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MILONGA (2023) Dir. Laura González


Texto por Marco Fialho

Milonga marca a estreia de Laura González como diretora de longas. Pode-se dizer que esse é um belo filme inaugural por saber se apropriar de um ponto de vista, o da personagem Rosa, interpretada pela chilena Paulina García, uma das mais prestigiadas atrizes do mundo, para levar os espectadores a mergulhar na vida dessa solitária senhora, uma recém viúva, cujo filho está preso numa penitenciária.

Como é bom ver um filme em que um personagem é o centro do desenvolvimento do enredo. No decorrer da trama vamos conhecendo detalhes e sutilezas acerca de Rosa, vamos nos surpreendendo e encantando com ela. Paulina García sabe como investir nos gestos e olhares, jogando com a nossa atenção e nos despertando para as suas ações e silêncios. 

Se tem algo que se destaca na vida da personagem é a sua casa, vistosa e opressiva, que muito diz sobre um passado confortável que teve ao lado do marido, mas que a aprisionou sobremaneira. Mas ao mesmo tempo, Rosa deixa entrever que sua vida era tomada por regras e ditada pela visão de mundo do marido, ela cita que ele não gostava de tango, há a todos instante uma tensão que paira no ambiente, um mistério que fica a respeito de como realmente era a sua vida com o marido.    

Quando Rosa encontra Margarita, uma amiga da juventude, somos apresentados também a esse passado, do quanto o pai a cerceava e a reprimia de várias formas. Porém, Rosa do presente não tende à imobilização. Quando aparece Juan (o ótimo César Troncoso) ela tenta um recomeço, esboça querer uma relação que a jogue para frente, que faça a vida continuar em um novo fluxo libertador. 

A diretora Laura González é muito feliz em trabalhar esses encontros, tanto com a amiga Margarita quanto com Juan. Margarita vem do passado para fazê-la reviver as milongas que ela tanto gostava de dançar na juventude, há, portanto, um simbolismo nesse encontro. Já Juan, sinaliza uma possibilidade de futuro, de se ter uma nova vida a dois. Entretanto, as reações de Juan vão estragando tudo, a fazendo lembrar de uma época em que a violência ditava a vida com o ex-marido. 

Milonga possui momentos de contemplação, mas não esquece o quanto as tensões parecem rondar a vida de Rosa. O uso criativo do som, em momentos pontuais, possibilita a entrada de lembranças negativas da personagem, que a perturbam psicologicamente, além de limita-la. Laura González constrói essa relação entre passado e presente com muita habilidade e inteligência, nos fazendo pensar por meio de sons que reverberam em Rosa e irrompem nas cenas, as dramatizando com extrema classe e enchendo a tela de significados e sensações. 

O roteiro escrito pela própria González, se aproveita de pequenas situações, como a resistência da cachorra Coquita em relação a Juan e há nesse fato um quê de simbólico: se ele destrata a cachorra, é porque está mostrando um lado estranho, intolerante e violento de sua personalidade, e que de alguma forma deixa Rosa com um pé atrás perante ele. Milonga se apropria das situações para emanar sensibilidade e respeito pela protagonista, uma mulher oprimida por uma realidade onde a masculinidade tóxica está continuadamente a rondar. 

O grande mérito de Milonga é o fato de Laura González estabelecer uma narrativa sem pressa, que dá espaço para que se esclareça detalhes da vida de Rosa. As coisas vão acontecendo naturalmente, no tempo e no ritmo certos, eles vão simplesmente ocorrendo dentro de um cotidiano que representa o de muitas outras mulheres. Apesar da proximidade geográfica, a verdade é que poucos filmes uruguaios chegam em nosso circuito exibidor e isso faz de Milonga um acontecimento especial e mostra como deveríamos nos aproximar mais desse cinema feito pelos nossos vizinhos do sul.

É salutar ver como Milonga se demonstra radical em sua proposta de trabalhar com o ponto de vista de Rosa. Como é importante ver essa mulher orbitando na esfera da autorrepressão, depois de anos tendo que conviver com uma rotina de limitações humanitárias. A situação do filho na cadeia amplia a problemática da culpa, em um mecanismo delicado de introjeção cultural típica das sociedades católicas. Ainda assim, Rosa resiste ao não desistir de viver o presente, mesmo com as limitações psicológicas advindas de fatos concretos de sua formação como pessoa (relação com o pai, o marido e agora com o filho e Juan). É interessante ver como o filme enfrenta com galhardia a luta dessa personagem contra uma sociedade essencialmente patriarcal, com o vigor de um realismo muito bem construído em torno de Rosa.

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