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PAI MÃE IRMÃ IRMÃO (2025) Dir. Jim Jarmusch


Texto por Marco Fialho

O título Pai Mãe Irmã Irmão não deixa de ser um ardil que o diretor Jim Jarmusch interpõe no caminho do espectador. Logo que inicia o filme vem o letreiro Pai colocado para que estabeleça uma primeira parte. A seguir, uma nova parte começa e ela se chama Mãe, o que de cara deduzimos que seria um continuidade do outro. Entretanto, em algum momento constatamos que cada "parte" possui uma independência, embora efetivamente exista uma integração e ela ocorre pela temática e por critérios estilísticos, ou se preferirmos por nuances cinematográficas. Assim, Pai se desenha como um primeiro episódio; Mãe como um segundo episódio; e Irmã Irmão como um último episódio, cada qual com seus atores e personagens próprios. 

Se cada episódio é independente um do outro, o ardil de Jarmusch, que expusemos acima, se evidencia pela temática familiar. O que unifica ou agrega os três episódios é alguma medida de esfacelamento de uma ideia de família burguesa intrínseca a todas as 3 famílias abordadas na trama. Pai Mãe Irmã Irmão, agraciado com o Leão de Ouro no Festival de Veneza, se desenha como um belo tríptico, que juntos formam uma beleza única, são as artimanhas de um quebra-cabeça sofisticado que Jarmusch nos propõe jogar junto a ele. 

Na primeira, o bem-sucedido filho (Adam Driver) e a austera filha (Mayim Bialik) vão visitar o solitário e excêntrico pai (Tom Waits) que mora numa região distante de New Jersey. O tom desse episódio é de um humor contido e farsesco, temperado por uma sensação de cinismo no ar. Todos representam um papel e a certeza de que ninguém conhece o outro, pois a família ali é só um acidente genético. Tom Waits está brilhante como o pai desleixado e supostamente carente de recursos, mas que sabe como tirar dinheiro do filho inseguro. O distanciamento interpessoal é a grande marca dessa relação familiar. É notório o mal-estar de todos os 3 durante o encontro, a sensação é de que todos só esperam que o tempo passe rápido e cada um possa voltar a sua vida cotidiana, o desconforto é tão intenso, que chega até a plateia.   

Na segunda família, a mãe (Charlotte Rampling), é uma bem-sucedida escritora de Best-Sellers que recebe a visita anual das duas filhas, uma introvertida (Cate Blanchett) e outra uma influenciadora digital (Vicky Krieps). Jim Jarmusch constrói essas duas primeiras histórias de maneira muito similar, com pequenas nuances de diferença, já que aqui a mãe vive economicamente melhor do que as filhas. O que parece é que ninguém avança além da superficialidade de suas vidas, nunca nenhum assunto é aprofundado e o encontro perturba pela formalidade excessiva numa relação entre mãe e filhas e irmãs, como demonstrada na belíssima e refinada mesa do lanche. A personagem de Vicky Krieps mora com uma mulher, mas chega no banco de trás do carro simulando que veio de Uber para a mãe, escondendo dela mais um detalhe importante de sua vida. 

Na terceira família, dois irmãos gêmeos negros, um rapaz (Luka Sabbat) e uma moça (Indya Moore) se encontram no dia em que precisam entregar o apartamento alugado dos pais, que morreram em um acidente aéreo. Aqui, a família já está verdadeiramente desintegrada e o que resta são as memórias deixadas pelos objetos e pela casa que não verão mais a partir daquele dia. Os objetos estão em um depósito que eles visitam juntos e onde tentamos calcular como seria a casa montada dos seus pais, com os móveis velhos. A nostalgia e a melancolia dá o tom a esse último episódio. Na conversa amorosa que ocorre entre eles, chega-se a conclusão do quanto os seus pais eram doidos e o quanto ambos não os conheciam bem. 

Vistas em conjunto, as 3 histórias soam tristes, como se cada uma das peças estivessem fora do lugar e a sensação de descolamento é a marca dessas relações. Para aumentar essa sensação, Jim Jarmusch trabalha com elementos que se repetem nos 3 episódios, como a água que aparece um simbólico de uma maternidade e paternidade ausente, pois a água sempre é consumida. Ainda tem a aparição do relógio rolex como algo em comum, representando um objeto relacionado a importância do dinheiro nas relações entre os entes familiares. Sempre tem um que se aproveita do dinheiro do outro. Em todos os episódios tem um brinde, gesto que mostra o quanto os encontros são raros e precisam ser assim demarcados. Ainda tem a reiteração nos episódios da expressão "no meio do nada", traduzida no Brasil como cu do mundo, ótima para reafirmar o distanciamento tanto físico quanto pessoal entre os personagens. Outra expressão usada é "Bob é o seu tio", forma inglesa de dizer que todos estão conformados com a situação tal como ela está colocada. 

É interessante assinalar que essa interrelação entre os episódios são todas confirmações da interferência da direção na história, como se Jim Jarmusch estivesse interrompendo continuadamente a trama para dizer: "essa história é uma criação minha e eu posso arbitrariamente incluir essas repetições de maneira a fazê-los pensar em determinados aspectos e intenções dessa história". É nesse momento, o das repetições, que lembrei do filme Paterson (2016), do próprio Jim Jarmusch, onde esse artifício foi amplamente utilizado. Essa é uma marca estilística do diretor e ele as introduz de uma maneira sempre muito elegante e com uma intenção de sublinhar aspectos importantes postos na narrativa. Por isso, em todos os episódios vemos garotos brincando com seus skates, celebrando uma liberdade que talvez o mundo adulto já tenha perdido e a leveza dessas imagens asseguram essa sensação. São imagens aparentemente aleatórias, mas que as suas repetições insinuam algo.            

Quero terminar dizendo que Pai Mãe Irmã Irmão é uma obra deliciosa de assistir, como tantas outras de Jim Jarmusch, um dos grandes diretores dos Estados Unidos. Aqui ele abusa dos planos academicamente corretos, não invencionices ou uma câmera mirabolante. Há um visível prazer em realizar cada plano, tudo filmado sem pressa, como se quisesse também reinventar o tempo a seu bel-prazer, ratificando a deificação que tanto Jean-Luc Godard imputou aos cineastas, como criadores de um universo a sua imagem e semelhança. Jarmusch tem consciência disso, ele quer inventar um mundo só para ele. Mas o melhor disso é que nos convidar a desfrutar de toda essa ousadia.  


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