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SIRÂT (2025) Dir. Oliver Laxe


Texto por Marco Fialho

A primeira impressão que Sirât nos deixa é de ser uma parábola sobre uma determinada região geopolítica mundial e o que corrobora com essa ideia é o próprio espaço em que o filme transcorre, isto é, o deserto do Marrocos, bem na entrada do Continente africano para os europeus. 

Do ponto de vista narrativo, Sirât parte de um filme de busca para um de sobrevivência em um piscar de olhos. Não tem como não ler essa obra sem pensar na relação que a Europa desenvolveu com o Continente vizinho, de como impôs domínios políticos e provocou guerras, atiçando animosidades constantes, assim como sucessivos deslocamentos populacionais.  

Logo na cena inicial temos a montagem de enormes caixas de som para a realização de uma festa rave no meio do deserto. Para os europeus, a África é um grande salão de festas e essa é uma metáfora bem interessante que Sirât evoca. Só que no meio dessa festa onde o paraíso se avizinha, tem um inferno bem mais próximo, algo que um pai, Luiz (Sergí López) e seu filho Esteban (Bruno Nuñes) em breve provarão. Em um primeiro momento, ambos mostram fotos de uma moça, irmã do menino e filha de Luiz, na qual estão à procura numa festa dessa natureza. Esse é o primeiro passo invisível para a tragédia que se seguirá. 

No meio do caminho de Luis e Esteban tem uma guerra, que ao invés de os levarem de volta à Europa, os fazem prosseguir numa aventura ao indeterminado e ao desconhecido, rumo à África profunda. Pai e filho se juntam a um grupo de apaixonados pelas festas rave e esse grupo, por sua vez, tem um homem sem uma perna, outro sem uma das mãos e assim adentram pelo deserto em busca de uma determinada festa rave na Mauritânia. Como se estivessem no fim do mundo, eles se apegam um ao outro, em uma união de desesperados que só tem a eles mesmos como companhia tanto para viver quanto sobreviver.     

Na religião islâmica, sirât significa uma ponte que separa o inferno do paraíso, o que nos leva a crer que os personagens estão simbolicamente a atravessando, cada qual com a sua história, mas tendo que passar pelas mesmas provações. Sirât é um filme que avança por meio de choques, de acontecimentos irreversíveis, tendo o uso do som como um dos elementos mais marcantes de sua construção dramática. 

O tom quase apocalíptico pode ser considerado por muitos como uma inclinação perigosa para o sadismo, ou para outros, até mesmo uma experiência prazerosa, em especial para os espectadores que buscam no cinema sentimentos masoquistas, mais ou menos o que se sente em alguns filmes de terror. Se nos filmes de terror há um clima fantasioso, o que minimiza a nossa dor perante as mortes, em Sirât, a concepção é de um drama realista, o que faz de cada morte algo mais impactante e choque.    

Sirât é um filme altamente expositivo e explícito em suas ações e isso pode chocar os mais sensíveis, que podem sair do cinema absolutamente impactados e traumatizados. Fiquei a indagar se essa estratégia narrativa é interessante, pois o medo excessivo é como o prazer, em demasia aliena, pois ficamos paralisados frente a ele e isso pode fazer com que o processo reflexivo fique prejudicado por sermos dominados sobremaneira pelas emoções. Me parece um filme de estratégia, que se usa da violência como uma forma de marketing para chocar e ser comentado, mas que não burila os temas interessantes que levanta no decorrer da obra. Sirât não deixa de ser um espetáculo vazio, embalado por um terror inconsequente e desesperançoso.
       






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