Texto por Marco Fialho
Tem sido cada vez mais recorrente os filmes dramáticos que exploram o suspense em suas narrativas. É o caso de Fora de Controle, dirigido pela francesa Anne Le Ny, que embora muito bem dirigido, não foge de uma abordagem convencional, já que o enredo e o tratamento lembra muito alguns filmes hollywoodianos que enfocam o adultério.
Um elemento interessante de Fora de Controle é a maneira sóbria com que a diretora trata o drama, sem adicionar toques melodramáticos apelativos para acentuar algo que está dado. Assim, a trama que envolve a crise da família de Marie (Élodie Bouchez), o marido Julien (Omar Sy) e suas duas filhas, mas que precisa lidar com a chegada de dois agentes perturbadores: Anaëlle (Vanessa Paradis), a ex-namorada de Julien e Thomas Radiguet (José Garcia), o chefão de Marie, que se encanta por ela.
O dinamismo da câmera, que se movimenta com agilidade pelos cenários para conduzir o olhar do espectador para dentro dos acontecimentos que transcorrem e o faz com o envolvimento preciso, em que os olhares dos personagens possuem um papel determinante para o desenvolvimento das aproximações e dos conflitos.
O filme de Anne Le Ny poderia ter aprofundado melhor nas questões contemporâneas do mundo do trabalho, mas a diretora prefere enfatizar mais nos conflitos de relacionamento amoroso a meter o dedo na ferida de relações perniciosas vividas dentro de uma fábrica (na qual trabalha Marie e Radiguet) e uma escola (na qual trabalha Julien). A personagem de Vanessa Paradis poderia ser melhor explorada e não consegue sair do segundo plano na trama.
Fora de Controle não ousa, opta pela simplicidade narrativa e nas interpretações de um elenco afiado e muito bem ensaiado, com destaque para Omar Sy, em um perfil de personagem fora de sua curva, mas que ele se dá muito bem, e de Élodie Bouchez, muito atenta aos mínimos detalhes para potencializar sua personagem. Mas é José Garcia que rouba a cena como o obcecado Radiguet, um chefe cuja ousadia no assédio a Marie passa de todos os limites do tolerável. A sua loucura é o que vai virar a chave romântica para a do suspense, numa trama que lembra Atração Fatal, o thriller erótico de Adrian Lyne, com Glenn Close arrepiando como a assediadora implacável.
O maior mérito de Fora de Controle é conseguir prender o espectador da primeira até a última cena. Mas o seu ponto fraco é se revelar um filme previsível e sem grandes surpresas, com um final francamente feliz, o que o torna uma obra bem acabada, mas esquecível. Esse é um filme francês bem típico de sua geração, aquele que flerta com a narrativa clássica de Hollywood e se afasta mais um passo da tradição narrativa contestadora da nouvelle vague. São os (maus) sinais dos tempos.

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