Texto por Marco Fialho
Mais do que realizar um documentário, Sandra Kogut registra em No Céu da Pátria Nesse Instante, um processo histórico que culminaria na tentativa fatídica de um golpe de estado no dia 8 de janeiro de 2023, uma semana depois que o governo Lula assumiu a presidência do país. O que a cineasta não sabia à época, e que hoje já sabemos, é o quanto desse processo foi orquestrado pelo ex-presidente Bolsonaro, na intenção de voltar para o Planalto da Alvorada pelas portas dos fundos do golpismo.
As investigações sobre o golpe, capitaneada pelo ministro Alexandre de Moraes, aprofundaram a participação de Bolsonaro no planejamento e articulação de um golpe de Estado para beneficiar seu projeto político que foi vencido nas urnas pela ampla aliança liderada pelo atual presidente Luis Inácio Lula da Silva. Mas o filme de Kogut traz uma intenção clara de mostrar a mentalidade dos envolvidos, assim como o medo de cada um dos dois lados que disputavam a eleição presidencial em 2022 e mostrar o quanto o país estava dividido em duas frentes políticas.
O foco de Kogut é direto, acompanhar o processo eleitoral de 2022 e para isso se utiliza de um dispositivo, onde focar em ambos lados da tal "polarização" política que marcou essa campanha, além de acompanhar uma funcionária da justiça eleitoral nesse momento em que as urnas eletrônicas estavam sendo questionadas pela chapa do ex-presidente Jair Bolsonaro. De quebra, coloca uma câmera para ficar lado a lado com Marcelo Freixo, então candidato ao Governo do Estado do Rio de Janeiro e sua esposa Antonia Pellegrino. A escolha dos personagens serviu para cobrir todas as 5 regiões do Brasil, assim Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-Oeste aparecem representadas no filme.
Mesmo que a narrativa de Kogut resvale em um excesso de pulverização, afinal não é fácil contemplar tantas frentes e aprofundá-las a contento, só se assumisse um formato de série, o que não foi o caso. Senti falta de mais enfoque no apoiador de Bolsonaro, e vou discutir mais isso à frente, ainda mais que no campo progressista temos bem mais informações. Talvez fosse uma oportunidade de ir mais fundo no que faz pessoas apoiarem um candidato humanamente tão questionável. Ainda mais naquele final onde o personagem Ferreirinha, diretamente do Paraná, começa a falar sem provas contra as urnas eletrônicas, sugerindo a existência de uma fraude eleitoral, de uma tal revelação da "caixa preta das urnas" e quando indagado pela diretora com argumentos diz não querer mais falar com ela, que cada um vê a realidade de uma forma sobre o país.
Há realmente uma dificuldade de se entender a cabeça, do ponto de vista lógico, de um apoiador de Bolsonaro, mas é necessário se descobrir algo para além do discurso, situado talvez em outra esfera, seja psicológica ou de educação pregressa que leve muitas pessoas a encamparem uma plataforma repleta de equívocos morais e de simplificações políticas. A profusão de fake news é o primeiro passo, mas não podemos mais aceitar esse único viés de abordagem. O papel das igrejas evangélicas na política ainda precisa ser melhor investigado, já que basta filmar um culto para ver o quanto o tema político possui uma proeminência em uma atividade que deveria ser apenas de cunho espiritual. Vestimentas, decorações e outros detalhes mostram o quanto essa mistura entre religião e política é delicado e claramente ultrapassa os limites do razoável.
Embora importante como registro histórico, No Céu da Pátria Nesse Instante descortina um país que já sabemos como ele está politicamente. O dado mais diferente do filme é o de tratar do trabalho do mesário, que é esse profissional que vai atuar no dia da eleição e garantir o sucesso desse dia tumultuado em que políticos e eleitores se encontram com os nervos à flor da pele. É interessante ainda o registro das diferenças regionais, o quanto é precário o processo eleitoral nas regiões mais inóspitas do país, como no Pará em que o trabalho do mesário passa por especificidades como ensinar os eleitores a votar e como proceder diante da urna eletrônico, já que muitos dos eleitores sequer possuem o hábito, nem possuem sequer, na maioria das vezes, acesso a aparelhos digitais.
A cada nova sequência fica evidente que o acompanhamento do processo eleitoral se torna mais complexo, pois são várias facetas e possibilidades para se seguir. Sandra Kogut se esforça por abarcar algumas frentes, mas a sensação é de que algo sempre permanece de fora ou por demais simplificado. Mas não resta dúvida que vale muito como um material importante da história política do país, da polarização e de como ela extremou discursos e atos de ódio. Mais do que registrar Lula e Bolsonaro, Kogut foca no cotidiano de outros agentes políticos que estão no entorno dessa polarização e que a vivem com bastante intensidade e nos vislumbra o quanto essa luta é pesada quando temos como adversário uma extrema direita forte, irracional e violenta. É bom lembrar que No Céu da Pátria Nesse Instante faz parte de um processo ainda em curso e que não sabemos nem como nem quando terminará.

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