Texto por Marco Fialho
Pode parecer fácil, mas realizar um documentário sobre um gênio das artes é uma tarefa das mais desafiadoras. Em especial pela sedução do caminho que oferece detalhes encantadores que podem desviar a direção do foco central. Por isso, Ennio, o Maestro, dirigido por Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso) é uma pedra rara. Esse é um documentário encantador que sabe como explorar o talento e a vocação inconteste de Ennio Morricone para a música, sobretudo a arte de fazer trilhas para o cinema. Sem ser didático, Tornatore esmiúça o talento, como se lançasse a devida luz a cada peça de um quebra-cabeça de mil peças difícil de montar.
Poucos compositores se destacaram tanto quanto ele. Podemos citar um John Williams, um Nino Rotta ou um Sakamoto. Entretanto, Ennio se mostrou o mais presente e marcante de todos. Como pensar em um western spaguetti sem a música de Ennio? Leone pode ter sedimentado um subgênero, mas como dissociar isso à música mágica de Ennio? Mas o talento dele não parou por aí, se alastrou por todos os gêneros, da aventura épica, o drama intimista, o filme histórico, a comédia, o filme policial, o filme de guerra, o suspense, e por aí foi, sem preconceito colaborando em histórias maravilhosas e diversas, demonstrando um amor tanto pela música quanto pelo cinema.
O mérito de Tornatore como diretor de Ennio, o Maestro foi de focar no trabalho de Ennio com a música e o cinema, não se perdendo muito em minúcias e fofocas sobre o personagem. A admiração de Tornatore por Ennio se tornou um ponto crucial do documentário, com o maestro aparecendo sentado em uma cadeira em sua casa a falar da carreira como músico desde criança até o sucesso no cinema, que o transformou em um fenômeno de grandes proporções.
Tornatore contou ainda com trechos dos filmes, em que a música de Ennio surge com sua qualidade e originalidade espantosa a cada novo trabalho. Assim, o diretor sem inventar a roda, pode mesclar os filmes com os depoimentos do próprio Ennio Morricone, além de fisgar declarações de diretores e atores que trabalharam com a musicalidade do maestro italiano. Entretanto, são as palavras de Ennio as que mais encantam. Já imaginaram que ele queria ser médico, e foi o pai, um trompetista talentoso, que o obrigou a ser músico e a estudar trompete.
Como é surpreendente ver Ennio explicando algumas trilhas que compôs, os detalhes técnicos que diferenciaram cada trilha que compôs. Ainda tem os caminhos tortuosos que todo o músico precisa passar e a relação com os professores que o desafiaram a ser um profissional melhor, como a dica para estudar composição, o que transformou sua carreira sobremaneira. Mas surpreende ver Ennio se emocionando em muitas de suas falas, e o desafio de compor para o cinema, que para os academicistas da música significava algo menor.
Tem uns detalhes que podem passar desapercebidos pela maioria, mas que revelam sinais significativos sobre Ennio. Enquanto vemos ele sempre sentado em sua poltrona contando contidamente suas histórias, a camisa vermelha parece refletir a pulsação do que está sendo dito e o quanto a sua alma está ali em jogo. Esse vermelho quase sempre salta aos nossos olhos e se torna mais vivo quanto mais Ennio adentra nos assuntos e revela a paixão pelo que faz. É um recurso simples, mas que tem uma funcionalidade e uma verdade impactantes.
Outro aspecto interessante que o diretor Giuseppe Tornatore acrescenta em seu documentário é o contexto da música nos anos 1950 e ele o faz de maneira muito singela, mostrando o quanto a música vivia momentos de imensa ousadia formal, citando Igor Stravinsky e John Cage como exemplos, mas lembrando sempre do papel do cinema na criação e sedimentação de uma ideia de música mais melódica e popular. É o próprio diretor (que trabalhou com Morricone em diversos filmes que dirigiu) quem chama atenção para como Ennio Morricone estava atento aos dois movimentos, tanto o de ruptura quanto o gosto pelo melódico. E essa mistura é a que levaria Ennio para o gosto de trabalhar no cinema. Como esquecer de como ele mesclou a sua música a ideia da música dodecafônica para fazer trilhas marcantes e inovadoras para o cinema.
Um dos pontos mais geniais de todo o documentário é ver como Ennio introduziu o silêncio e o próprio som dos objetos e coisas para pensar uma das mais incríveis trilhas da história do cinema, a que abre a obra-prima Era Uma Vez no Oeste (1964), de outro gênio chamado Sergio Leone. Esse depoimento é de arrepiar, ainda mais quando vemos o filme dialogar com as palavras doces de Ennio de como propôs a Leone executar essa belíssima trilha sem instrumento musical, a não ser a própria gaita tocada pelo personagem de Charles Bronson. Um dos maiores momentos do cinema, do som no cinema e do faroeste no cinema. Um primor de momento.
Ennio, o Maestro é um documentário magistral, envolvente, dinâmico mas que respeita o tempo de pensamento do protagonista. Em especial, o filme permite reflexões importantes do ponto de vista da criação da música no cinema, como a hora em que Morricone cita a importância do diretor deixar o compositor ter liberdade de criar uma música, sem maiores interferências. Evidente, que nem sempre as condições foram ideiais para Ennio compor, mas quem no depois de ouvir algumas de suas trilhas excepcionais, como a que fez com Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares, Era Uma Vez no Oeste) ou para Brian De Palma (Os Intocáveis) ou ainda Rolland Joffé (A Missão), ousaria duvidar do método de criação desse genial compositor?

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