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O BOLO DO PRESIDENTE (2025) Dir. Hasan Hadi


Texto por Marco Fialho

Em agosto de 1990, a ONU impôs sanções econômicas ao Iraque de Saddam Hussein, que impedia o país de importar ou exportar produtos de/para outros países. Essa medidas visavam que o Iraque desocupasse o Kuwait. O Bolo do Presidente, vencedor do Caméra D'Or no Festival de Cannes, transcorre nesse período, a dois dias de Saddam Hussein completar 53 anos de idade, momento em que a população sofria com a escassez de água, comida e remédios, o que colapsou o sistema de saúde e a infraestrutura do Iraque. A protagonista do filme é Lamia (Baneen Ahmed Nayyef), uma menina de 9 anos que é sorteada pelo professor da escola para levar um bolo para o dia do aniversário de Saddam. 

O filme me remeteu às obras iranianas dos anos 1980 e 1990, em que as crianças eram as protagonistas das histórias que abordavam a vida opressiva no Irã dos Aiatolás. Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), O Balão Branco (1995), A Cor do Paraíso (1999), Filhos do Paraíso (1997), A Maça (1998), O Jarro (1992), O Silêncio (1998), O Espelho (1997) não deixam de estar presentes em O Bolo do Presidente, que igualmente é um filme contra um processo político de opressão. As crianças como entes simbólicos de um país inviável de viver, como representantes de um período histórico de guerra, um grito quando a humanidade é esquecida pelos donos do poder.      

O Bolo do Presidente mostra a peregrinação de Lamia (uma Baneen Ahmed Nayyef magnética, em uma interpretação brilhante e cativante) para arrumar os ingredientes para fazer o bolo. Ela e a avó Bibi (Waheed Thabet Khreibat) vão ao centro juntas para a realização de tal tarefa. O mérito desse filme é o de penetrar nos meandros de uma sociedade que está literalmente desmoronando, inclusive moralmente. A primeira surpresa de Lamia é com a própria vó que tenta vendê-la para uma outra família. Mas lógico que essa decepção é apenas a primeira para uma menina que será forçada a amadurecer na velocidade da luz.

O interessante de O Bolo do Presidente é não se estabelecer como um filme de metáforas. Sua proposta narrativa é a da evidência dos fatos, a de revelar cena a cena como a sociedade iraquiana lida com as dificuldade econômicas cotidianas, com cada um cuidando apenas de si, sem olhar a necessidade do outro, como se aproveita da situação para se obter vantagens. São várias as cenas construídas com base em roubos, desvios, trambiques e maldades: um pedófilo tenta estuprar Lamia; o seu amiguinho Saeed (Sajad Mohamad Qasem) é um ladrãozinho treinado pelo pai, um deficiente físico vitimado na Guerra entre Irã e Iraque (1980 a 1988); o homem do antiquário compra o relógio de prata deles por uma ninharia; e um comerciante de uma venda rouba o dinheiro deles dizendo que o mesmo era falso. Enfim, são diversos fatos que mostram o quanto estava vulnerável a sociedade naquele momento, lembrando que as crianças eram de uma região campesina e elas não tinham muito traquejo com a cidade grande.

Um dos pontos mais interessantes de O Bolo do Presidente é a bela e expressiva fotografia de Tudor Vladimir Panduru, que salienta as sombras de diversos interiores, os deixando bastante obscuros, com uma aparência de que algo não está muito claro nos encontros entre Lamia e os personagens fortuitos que cruzam pelo seu caminho. As muitas cenas externas foram filmadas no cair da noite ou no nascer do dia e também trabalham um ambiente misterioso e de difícil precisão. É uma opção imagética inteligente e que permeia todo o filme de Hasan Hadi.

Para não dizer que nada em O Bolo do Presidente é simbólico, o filme de Hasan Hadi possui muitas cenas com a imagem do presidente Saddam Hussein, numa atmosfera de constante exaltação a sua figura. Inclusive, as crianças nas escolas gritam: "Saddam Hussein, por ti sacrificaremos as nossas vidas", um lema incentivado pelos próprios professores nas escolas. Se salienta o quanto o regime mesmo em plena crise de abastecimento força a sociedade a comemorar o aniversário de seu líder político supremo, independente se as crianças tenham ou não o que comer em casa. O personalismo político impera sobre tudo e todos. Toda essa exaltação fará Saeed, o melhor amigo de Lamia dizer que o seu sonho era ser presidente para poder comer todos os bolos feitos para ele.  

Ao realizar o filme dentro de uma ideia realista, Hasan Hadi usa a câmera de maneira concisa, que fica à mercê da impactante história, mas sem roubar a cena, permitindo uma liberdade na encenação dos atores ao abusar de planos médios e gerais, já que não esquece que o Iraque é também um personagem importante a ser mostrado. Os planos são bonitos e valorizam o cerne dramático da narrativa, sem esquecer da objetividade como crucial na construção da mise-en-scène, sem excessos dramáticos apelativos. O que vemos é a jornada de amadurecimento forçado de Lamia e sua luta para se manter digna à frente dos absurdos de um mundo desgovernado. A presença do galo Hindi, o fiel bicho de estimação de Lamia, traduz a capacidade incontida de amor dessa criança que descobre que não é amada no meio do redemoinho da vida. Hindi é a única certeza de amor incondicional que Lamia tem no mundo e por isso vai às últimas consequências do risco para recuperá-lo, logo depois que Saeed o perde enquanto ela reza numa mesquita. A direção sabe explorar o elenco infantil de não atores profissionais e tece uma construção dramatúrgica em interação com o ambiente de guerra existente no Iraque. Essa mistura acentua o realismo e a verdade das cenas. 

Cabe refletir elementos que estão no filme e que dialogam diretamente com modos de enxergar a sociedade, de como ela ordena o cotidiano. Uma boa régua para se medir o quanto uma sociedade é bem-sucedida é ver como funciona a escola pública. Em O Bolo do Presidente, este espaço, que deveria ser de partilha do conhecimento se transforma em um apanágio do poder estabelecido, com direito a todos os toques possíveis de autoritarismo. O professor estimula o projeto de poder de Saddam Hussein e no dia do aniversário do ditador, como prova de lealdade (e de puxa-saquismo), se veste como ele, em um simbólico de subserviência vil de quem deveria transmitir dignidade e postura crítica a seus alunos. O professor é uma figura imponente e ao mesmo tempo frágil em sua autoridade e que se ampara no autoritarismo para se impor perante à classe, além de se revelar um ladrão ao roubar a maça de Lamia, sua única certeza de alimentação daquele dia. 

No final de O Bolo do Presidente o diretor Hasan Hadi exibe uma filmagem de 1987, data em que Saddam Hussein completou 50 anos, o que mostra toda a pompa reservada para as festividades de aniversário do ditador iraquiano. Essas imagens servem como um ótimo contraste em relação às bombas que atingem escolas, casas de civis e hospitais, matando e ferindo inocentes enquanto os poderosos continuam suas jornadas de privilégio e ganância. Filmes como O Bolo do Presidente são necessários para conscientizar o mundo contra as barbaridades levadas à frente pelos senhores das guerras. E dar protagonismo a uma criança, o filme escolhe brilhantemente de qual ponto de vista decidiu contar esse trágico momento da história iraquiana.

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