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SALVAÇÃO (2026) Dir. Emin Alper


Texto por Marco Fialho

Ao ver Salvação pensei de imediato o quanto o cinema turco deveria chegar mais ao nosso circuito, na maioria das vezes levado por uma sucessão de desperdícios comerciais. Lembrei também na marca consistente e impactante da obra monumental de Nuri Bilge Ceylan no próprio cinema turco, em especial o drama consistente e duro que o cinema turco sabe explorar como poucos. 

Salvação, premiado com o Urso de Prata no Festival de Berlim, tem uma intensidade dramática que há muito o cinema hollywoodiano perdeu, e cito esse cinema especificamente por ser o que infelizmente mais nos chega por aqui. O filme narra a história de como se constrói líderes destrutivos, qual a atmosfera e circunstâncias que os forjam e os mantém. É interessante como o diretor Emin Alper soma à narrativa dramática o thriller e elementos fantasmagóricos que fortalecem à trama e o envolvimento do espectador. 

Há uma tensão permanente em torno do personagem de Mesut (Caner Cindoruk), um guerreiro que volta à sua pequena aldeia após combater terroristas que ameaçam a paz da Turquia. O seu território está dividido entre grupos em conflito e Salvação transita pelas tensões geradas por interesses econômicos de clãs de agricultores e comerciantes que disputam as terras após um período de guerra. A trama segue intrigas que deixariam Shakespeare de cabelo em pé, entre traições, assassinatos e um clima de insegurança permanente.

Emin Alper explora com extrema sensibilidade a rusticidade do ambiente de pedras que formam a identidade das aldeias, com a rispidez que molda cada personagem de Salvação. O personagem Sheik Ferit, líder religioso e político do lugar, logo é contestado por sua personalidade conciliadora que tenta amainar os ânimos e as diferenças entre os clãs. Alguns personagens, como Yilmaz (Berkay Ates) são mais extremados e querem resolver tudo pelo uso da força e usarão Mesut para tentar mudar o jogo de poder e interesses de sua aldeia.

Mesut realmente é o grande protagonista de Salvação e Emin Alper cria uma abordagem perspicaz em torno dele. O melhor é como o diretor trabalha com os conflitos internos do personagem, inclusive o passado que fez o pai escolher o irmão Ferit como líder, pela inteligência e estudo, enquanto Mesut se impõe apenas como um guerreiro. Mesut é um supersticioso, um embuste espiritual, que rege sua vida por ressentimentos e desconfianças alimentadas por profecias rudimentares, inventadas a partir de sonhos que só inflamam o ódio pelos seus e pelo outro. A narrativa dos irmãos gêmeos serem um artifício do demônio é a cereja do bolo da ignorância que provoca a desavença e o extermínio e Alper pontua isso com extrema habilidade e eficiência.     

A fotografia de Salvação é também crucial para estabelecer a atmosfera sombria que envolve a trama. A maioria das cenas se passa à noite, o que faz aumentar a sensação de tensão e delírio do filme. Os sonhos constantes de Mesut permeiam a história e torna tudo um mar de incertezas e desconfianças. Salvação também lembra Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, pelas intrigas e como um grupo pode se auto-implodir pela ambição, frustração e desejo de liderança. Mesut e Ferit são irmãos de sangue e em estalar de dedos de amigos e aliados podem se tornar rivais ferozes.    

Salvação ainda conta com a força das personagens femininas, esposas dispostas a ter protagonismo e a influenciar no destino do território, caso de Gulsum (Ozlem Tas) e da destemida Fatma (uma interpretação magnífica de Naz Göktan), dispostas a tudo para impor suas visões de mundo e a lutar pela sobrevivência de suas famílias. A presença delas afirma algo dúbio. De uma parte, traz o machismo inerente às estruturas de poder, e por outro, vislumbra a força das mulheres que não aceitam mais a submissão ao marido. Gulsum e Fatma não estão à mercê de seus maridos, elas pensam e agem por si, o que faz delas personagens marcantes no filme. 

É interessante como Salvação trabalha a construção de uma ideia de intolerância, cujos ingredientes são bem amplos, tendo a religiosidade como sustentáculo para justificar atos incabíveis de violência. A mesquinhez humana está presente com força, assim como as superstições e a ignorância, que sempre levam à humanidade ao irracionalismo e ao absurdo. A força dramática dessa obra nos faz pensar o que seria do cinema se os dramas turcos fossem os nossos corriqueiros blockbusters, ao invés das xaropadas dos super-heróis da Marvel, com certeza o nosso mundo seria outro, porque seríamos forçados a refletir mais sobre ele.   

Por isso, os líderes de Salvação, em especial Mesut, lembra alguns líderes maiores presentes no mundo de hoje, e que são tão perniciosos quanto ele, passíveis de oferecer uma enxurrada de sangue inocente para o mundo, o que mostra que quando o diálogo se extingue, só nos resta a morte desnecessária e sem serventia. Sem contar que assim, nessa monta, a ruína se avizinha. Salvação nos faz pensar esses processos contemporâneos, repletos de genocídio como o de Gaza, de maneira vigorosa, e até assustadora.

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