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ANATOMIA DO CAOS (2026) Dir. Dandara Ferreira


Texto por Marco Fialho

Uma das facetas mais relevantes do filme documentário é a da denúncia, o poder que uma obra tem de mexer com a memória coletiva, para que se possa manter acesa a lembrança de um acontecimento. A pandemia do Coronavírus foi um marco para que nos fez enxergar como um país unido em torno de um problema comum, a de um vírus mortal que se alastra rapidamente pela propagação da saliva humana, o que trazia uma necessidade de isolamento social. 

Anatomia do Caos, documentário dirigido por Dandara Ferreira (Meu Nome é Gal), prima pela concisão e precisão ao abordar as investigações da CPI do Coronavírus, que ocorreu no Senado Federal durante o governo genocida de Bolsonaro. Vale ressaltar o quanto ainda é doloroso voltar a esse tema que causou tanto sofrimento para o nosso país. Oficialmente foram mais de 700 mil mortes e um legado de maldade explícita de um governo que brecou todas as possibilidades de contornar o caos sanitário resultante de uma pandemia. Assim, vivemos um problema para além do sanitário, o de um governo negacionista que lutou contra o isolamento social e primou para os interesses meramente econômicos prevalecesse sobre os da saúde coletiva.

Tamanho descaso oficial, levou o país para uma crise sanitária sem igual e despertou em parcelas da sociedade e dos políticos uma revolta e uma luta pela instalação de uma investigação sobre as causas do Brasil ser um dos países com mais mortes pela Covid-19. Anatomia do Caos trabalha com trechos dos pronunciamentos dos membros da CPI instaurada no Senado Federal, que durou de 27/04 a 26/10/2021, presidida por Omar Aziz (PSD/AM), com relatoria de Renan Calheiros (MDB/AL) e que contou com senadores de vários partidos, como Randolfe Rodrigues (REDE/AP), Humberto Costa (PT/PE), Marcos Rogério (DEM/RO), Otto Alencar (PSD/BA) e Eduardo Braga (MDB/AM). Destaco aqui apenas os integrantes citados pelo documentário. O filme registra alguns momentos de tensão entre os senadores bolsonaristas e uma oposição multipartidária, que contava ainda com a presença de uma representante da bancada feminina, liderada pela senadora Simone Tebet (MDB/MS), hoje, filiada ao PSB e ministra do Governo Lula. 

Vale ressaltar o acerto de Lara Beck e Renato Sircilli que realizam um necessário trabalho de montagem que garante um importante didatismo para um tema que precisa ser claro para qualquer pessoa que assistir ao filme, independente de suas crenças ideológicas ou partidárias. As contradições do governo Bolsonaro aparecem com a devida evidência, falas que se contrapõe e contradizem o que foi dito e o que foi efetivamente realizado. As cenas e depoimentos fortes da CPI são entrecortadas com momentos em que Bolsonaro e seus aliados mostravam o quanto de maldade havia em suas ações.

Não há muitos bastidores, a ênfase de Anatomia do Caos fica por conta da seleção inequívoca de fatos pontuais que explicitam a inação proposital de Bolsonaro frente à pandemia, ou mesmo a ação deliberada de virar às costas para a população, como no caso de Manaus, onde o governo não abasteceu a cidade de cilindros de oxigênio, o que levou o sistema de saúde ao colapso. Outro destaque são os depoimentos de importantes agentes envolvidos em diversos escândalos sanitários, como os responsáveis pelas fake news como a "médica" Nise Yamaguchi, que trabalhava com escritos científicos já descartados pelos seus pares ou o dono do plano de saúde Prevent Senior, que mudava os pareceres de Covid-19 depois de duas semanas para diminuir o impacto do número total de mortos.   

Esse é um documentário realmente difícil de se ver, pois essa revisita à pandemia do Coronavírus de 2020 a 2022 traz lembranças terríveis para todos nós, aguça um sentimento de raiva por lembrar o quanto de vida humana foi ceifada por uma indiferença má de vários integrantes do governo Bolsonaro. Como é duro ver um militar como o Gal. Pazuello, um ser totalmente despreparado para exercer o cargo de Ministro da Saúde em um momento de extrema crise sanitária, especialmente depois de ver dois médicos serem demitidos por tentarem encontrar saídas minimamente razoáveis em meio aos caos provocado pela pandemia. 

Além da recusa do governo Bolsonaro em comprar vacinas que já existiam no mercado, Anatomia do Caos mostra a insistência do presidente em promover o tratamento do Coronavírus com remédios sem eficácia científica, que rapidamente foram relacionados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) como incapazes no combate do vírus em questão e que ainda poderiam trazer problemas sérios para a saúde dos pacientes cardíacos. Somados a isso, a CPI do Senado chegou também às denúncias da vacina Covaxin, não aprovada pela Anvisa e com uma proposta de compra muito superior às vacinas existentes no mercado, o que sinalizava mais um caso de corrupção do governo Bolsonaro. 

Entretanto, o mais sofrível de Anatomia do Caos é ter que rever as falas obtusas de Bolsonaro sobre a pandemia, sua insistência em negar a ciência, a vacina (que pôs seu cartão de vacinação sob sigilo) e defender o uso de Cloroquina e Ivermectina como tratamento paliativo, além de proferir suas peculiares grossuras exaltadas por um público que idolatra sua ignorância e mentiras. Pior ainda é ver o então Senador Flávio Bolsonaro (agora pré-candidato à presidência) desferindo suas patadas aos políticos e jornalistas que interrogavam seus frágeis argumentos em defesa do governo genocida de seu pai.

Muito se pode dizer sobre esse acerto de Dandara Ferreira ao filmar Anatomia do Caos, ainda mais agora em 2026, que viveremos mais uma eleição contra a inconsequente extrema direita desse país. O documentário também é oportuno por resgatar um crime de Bolsonaro que foi acobertado pelo Procurador Geral da República da época, o ignóbil Augusto Aras. O que dizer sobre o imenso crime praticado contra o coletivo: um obstinado ataque de ódio aos mais necessitados; aos povos indígenas então desprotegidos; aos que não tinham plano de saúde e foram amontoados em grandes hospitais campanha improvisados; aos que vieram a óbito e cujos familiares não conseguiram sequer estarem presentes nos sepultamentos. Não esquecer é algo deveras sofrível, mas primordial para que não haja mais repetição desse crime contra a saúde pública.                                        

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