Texto por Marco Fialho
Se eu fosse na tal agência matrimonial na qual a personagem Lucy (Dakota Johnson) trabalha em Amores Materialistas, jamais seria indicado a mim a cineasta Celina Song como possível parceira amorosa, pois seria fácil de perceber o quanto a nossa visão de mundo e de cinema são incompatíveis. Já havia sentido isso no aclamado Vidas Passadas, um dos grandes sucessos do circuito de 2023, mas que não me empolgou como à grande maioria da crítica (muitos o elegeram à época o filme do ano).
Agora em Amores Materialistas, a investida de Song é na comédia romântica, e o problema não está no argumento, mas sim no desenvolvimento da trama. A diretora tinha um grande argumento em mãos, mas o que ela faz com ele é que fragiliza a ideia. Nas primeiras cenas, tudo indicaria que Song discutiria as relações amorosas no capitalismo, mas o que vemos depois é apenas a superfície dessa discussão que poderia render debates maravilhosos, mas que são desperdiçados pela vocação mercadológica pueril de Song.
Na trama, tudo indica que Lucy será a protagonista, mas não pelas suas relações amorosas, porém pela intermediação que faz para pessoas que contratam a empresa na qual ela trabalha. O filme de Song parece nessas primeiras cenas querer ir longe ao analisar a comercialização do amor como se a pessoa fosse no supermercado escolher o sabonete que mais se afina com seus sentidos ou a torrada mais crocante e saborosa. Esse viés logo se desmancha para que Song passe a centralizar tudo em torno da própria Lucy, o que retira o impacto da análise para fortalecer se ela é feliz ou não realizando esse trabalho, se a sua vida caminha para a felicidade ou para se privilegiar as aparências sociais.
A agência para a qual Lucy trabalha é desde o início vendida como algo estranho, com descrições de perfis profissionais e pessoais frios, como se a vida amorosa fosse um mero encaixe de uma estante na parede de um apartamento. São julgadas características como a afiliação política, a origem social e educacional, entre outros atributos frágeis elencadas pela empresa matrimonial. O objetivo é dar o tal match, igual aos aplicativos amorosos em voga no mundo de hoje. O incrível é o quanto Song ignora os aplicativos, que são os grandes protagonistas das relações amorosas do século XXI, para se sustentar numa ideia decadente e romântica da agência de matrimônio. Como é defasada essa ideia de alguém escolher a pessoa ideal para se relacionar com a outra. Inclusive, é incompatível com o mundo de hoje.
Mas quando Celina Song desvia o seu foco para as relações de Lucy, o que acontece com o filme? Creio que essa opção de roteiro faz com que a trama leve a obra para a banalidade e para o mesmo lugar de todas as convencionais comédias românticas do passado, isto é, a de que o amor sempre esteve por perto, e tão perto, que a protagonista sequer quis acreditar, por adotar outros valores para a sua vida. Isso é tão clichê e conservador, como se acreditasse que para cada pessoa no mundo só existe uma outra e nada mais. Essa é uma ideia besta e rasa e está presente em Amores Materialistas. Assim entra em cena John (Chris Evans), o namorado de Lucy há 20 anos atrás que volta a rondar a vida dela, para logo se transformar na solução de sua vida amorosa, mesmo que profissionalmente (e financeiramente) ele seja um fracasso.
Mas antes de John, tem Harry (Pedro Pascal), o homem bonito, rico e alto, o famoso padrão que é vendido e propalado como o ideal para as mulheres desde sempre. Na relação com Harry até surgem algumas discussões interessantes, como o da altura masculina (Harry faz uma operação nos ossos para crescer 15 centímetros) e a do mercado de relacionamentos amorosos, mas não aprofunda como poderia as questões. Aliás, essa é a tônica de Amores Materialistas, não sair da superficialidade dos temas que levanta.
Mais uma vez, Celina Song não aproveita um argumento por insistir em preferir os clichês amorosos idealizados, como o do primeiro amor, e cometer o erro fatal e primário de Amores Materialistas, que é o de fugir e aprofundar a discussão sobre o amor, o casamento e as relações no auge do capitalismo neoliberal, onde o fundamento da aparência e da riqueza são a tônica do sistema. Assim, bons atores e bons personagens flutuam como se o contexto tivesse pouca valia no desenvolvimento dos roteiros de cinema e como as soluções já tivessem à venda na primeira esquina. Mais uma vez, o folhetim barato venceu para que o discurso antiquado do amor romântico prevalecesse sobre uma análise aprofundada da sociedade na qual está inserido. Ainda continuo à espera de um filme de Song para chamar de meu.

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