantásticos, poucos intertítulos e movimentos de câmera ousados e bem mais rebuscados, aprofundando o estilo já apontado em Nosferatu, dois anos antes.

Com Murnau o expressionismo dilata-se ao libertar o cinema alemão do esteticismo aprisionante do caligarismo, desviando-se para uma vertente mais realista, mas sem abrir mão do uso da metáfora social e humana, típica da verve expressionista.

Do roteiro à montagem A última gargalhada esbanja competência. A começar pelo excepcional roteiro de Carl Mayer, o mais expressivo escritor alemão para cinema dos anos 1920. Logo na primeira sequência somos tomados por uma profunda admiração pelo idoso porteiro, interpretado brilhantemente por Emil Jannings (uma das maiores do cinema), que apesar da chuva torrencial dedica-se como um novato em recolher as bagagens dos clientes que chegam ao hotel. Após carregar um enorme e pesado baú senta para descansar um pouco, para o seu azar, o gerente do hotel vê a cena e resolve que ele não tem mais condições de trabalhar na função e o transfere para realizar um aviltante serviço no banheiro masculino. 

Murnau elege o elegante uniforme do porteiro, em especial o seu pesado casaco como o objeto a simbolizar sua autoestima. Existe todo um cuidado no filmar essa peça do vestuário, de forma a relacionar a decadência profissional do porteiro com o seu uniforme.

Lotte H. Eisner, a maior estudiosa dos filmes alemães dos anos 1920, escreveu com seu conhecimento apurado que “Mayer e Murnau se empenham nessa tragicomédia que é o destino de um porteiro de hotel, orgulhoso de sua libré engalanada, admirado pela família e pelos vizinhos do pátio interno como se fosse um general. Tendo ficado muito velho para carregar bagagens pesadas, ele é removido e encarregado dos lavatórios dos homens; precisa, pois, trocar sua roupa de gala por um simples avental branco. A família sente-se desonrada, ele se torna motivo de escárnio dos vizinhos, que descontam assim a adulação que prodigalizaram outrora. Trata-se de uma tragédia alemã por excelência, que não se compreende senão na Alemanha, onde o uniforme é rei, é Deus. Um espírito latino tem grande dificuldade em conceber seu alcance trágico.” *

A estruturação do roteiro é fundamental no filme. Sem utilizar intertítulos, Carl Mayer constrói sequências bem definidas, com ideias claras. Primeiro a relação do personagem com o trabalho. Depois com os vizinhos e família. No dia seguinte ele volta ao trabalho e recebe o comunicado da perda da função e que exercerá outra função. Sequência a sequência a decadência do porteiro vai se tornando um fato indissolúvel, o roteiro vai esmiuçando a dor e a tristeza desse homem.

Um dos pontos mais fascinantes do filme é justamente o trabalho do ator Emil Jannings, preciso da primeira a última cena. A direção de Murnau despeja todas as suas fichas no trabalho de Jannings, que enfrenta a tarefa com muito talento, explorando cada olhar e gesto que lhe cabe. Jannings consegue atuar com todo o seu corpo, cativando e atraindo a atenção do espectador. Quando veste novamente o garboso uniforme de porteiro e tenta demover o gerente sobre a sua decisão o intento fracassa mais uma vez e soma mais uma derrota. Depois, enquanto um funcionário começa a tirar seu uniforme, a face de Jannings diz tudo, parece que estão extraindo sua pele, e de tabela, a alma e a dignidade. Está tudo ali, representado no corpo de Jannings.         

No decorrer do filme, o andar de Jannings ralenta e o corpo se curva. A fotografia de Karl Freund também acompanha essa degradação do personagem, de início radiosa, fulgurante, depois, a predominância das sombras, a luz fica progressivamente mais rarefeita. Uma cena na qual vale mencionar é quando o novo uniforme lhe é dado e ele se dirige lentamente da luz para a escuridão do subterrâneo banheiro masculino. Freund constrói essa cena magnificamente e Murnau só a corta quando Jannings mergulha em definitivo nas trevas do futuro inferno do ex-porteiro. 

Entretanto, uma das sequências mais criativas e surpreendentes visualmente é a do casamento da filha, que acontece no mesmo dia de sua mudança de função no hotel. Com um misto de felicidade e tristeza, mas ainda mantendo o uso do uniforme para os vizinhos e familiares, após roubá-lo no hotel, o personagem de Jannings bebe todas e dorme sentado.

Murnau então penetra os desejos mais profundos do personagem, reconstruindo em sonho o trabalho dele como porteiro, a levantar baús pesadíssimos como se fossem plumas, os jogando para o alto, fazendo malabarismos impressionantes e sendo aplaudido por uma multidão que reconhece o incrível talento dele como porteiro. Murnau mostra nessa sequência a beleza onírica e a intimidade desse personagem que só queria ser reconhecido profissionalmente. Todavia, o mais incrível nessa cena é a sua construção. Por um breve momento Murnau deixa os sonhos do porteiro nos guiar em uma atmosfera surreal, onde os sonhos levam aos pensamentos mais recônditos do porteiro. Murnau faz a câmera de Freund realizar um bailado inebriante e conduz o espectador ao inconsciente desse homem simples e cheio de vida interior.

O espetáculo visual ofertado por Murnau continua na sequência posterior quando vemos o porteiro indo para o trabalho, e o contraste entre a sua visão do mundo distorcida pela bebida com a nossa de espectador, nítida. Cena, essa sim, totalmente inspirada no expressionismo, onde prevalece não o olhar fantasmagórico do personagem e o situa enquanto indivíduo em mundo demoníaco e trágico.

A maior surpresa do filme Murnau é reservada para o final do filme. Quando já estamos conformados com a derrocada do personagem vivido por Emil Jannings, o diretor lança mão do único intertítulo do filme para nos pregar uma peça. Anuncia que ficou com pena do personagem e resolveu oferta-lhe um final feliz.

Muitas décadas antes de Godard em Acossado, Murnau dialoga com o público afirmando que usará seu poder de criador cinematográfico para escolher o fim que bem o aprouver. Assim, Murnau faz justiça com as próprias mãos e podemos assistir o personagem de Jannings receber uma fortuna inesperada e o ator a esbanjar todo o seu talento, em sequência marcada pela plena realização do personagem. É como se Murnau estivesse dizendo que esse personagem merece um final feliz, e por isso assim vou fazê-lo.

A última gargalhada se constitui em uma obra máxima do cinema, de um diretor soberano, que como poucos conseguiu dignificar o cinema como arte. E o resultado imediato foi o convite para Murnau filmar em Hollywood. E o resultado foi outra obra-prima, Aurora, definitivamente, Murnau era um artista que pertencia ao mundo.

* extraído do livro "A tela demoníaca", Lotte Eisner, Paz & Terra, São Paulo, SP, 2002, p.141

Texto escrito em 2013 para a mostra "Sombras que assombram", em homenagem ao expressionismo alemão no cinema.

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