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PEQUENAS CARTAS OBSCENAS (2024) Dir. Thea Sharrock


Texto por Marco Fialho

Apesar de baseada em uma história verídica, Pequenas Cartas Obscenas pode ser compreendida como uma fábula soft, cômica e feminista sobre a sociedade londrina de 1920, sobretudo pela diretora Thea Sharrock propor uma abordagem em que o aspecto absurdo da história prevalece na narrativa. 

O filme provoca risos da plateia e isso acontece devido ao apuro técnico do elenco, que brilha absolutamente em todas as cenas. Olivia Colman, Jessie Buckley, Timothy Spall, Anjana Vassan, Gemma Jones, Joanna Scanlan, Hugh Skinner, Eileen Atkins, Lolly Adefope e Jason Watkins mostram a força da escola inglesa de atores e atrizes. Todos acertam no tom cômico de seus personagens, numa trama que esbarra demais na narrativa de Arthur Conan Doyle (criador do personagem Sherlock Holmes), amparada no humor sarcástico, capaz de rir de si próprio.

Pequenas Cartas Obscenas flerta descaradamente com o clássico humor inglês, com o filme policial, o de tribunal e com a crítica de costumes. Thea Sharrock busca um equilíbrio entre esses elementos, que muitas vezes são díspares, e com uma leveza quase ingênua, consegue matizar sua história, entregando um espetáculo agradável, sem esquecer das pitadas críticas que o elenco sabe inserir sob um texto afiado. Muitas vezes, a montagem se beneficia da qualidade dos atores e atrizes para explorar os closes rápidos capazes de dizer mais do que mil palavras. 

O que vemos são dois mundos femininos demarcados. Em um deles, Edith Swan (Olivia Colman como sempre inacreditavelmente sublime) sustenta a visão conservadora de sua família, e no outro, temos Rose Gooding (Jessie Buckley maravilhosa), uma irlandesa escandalosa e desmedida que assombra a sociedade conservadora londrina. De uma incipiente amizade entre as duas, nasce uma rivalidade atroz, agravada por diversas cartas que Edith recebe a descrevendo como uma mulher ordinária e sórdida. O passado entra na trama sustentado pelo depoimento de Edith na delegacia, onde o preconceito e a inveja dela por Rose transparece pela maneira como a vai descrevendo a outra, em um tom que mistura pudor com uma ponta de admiração. Só o talento de Olivia Colman poderia transitar nesse fio tênue de sentimentos tão controversos.

O caso, de uma mera investigação policial se transforma em um julgamento na justiça, com Edith, incentivada pelo pai (um Timothy Spall soberbo) que vai à delegacia fazer uma denúncia, e abrir um processo acusando Rose pelo envio das missivas. Talvez, somente uma diretora mulher teria a sensibilidade de partir de uma briga entre duas mulheres, para realizar um filme que se coloca acima delas, no intuito de expor uma opressão típica da sociedade patriarcal. 

Sim, Thea Sharrock ataca frontalmente a estrutura machista, a ridicularizando o quanto pode e fazendo a plateia rir do absurdo e do anacronismo da sociedade de 100 anos atrás. A estrutura fabular serve como instrumento de denúncia histórica. O grito final de Edith para o pai marca o momento de cisão, de uma filha se libertando do pai, mesmo que seja para ir para outra prisão. Nesse caso, a cadeia representa uma forma de se libertar da opressão paterna. Mas aqui, o formato narrativo típico de uma comédia inglesa, imersa no humor ácido, torna-se o elemento central, até mais do que a história em si. O tom cômico assume praticamente o protagonismo dessa história. Rir do fato se sobrepõe ao mesmo, em um jogo em que o riso torna-se peça fundamental da engrenagem cênica.

É bastante interessante como Thea Sharrock desenha Edith como um espelho de Rose. Fica evidente no decorrer da narrativa que o desejo mais recôndito de Edith é o de ser como Rose o é no comportamento: desbocada, sincera, corajosa, independente e atrevida. Viver a vida em bares, se embebedando, provocando homens com o seu igualitarismo, com uma postura afirmativa, sem medo de ser julgada como depravada ou desajustada. Edith guarda uma admiração por Rose, embora o pai seja sempre um empecilho para que a personagem dê passos significativos rumo à libertação. 

Pequenas Cartas Obscenas deve ser lido como uma obra feminista e contestadora, tendo o cômico como um elemento agravador de uma crítica social explícita. Lembrando que estamos em uma Londres puritana, em pleno ano de 1920, que impunha às mulheres um papel subalterno e submisso. Esse é um trabalho que denuncia e mostra como as mulheres no seu cotidiano lutavam, dentro do possível, pelo seu quinhão de liberdade.             

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