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A SOMBRA DE CARAVAGGIO (2022) Dir. Michele Placido


Texto de Marco Fialho

"A sombra de Caravaggio" é um filme imponente, com imagens fortes, já que o diretor Michele Placido decidiu narra-la com fúria. Algumas cenas são de extrema violência, e até exageradas na dramaturgia, mas tudo está sempre amparado por interpretações muito inspiradas de alguns atores como Louis Garrel (como o investigador da igreja) e o brilho incontestável de Isabelle Huppert como a Marquesa Colonna, a grande protetora de Caravaggio.

A narração do filme é realizada pelo personagem de Louis Garrel, que está em busca de conhecer melhor as circunstâncias de um assassinato perpetrado por Caravaggio em Roma, que espera um perdão papal de sua pena de morte. A partir desse viés, conhecemos a contraditória e conturbada vida do artista e homem Caravaggio. A montagem vai recortando o tempo em idas e vindas em diversos momentos da história de Caravaggio. Como era de supor, a fotografia é inspirada na própria obra do artista e salienta os contrastes vibrantes entre o preto, o vermelho e o laranja, sempre deixando uma margem para o sinistro, pois as energias nunca são exatamente positivas.

A música, o som, as cores insinuantes e fortes, o ritmo alucinado da montagem, a reconstituição pesada dos figurinos e com cenários reais (o diretor filmou nos próprios ambientes em que Caravaggio transitou) faz de "A sombra de Caravaggio" um documento que beira o histriônico, realizado com mãos nada delicadas, que contorna mesmo o exagero. O diretor Michele Placido desliza o tempo todo em uma linha tênue, difícil de se equilibrar para não descambar para um tom por demais apelativo. Na maioria das vezes ele escapa, mas tem umas cenas no início do filme que quase bota tudo a perder, pelo tom a mais que emprega. 

A presença de Isabelle Huppert e Louis Garrel, de certa maneira salvam o filme, pois as suas performances são no tom certo. Já a interpretação de Riccardo Scamarcio como Caravaggio passa do tom em algumas cenas, mas sem comprometer o todo. Michele Placido tenta sempre desenhar Caravaggio como um homem de seu tempo, violento e rígido mediado por uma igreja católica imponente e autoritária, que se sentia contrariada com quadros que retratavam personagens marginalizados como prostitutas e moradores de rua. A visão do personagem de Garrel é o que faz a narrativa avançar e de certa forma condiciona a do próprio diretor, que assume esse personagem como uma espécie de um vilão sórdido, torturador e inescrupuloso, mesmo que ainda sobre um quê de charme nessa vilania. 

Michele Placido tem seus méritos, afinal, suas pretensões não era nada modestas: mostrar Caravaggio como um homem duro, violento e contraditório, mas um artista genial, com total domínio das técnicas pictóricas. O aspecto carnal, exposto em suas obras, também estava presente no cotidiano do artista, que professava a carnalidade de uma maneira ampla, sendo assumidamente bissexual e sem grandes pudores. A maneira como algumas obras vão surgindo e se somando à narrativa é um ponto interessante de ser observado, como se obras, vida do artista e contexto estivessem lascivamente amarrados.  

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