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CRIADAS (2025) Dir. Carol Rodrigues


Texto por Marco Fialho

Criadas é um filme sobre relações interpessoais e uma casa numa região hoje gentrificada na capital paulista. A direção de Carol Rodrigues explora essa casa como o simbólico de uma opressão racista e classista revelada a partir do encontro entre Mariana (Ana Flavia Cavalcanti) e Sandra (Mawusi Tulani), duas primas negras que vivenciaram a mesma casa, mas com experiências e posições completamente diferentes. Mariana como a filha da dona da casa e Sandra como a filha da empregada doméstica Ivone. 

No transcurso de Criadas fica evidente o quanto a casa se coloca como um personagem crucial e carrega memórias e fantasmas sociais para além da família e de seus empregados, pois ela representa em sua própria divisão espacial uma forma de poder e opressão. Não casualmente, os fantasmas do passado brotam inconscientemente por meio de Mariana e Sandra, afinal não há como conceber o presente apagando os fatos vividos naquele ambiente. 

Criadas é sobretudo uma obra que não foge dos conflitos. Mariana teve uma formação mais confortável do que Sandra e elas apesar do afeto verdadeiro possuem diferenças que o próprio título do filme expõe, afinal foram criadas de maneira bem diferente. Mesmo tendo criações diversas, Sandra se formou engenheira civil enquanto Mariana se formou como chefe de cozinha, apesar de reconhecer que aprendeu a cozinhar com a Ivone, a mãe de Sandra. Criadas trabalha com a ideia do colorismo, de como a sociedade discrimina mais as pessoas negras de pele retinta do que as de pele mais clara (também chamadas de pardas). Muitas vezes, essas diferenças de tonalidade são usadas pelos brancos para amenizar a ideia de que vivemos uma democracia racial no Brasil.

A direção de Carol Rodrigues opta por narrar toda a relação de poder e de racismo vindo de fora sem abrir mão da casa como único cenário do filme, o que reforça a imagem de que o que foi e é vivido ali naquele espaço de intimidade sustenta os aparatos de poder discutido no filme. É numa conversa entre Mariana e Sandra que esta última revela o quanto o chefe não lhe atribui o melhor cargo por ela não passar uma imagem de sucesso da construtora do qual é dono. E depois, mais à frente, numa festa que Sandra dá na casa de Mariana com a turma do trabalho, a colega de Sandra depois de transar com Mariana estranha o fato dela ter a pele mais clara do que Sandra e duvida delas serem primas por este motivo. Como nos vemos e como nos veem? Essas são perguntas que Criadas deixa para a reflexão. Ainda na festa, o patrão de Sandra confessa ter a contratado por uma questão de ter uma cota reservada aos negros, mas que depois viu o quanto ela era competente independente da cota. São nuances e fatos racistas que são naturalizados pela sociedade, mas que a direção traz como elementos de como o racismo se conforma no Brasil.

Entretanto, Criadas mistura fatos realistas com uma ideia de fantasmagoria, pois não é só do presente que se está falando, mas também de como o passado está materializado no cotidiano e como a casa representa até mesmo pela arquitetura a própria estrutura da discriminação racial no Brasil, como a existência do espaço físico quarto de empregada nos apartamentos e casas das camadas médias nos centros urbanos, como uma extensão da ideia de casa grande e senzala das fazendas monocultoras dos períodos colonial e imperial, sustentadas pelo trabalho de negros escravizados. 

O aspecto fantasmagórico de Criadas se ampara na ancestralidade e por isso a sequência do encontro de Ivone (Yvi Souza) com Mariana e Sandra é exemplar quanto a isso. Se durante todo o filme a figura de Ivone é invisibilizada e aparece como um rosto negro desfocado, nesse encontro espiritual com a filha e a sobrinha ela surge como uma mulher liberta pela ancestralidade. A consciência e a autoconsciência impregnam a narrativa de Criadas, que se desenha como um drama psicológico com toques de um filme de terror que se expressa pela subjetividade fabular das personagens e pelo uso de um som que abre um caminho para um ambiente fantasmagórico. 

É surpreendente a maneira como Carol Rodrigues permite que o filme reaja à situação histórica e opte pela destruição do espaço opressor. Se o mundo precisa de outras formas de convivência e interrelação, esta só será possível a partir da demolição material que representa fisicamente a opressão e a qual a espiritual está estritamente relacionada. Essa é uma reflexão altamente propícia que Criadas traz como uma indagação poderosa para discutir como a nossa sociedade se organiza e como precisamos realinhá-la para continuarmos a caminhar. É um cinema que pensa a reimaginação como um elemento fundamental e fundador tanto da ficção quanto da realidade.

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