Pular para o conteúdo principal

AMORES MATERIALISTAS (2025) Dir. Celina Song


Texto por Marco Fialho

 Se eu fosse na tal agência matrimonial na qual a personagem Lucy (Dakota Johnson) trabalha em Amores Materialistas, jamais seria indicado a mim a cineasta Celina Song como possível parceira amorosa, pois seria fácil de perceber o quanto a nossa visão de mundo e de cinema são incompatíveis. Já havia sentido isso no aclamado Vidas Passadas, um dos grandes sucessos do circuito de 2023, mas que não me empolgou como à grande maioria da crítica (muitos o elegeram à época o filme do ano).

Agora em Amores Materialistas, a investida de Song é na comédia romântica, e o problema não está no argumento, mas sim no desenvolvimento da trama. A diretora tinha um grande argumento em mãos, mas o que ela faz com ele é que fragiliza a ideia. Nas primeiras cenas, tudo indicaria que Song discutiria as relações amorosas no capitalismo, mas o que vemos depois é apenas a superfície dessa discussão que poderia render debates maravilhosos, mas que são desperdiçados pela vocação mercadológica pueril de Song. 

Na trama, tudo indica que Lucy será a protagonista, mas não pelas suas relações amorosas, porém pela intermediação que faz para pessoas que contratam a empresa na qual ela trabalha. O filme de Song parece nessas primeiras cenas querer ir longe ao analisar a comercialização do amor como se a pessoa fosse no supermercado escolher o sabonete que mais se afina com seus sentidos ou a torrada mais crocante e saborosa. Esse viés logo se desmancha para que Song passe a centralizar tudo em torno da própria Lucy, o que retira o impacto da análise para fortalecer se ela é feliz ou não realizando esse trabalho, se a sua vida caminha para a felicidade ou para se privilegiar as aparências sociais. 

A agência para a qual Lucy trabalha é desde o início vendida como algo estranho, com descrições de perfis profissionais e pessoais frios, como se a vida amorosa fosse um mero encaixe de uma estante na parede de um apartamento. São julgadas características como a afiliação política, a origem social e educacional, entre outros atributos frágeis elencadas pela empresa matrimonial. O objetivo é dar o tal match, igual aos aplicativos amorosos em voga no mundo de hoje. O incrível é o quanto Song ignora os aplicativos, que são os grandes protagonistas das relações amorosas do século XXI, para se sustentar numa ideia decadente e romântica da agência de matrimônio. Como é defasada essa ideia de alguém escolher a pessoa ideal para se relacionar com a outra. Inclusive, é incompatível com o mundo de hoje.

Mas quando Celina Song desvia o seu foco para as relações de Lucy, o que acontece com o filme? Creio que essa opção de roteiro faz com que a trama leve a obra para a banalidade e para o mesmo lugar de todas as convencionais comédias românticas do passado, isto é, a de que o amor sempre esteve por perto, e tão perto, que a protagonista sequer quis acreditar, por adotar outros valores para a sua vida. Isso é tão clichê e conservador, como se acreditasse que para cada pessoa no mundo só existe uma outra e nada mais. Essa é uma ideia besta e rasa e está presente em Amores Materialistas. Assim entra em cena John (Chris Evans), o namorado de Lucy há 20 anos atrás que volta a rondar a vida dela, para logo se transformar na solução de sua vida amorosa, mesmo que profissionalmente (e financeiramente) ele seja um fracasso.

Mas antes de John, tem Harry (Pedro Pascal), o homem bonito, rico e alto, o famoso padrão que é vendido e propalado como o ideal para as mulheres desde sempre. Na relação com Harry até surgem algumas discussões interessantes, como o da altura masculina (Harry faz uma operação nos ossos para crescer 15 centímetros) e a do mercado de relacionamentos amorosos, mas não aprofunda como poderia as questões. Aliás, essa é a tônica de Amores Materialistas, não sair da superficialidade dos temas que levanta.        

Mais uma vez, Celina Song não aproveita um argumento por insistir em preferir os clichês amorosos idealizados, como o do primeiro amor, e cometer o erro fatal e primário de Amores Materialistas, que é o de fugir e aprofundar a discussão sobre o amor, o casamento e as relações no auge do capitalismo neoliberal, onde o fundamento da aparência e da riqueza são a tônica do sistema. Assim, bons atores e bons personagens flutuam como se o contexto tivesse pouca valia no desenvolvimento dos roteiros de cinema e como as soluções já tivessem à venda na primeira esquina. Mais uma vez, o folhetim barato venceu para que o discurso antiquado do amor romântico prevalecesse sobre uma análise aprofundada da sociedade na qual está inserido. Ainda continuo à espera de um filme de Song para chamar de meu.       

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CINEFIALHO - 2024 EM 100 FILMES

           C I N E F I A L H O - 2 0 2 4 E M  1 0 0 F I L M E S   Pela primeira vez faço uma lista tão extensa, com 100 filmes. Mas não são 100 filmes aleatórios, o que os une são as salas de cinema. Creio que 2024 tenha sido, dos últimos anos, o mais transformador, por marcar o início de uma reconexão do público (seja lá o que se entende por isso) com o espaço físico do cinema, com o rito (por mais que o celular e as conversas de sala de estar ainda poluam essa retomada) de assistir um filme na tela grande. Apenas um filme da lista (eu amo exceções) não foi exibido no circuito brasileiro de salas de cinema, o de Clint Eastwood ( Jurado Nº 2 ). Até como uma forma de protesto e respeito, me reservei ao direito de pô-lo aqui. Como um diretor com a importância dele, não teve seu filme exibido na tela grande, indo direto para o streaming? Ainda mais que até os streamings hoje já veem a possibilidade positiva de lançar o filme antes no cinema, inclusiv...

AINDA ESTOU AQUI (2024) Dir. Walter Salles

Texto por Marco Fialho Tem filmes que antes de tudo se estabelecem como vetores simbólicos e mais do que falar de uma época, talvez suas forças advenham de um forte diálogo com o tempo presente. Para mim, é o caso de Ainda Estou Aqui , de Walter Salles, representante do Brasil na corrida do Oscar 2025. Há no Brasil de hoje uma energia estranha, vinda de setores que entoam uma espécie de canto do cisne da época mais terrível do Brasil contemporâneo: a do regime ditatorial civil e militar (1964-85). Esse é o diálogo que Walter estabelece ao trazer para o cinema uma sensível história baseada no livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Logo na primeira cena Walter Salles mostra ao que veio. A personagem Eunice (Fernanda Torres) está no mar, bem longe da costa, nadando e relaxando, como aparece também em outras cenas do filme. Mas como um prenúncio, sua paz é perturbada pelo som desconfortável de um helicóptero do exército, que rasga o céu do Leblon em um vôo rasante e ameaçador pela praia. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...