Texto por Marco Fialho
Assistir a um filme de Almodóvar é sempre especial, o momento de sentir como ele vê a vida e o cinema como algo profundamente íntimos. Natal Amargo é assim, mais uma ode do mestre espanhol ao pensar e à construção de uma obra em seus mais recônditos encontros do artista com a sua criação. Mesmo que essa não seja a mais plena obra de Almodóvar, há um prazer em ver mais uma vez na tela a sua marca inconfundível, a do melodrama classudo costurando toda a trama.
Em Natal Amargo encontramos mais uma vez Almodóvar se voltando para a autoficção, para usar o termo que ele mesmo gosta de empregar, como já o havia feito em Dor e Glória (2019). Se antes o seu alterego foi Antonio Banderas, agora é Leonardo Sbaraglia que assume o posto com o personagem Raúl, um cineasta que busca em um passado próximo, o ano de 2004, uma história repleta de dor e culpa, características de um bom melodrama como Almodóvar tanto aprecia.
Mas há algo de estranho em Natal Amargo, que é o fato do protagonista da história, Raúl, aparecer muito pouco, embora muito do que vemos é a história que está escrevendo, tanto que as palavras escritas para o roteiro de seu novo projeto brotam na tela como um prolongamento seu como uma espécie de narrador oculto e esse é o aspecto mais interessante desse formato metalinguístico que Almodóvar assume em sua narrativa.
Raúl (Almodóvar) mergulha o público em sua escrita, enquanto ele escreve nós vemos aquelas palavras se materializarem em imagem e falas. Essa integração entre o que é pensado e o que se vê talvez seja a maior novidade que Almodóvar traga para o seu filme, um melodrama visto por dentro, em seu processo de elaboração. E na história narrada, eclode o drama de Elsa (Bárbara Lennie), uma cineasta que se relaciona com Bonifácio ou Beau (Patrick Criado), um bombeiro que também é stripper. Elsa tem crise de pânico e sofre com insuportáveis dores de cabeça.
Almodóvar tenta então trabalhar Raúl por meio da história que conta, e mais ainda quando ele trata do roteiro que Elsa está esboçando de um novo filme. Assim, estamos diante de um filme dentro do filme, que também possui outro filme dentro dele. É um tipo de metalinguagem dentro da metalinguagem, como se criar uma história dentro de outra livrasse o autor original (Raúl) da criação de sua personagem. Raúl se aproveita de Elsa para inserir uma história da esposa de sua secretária na história que Elsa está contando, não diretamente na sua, mas da personagem que criou, um claro mecanismo de subterfúgio. São camadas de histórias sobrepostas que dialogam entre si, em um complexo jogo de significados e significantes. A interrelação desse sistema de narrativas emaranhadas não deve ser acusada de confusa, pode até ser entendida como superficial, já que cada uma das histórias ficam pelo caminho, se tornam por demais fugidias e pouco se detém delas.
Uma personagem feminina forte, bem ao gosto de Almodóvar é Mônica, uma excelente Aitana Sanchez-Gijón, que equilibra fragilidade com uma postura imponente, sendo cativante nessas duas versões. Ela é a secretária pessoal de Raúl, o seu braço direito e leitora prévia especial de seus roteiros. A discussão entre eles sobre o seu novo texto para um filme, nada mais é do que uma discussão (e porque não dizer uma desconstrução) acerca de tudo o que vemos na tela. Almodóvar faz isso soar leve, mas evidente que há uma ousadia nessa proposta, onde diversos pontos da história narrada são questionados, como o uso da vida privada alheia ser inserida no texto ou porque dar uma subalternidade a algum personagem, como o de Beau, namorado de Elsa? São falas duras que colidem com o próprio filme e com o processo de qualquer filme, inclusive esse.
Se em Dor e Glória Almodóvar se fixou no mergulho em suas memórias, em Natal Amargo o interesse recai sobre os sofrimentos e as pressões da vida, a difícil tarefa de se pensar e expressar por meio de personagens, afinal, cabe à arte refletir sobre seus processos criativos e como se filtra a vida para inseri-la na arte. A metalinguagem em Natal Amargo não está na realização do filme em si, mas na elaboração do argumento e do roteiro como matéria-prima da obra final. É interessante a discussão sobre como as narrativas ficcionais invadem a vida contemporânea de uma maneira profunda, em um movimento que põe em suspenso a própria ideia de realidade e subjetividade. As narrativas embaralham e enevoam a visão dos indivíduos em um mundo que se dispersa em palavras e histórias. O quanto de nós e de autor está inserido nas narrativas ficcionais?
Independente de se colocar em meio a uma balbúrdia de versões e histórias, Almodóvar demonstra mais uma vez uma grande capacidade de realização cinematográfica e filma planos lindíssimos, aliás, como de praxe em suas obras. Abusa dos planos próximos e dos closes como se quisesse afirmar o amor que tem pelos seus personagens e o desejo de intimidade por cada um deles, sobretudo pelas personagens femininas que são centrais em Natal Amargo. O filme se apoia muito na montagem, que passeia pelo tempo presente que se mistura com o tempo da imaginação ficcional, que retrocede há 22 anos atrás. É muito hábil a costura que a montadora Teresa Font propõe amarrando bem as idas e vindas que perpassa toda a narrativa. Normalmente são as palavras escritas do roteiro de Raúl encravadas na tela que facilitam uma mudança temporal.
Contudo, vale assinalar que o mais bonito de Natal Amargo é a sua trilha sonora, assinada por Aberto Iglesias, que assinou quase todos os filmes de Almodóvar. O compositor sabe dosar elegância, dramaticidade e sofisticação a um só tempo, tarefa difícil quando estamos defronte de um melodrama, subgênero marcado por ações exageradas dos personagens. O que dizer da inserção da compositora Chavela Vargas, com canções que captam com extrema sensibilidade os sentimentos dos personagens, é incrível como esses interagem às canções dessa compositora que nasceu na Costa Rica, mas fez toda a sua carreira no México. Quando ela canta Llorona, um clássico de seu repertório, é de arrepiar e Almodóvar filma simplesmente uma das cenas mais bonitas de sua carreira, no mesmo tom de quando Caetano Veloso canta ao vivo Cucurrucucu Paloma em Fale Com Ela (2002).
Mesmo que Natal Amargo tenha alguns problemas de roteiro, com histórias que são deixadas se confundem pelo excesso de personagens, o filme encanta pelo melodrama metalinguístico. Rossy de Palma, uma atriz fetiche em sua filmografia, só precisa de alguns minutos para brilhar. Ela diz uma frase fantástica: "o amor é coisa simples. As coisas simples o tempo devora." Nas entrelinhas, Almodóvar diz que o cotidiano é apagado pelo tempo, mas a arte não. Assim, é colocado frontalmente a questão do cinema como manipulação, não à toa, a imagem que fica é a de uma mão a digitar ininterruptamente em um computador. Seria a arte algo maior do que a própria vida cotidiana?

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