Texto por Marco Fialho
Tem filmes que deveriam ser obrigatórios e exibidos gratuitamente para todos os cidadãos do Rio de Janeiro como utilidade pública, claro com os devidos direitos de exibição pagos à distribuidora. É o caso de Cheiro de Diesel, das diretoras Natasha Neri (do ótimo Auto de Resistência) e Gizele Martins. Os moradores do asfalto deveriam assisti-lo para conhecer o ponto de vista de quem vive nas favelas, e que mormente, são noticiados de maneira deturpada, e conivente para os donos do poder, pelos grandes órgãos de imprensa. Já os moradores da favela deveriam ver para melhor se conscientizarem acerca da importância da organização política e luta pelos seus direitos essenciais à vida e fortalecerem a ideia de coletivo, que já é algo intrínseco para quem habita nesse território.
Cheiro de Diesel trata das consequências da lei conhecida por GLO (Garantia da Lei e da Ordem), que permite que o exército brasileiro ocupe territórios (aqui, leia-se favelas) para dar maior segurança à cidade. Mas o que o brilhante documentário de Gizele Martins e Natasha Neri faz é demolir as ações violentas e letais dessa operação para a população que mora nessas comunidades, uma verdadeira política de extermínio dos negros e pardos, que são a maioria dos moradores desses territórios. Sim, o que o documentário aborda é a chamada criminalização das favelas.
Uma das diretoras, Gizele Martins, é também uma das protagonistas de Cheiro de Diesel. Ela é responsável pela comunicação comunitária do Complexo da Maré e participa da Comissão dos Direitos Humanos da ALERJ. Suas falas são de uma clareza e justeza impressionantes, além de vibrantes e apaixonada pelo trabalha que faz. Cada depoimento e pensamento seus causam um abalo na estrutura das organizações militares, de como eles tem salvos condutos para matar e não serem justamente julgados, já que todas as vítimas ou parente delas que acompanhamos recebem um julgamento proforma, só para inocentar os assassinos ou torturadores fardados. Gizele criou uma página numa rede social para informar e atualizar aos moradores da Maré, detalhes das operações, para que os seus leitores pudessem evitar locais onde estavam sendo realizadas ações de revista ou algo similar. Pela sua luta, foi reconhecida e premiada no Prêmio Vladimir Herzog, uma honraria para quem enfrenta diariamente os grandes tubarões da política e do jornalismo.
O filme costura como a GLO apenas serviu para criminalizar a população preta e parda das favelas cariocas, os tratando como bandidos e desferindo tiros de maneira indiscriminada, matando ou deixando pessoas deficientes, presas a uma cadeiras de rodas, como o caso do Vítor Santiago, músico que levou um tiro dos militares ao entrar na favela, sem saber sequer o que estava acontecendo.
As imagens de Cheiro de Diesel são incontestáveis para mostrar como as GLO significaram uma forma de invasão e domínio do território, realizado por soldados na sua maioria jovens despreparados, comandados pelo General Braga Neto, que hoje está preso e condenado por tentativa de golpe de Estado. Os tanques adentrando o espaço da favela falam por si e mostram como as ações ignoraram a maioria absoluta trabalhadores que compõe a totalidade dos moradores. As diretoras trabalham muito bem ainda os sons das botas marchando dos soldados e dos assustadores tanques de guerra usados nas operações, que depois de 2014 e 2015 começarem pela Maré, depois se espalharam por outras favelas como o Complexo Salgueiro em São Gonçalo, e no Complexo do Alemão na Penha, sempre tendo a violência e o desrespeito como base das ações.
A montagem de Gabriel Medeiros (profissional com atuação reconhecida em diversos documentários brasileiros) é fundamental para manter uma clareza dos fatos abordados, já que a produção se dedica a várias favelas e casos de violência sofridos em cada comunidade, sem que fiquemos confusos de qual caso estamos vendo, isso sem ser didático, chato ou linear. Os poucos personagens escolhidos servem como sínteses perfeitas para que os espectadores compreendam as temáticas levantadas pela direção.
É importante registrar a excelência dos depoimentos, de como cada caso expõe as injustiças praticadas por criminosos uniformizados, como a mãe de Lorran, uma criança assassinada na chacina do Salgueiro pelo exército brasileiro, mais um dos processos arquivados pela justiça militar, porque pasmem, é a própria justiça militar que realiza um julgamento de homicídio, que devia ter sido protocolado na justiça comum. Gizele e Natasha filmam um depoimento contundente da mãe de Lorran numa visita da ONU ao Brasil, onde uma das pautas era a violência e a invasão militar nas favelas.
Do outro lado, as diretoras recuperam as falas deploráveis do ex-presidente e golpista Michel Temer e de Braga Neto ao assumir como interventor no Rio de Janeiro, que mostram a despreocupação dessas autoridades às comunidades faveladas. Em contrapartida, tem-se ainda um discurso lapidar da nossa saudosa Marielle Franco; do líder comunitário Cuca; da Renata Trajano (do Instituto Papo Reto); da líder Buba Aguiar (Comunicadora do coletivo Fala Akari, da Favela do Acari); e dos sobreviventes do Morro do Alemão nas sessões de tortura da Sala Vermelha no Quartel de Deodoro sobre o extermínio do povo preto nas favelas, em que a necropolítica é exercida sem dó pelos nossos governantes, por meio de suas forças militares.
Cheiro do Diesel é um documentário essencial e emocionante, fundamental para que possamos nos conhecer mais amplamente como sociedade e o que ocorre com os moradores das favelas cariocas e do Brasil, e o quanto a população pobre e preta desses territórios são invisibilisadas. Ao construir um documentário a partir dos pontos de vistas dos personagens nos quais as vozes são sistematicamente subtraídas da mídia, da política e da história, essa obra põe a nu não só o abismo social que vivemos, mas também as estratégias dos poderosos para se perpetuarem no poder e que justificam o uso dessa população periférica como mão-de-obra barata e abundante na hierarquia econômica do país. Filmes como esse nos dão o caminho sobre o que acontece onde as câmeras das televisões não chegam, apenas as armas assassinas de policiais e do exército, que afinal são os aparatos oficiais dos governos. Mas Cheiro de Diesel ainda tem a coragem de reafirmar e defender o direito à vida de quem mora nas favelas. Para quem vive sob os auspicious do privilégio pode parecer pouco e básico, mas para quem mora lá, definitivamente não é.
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