Texto por Marco Fialho
Carl Theodor Dreyer, cineasta dinamarquês e um dos pioneiros da linguagem cinematográfica, mostrou em A Paixão de Joana D'Arc (1928) o quanto um plano, no caso o close-up, pode ser determinante para que o espectador perceba o filme de uma maneira específica. O close-up na obra dinamarquesa em questão salienta a dramaticidade das cenas e nos faz sentir na própria pele a ardência do fogo e as angústias daquela mulher.
O resgate da obra de Dreyer me foi despertado durante a projeção de Nós Acreditamos em Vocês, drama francês dirigido a quatro mãos por Charlotte Devillers e Arnauld Dufeys e premiado com uma menção especial de melhor primeiro filme, no Festival de Berlim 2025. Essa premiação se mostra coerente especialmente pela forma como o filme acolhe o plano próximo. O seu uso calculado permite uma dupla função: a de concentrar e a de juntar a emoção do espectador com a da personagem Alice, numa interpretação difícil de Myriem Akheddiou, cujo desafio é criar e manter um nível de emoção constante de uma mãe preocupada com a vida do filho Etienne (Ulysse Goffin),
de 11 anos.
A direção utiliza como como mote para prender a atenção do espectador não entregar toda a história de uma vez. Nós Acreditamos em Vocês se passa praticamente todo ele em um fórum da justiça, onde Alice vai lutar para que o pai de Etienne (Laurent Capelluto) seja impedido de ver o menino. Se, por um lado sabemos que há um conflito, por outro não sabemos de imediato exatamente quais são as motivações que movem Alice, mesmo que saibamos que tanto Etienne quanto sua irmã mais velha, a adolescente Lila (Adèle Pinckaers), explicitem sentirem uma grande repulsão pelo pai.
O protagonismo de Alice é construído com muita assertividade pela direção. Em várias cenas, até quando outros personagens falam, a câmera se fixa nas reações da mãe, evidência essa crucial para revelar o ponto de vista adotado desde o início. Em Alice está a proteção, o amor e a luta para que a família continue sem que a presença do pai esteja presente.
O título do filme é sugestivo, pois o suposto olhar de imparcialidade da justiça facilita a reaproximação de um pai cuja violência é notória em cada gesto emitido, por mais que sua presença de tela nem seja muito grande. Até o fim, paira uma isenção da justiça que mais parece indiferença à dor do menino, que revela não querer mais ver o pai. O advogado (Mounir Bennaoum) designado pelo fórum para entrevistar os filhos, por exemplo, assume uma visão francamente masculina ao defender a importância do pai para a vida emocional das crianças, mesmo sabedor da grave acusação que recai sobre ele.
Nós Acreditamos em Vocês é um drama consistente, duro e até desafiador de se ver, especialmente porque somos convidados a assisti-lo a partir do sofrimento da mãe Alice, cujos planos próximos conferem uma dramaticidade a mais e nos mergulham dentro dos conflitos emocionais dela. Apesar do filme ter um peso pela narrativa adotada, há um detalhe fundamental, simples, porém jamais banal, para que fiquemos cativados por ele: o imenso afeto que Alice conduz seus atos, algo realmente cativante e inspirador.
Carl Theodor Dreyer, de certo sentiria orgulho em ver o quanto o cinema, que ele ajudou a sedimentar, consegue ser poderoso pela singela escolha de um plano, no caso aqui o próximo. É interessante ver que ao pinçar uma história que ocorre diariamente em nossa sociedade contemporânea, ela possa ter adquirido uma expressividade a mais, pelo uso consciente dos planos por parte da direção.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!