Pular para o conteúdo principal

FORA DE CONTROLE (2025) Dir. Anne Le Ny


Texto por Marco Fialho

Tem sido cada vez mais recorrente os filmes dramáticos que exploram o suspense em suas narrativas. É o caso de Fora de Controle, dirigido pela francesa Anne Le Ny, que embora muito bem dirigido, não foge de uma abordagem convencional, já que o enredo e o tratamento lembra muito alguns filmes hollywoodianos que enfocam o adultério.

Um elemento interessante de Fora de Controle é a maneira sóbria com que a diretora trata o drama, sem adicionar toques melodramáticos apelativos para acentuar algo que está dado. Assim, a trama que envolve a crise da família de Marie (Élodie Bouchez), o marido Julien (Omar Sy) e suas duas filhas, mas que precisa lidar com a chegada de dois agentes perturbadores: Anaëlle (Vanessa Paradis), a ex-namorada de Julien e Thomas Radiguet (José Garcia), o chefão de Marie, que se encanta por ela. 

O dinamismo da câmera, que se movimenta com agilidade pelos cenários para conduzir o olhar do espectador para dentro dos acontecimentos que transcorrem e o faz com o envolvimento preciso, em que os olhares dos personagens possuem um papel determinante para o desenvolvimento das aproximações e dos conflitos.      

O filme de Anne Le Ny poderia ter aprofundado melhor nas questões contemporâneas do mundo do trabalho, mas a diretora prefere enfatizar mais nos conflitos de relacionamento amoroso a meter o dedo na ferida de relações perniciosas vividas dentro de uma fábrica (na qual trabalha Marie e Radiguet) e uma escola (na qual trabalha Julien). A personagem de Vanessa Paradis poderia ser melhor explorada e não consegue sair do segundo plano na trama.     

Fora de Controle não ousa, opta pela simplicidade narrativa e nas interpretações de um elenco afiado e muito bem ensaiado, com destaque para Omar Sy, em um perfil de personagem fora de sua curva, mas que ele se dá muito bem, e de Élodie Bouchez, muito atenta aos mínimos detalhes para potencializar sua personagem. Mas é José Garcia que rouba a cena como o obcecado Radiguet, um chefe cuja ousadia no assédio a Marie passa de todos os limites do tolerável. A sua loucura é o que vai virar a chave romântica para a do suspense, numa trama que lembra Atração Fatal, o thriller erótico de Adrian Lyne, com Glenn Close arrepiando como a assediadora implacável.

O maior mérito de Fora de Controle é conseguir prender o espectador da primeira até a última cena. Mas o seu ponto fraco é se revelar um filme previsível e sem grandes surpresas, com um final francamente feliz, o que o torna uma obra bem acabada, mas esquecível. Esse é um filme francês bem típico de sua geração, aquele que flerta com a narrativa clássica de Hollywood e se afasta mais um passo da tradição narrativa contestadora da nouvelle vague. São os (maus) sinais dos tempos. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...