Texto por Marco Fialho
Rosario, marca a estreia do diretor colombiano Felipe Vargas em longas metragens nos Estados Unidos. Rosario tinha muitos elementos para ser um original e surpreendente filme de terror, mas a direção se perde em meio a um roteiro que enfraquece a boa encenação e as belas fotografia e cenografia que exploram bem o soturno apartamento da avó da personagem-título.
O equívoco que a direção comete em Rosario chega a ser primário, o de construir o universo ancestral do vodu como algo demoníaco e do mal. A visão estereotipada salta aos olhos sempre que a temática surge no enredo, e se isso serve para apimentar mais a história, possibilita de quebra que a torne mais superficial e preconceituosa. Inclusive foi Hollywood a principal responsável por propagar uma visão simplista dessa religião de matriz africana, com vertentes no Haiti e Estados Unidos.
Os filmes de terror são uma imensa porta para se adentrar no inconsciente humano, em nossas fraquezas mentais, podem ser uma fonte de investigação profunda do nosso passado e esse mergulho pode trazer reflexões valiosas e criativas. Em Rosario, havia um elemento pregresso fundamental a ser explorado: a culpa que Rosario carrega consigo por ter escolhido o pai ao invés da mãe e da avó no momento da separação do casal.
Ao decidir não explorar tanto esse viés psicológico, o diretor afundou o pé na lama preconceituosa do vodu e levou o seu filme para a exploração barata dos efeitos visuais do gore, deixando o aprofundamento psicológico em segundo plano. Se inicialmente o foco era Rosario (Emeraude Toubia), em um segundo momento o central passa a ser o próprio vodu.
Se analisarmos Rosario apenas tecnicamente, os efeitos visuais e sonoros produzidos são excelentes numa exploração do gore como ideia de filme de terror. Por isso, salientei a fotografia que sabe criar ambiência e medo, uma câmera que sabe se utilizar do que mostrar, dos closes nojentos. Mas devemos salientar um certo abuso do uso do jump scare, que produz nos filmes de terror os famosos sustos por revelar algo terrível para o espectador.
Apesar de se deixar levar pela pressão em fazer um filme de terror convencional, o diretor Felipe Vargas se mostra muito competente como realizador, embora precise cuidar melhor dos roteiros que filma. Em Rosario, o diretor abre mão de desenvolver mais o presente da protagonista como uma mulher no mundo dos negócios financeiros para se fixar nos efeitos sombrios do vodu.
O elenco de qualidade mantém o filme no quesito interpretação, com destaque para David Dastmalchian, que poderia ter sido melhor explorado como um misterioso e assustador vizinho da avó de Rosario. O próprio pai (Paul Ben-Victor) poderia ser melhor aproveitado na trama, ao invés de ser usado como um tipo de vilão forçado e inesperado.
Conforme já analisamos acima, o maior problema de Rosario não está na produção em si, mas no seu roteiro preconceituoso e banal, que não aprofunda as contradições psicológicas da protagonista Rosario. Mas esse é um problema das produções hollywoodianas recentes, privilegiar o visual, o som e vender um conteúdo que fere as tradições culturais afro-ameríndias e ignorar a existência da alteridade como ponto de partida para um convívio amistoso das diferenças.

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