Pular para o conteúdo principal

ALEGRIA É A PROVA DOS NOVE (2023) Dir. Helena Ignez



"Se você quer uma vida, aprenda a roubar"

Texto de Marco Fialho

"Alegria é a prova dos nove" é mais um manifesto feminista potente de Helena Ignez, a mais jovem cineasta do Brasil. O filme é uma ode libertária e iconoclasta de uma mulher que acredita no viver e na felicidade plena da mulher. 

Logo no início é dito uma frase do poeta francês Arthur Rimbaud "o verdadeiro mundo não está aqui" que para mim sintetiza o espírito desse trabalho único de Ignez. Essa frase ecoa a necessidade de se viver a utopia, esse não lugar que nós humanos podemos e precisamos inventar para nós mesmos. Daí nasce a personagem Jarda Ícone, uma espécie de influencer digital que dá cursos estimulando (literalmente) as mulheres na descoberta e na prática sistemática do orgasmo e da masturbação. 

Helena Ignez nos prova que a juventude está para além dos números do calendário, ela é uma iluminação como já emulou o documentário biográfico "A mulher de luz própria", dirigido pela sua filha Sinai Sganzerla. Tudo em "Alegria é a prova dos nove" tem o DNA Helena Ignez, inclusive uma vontade emancipatória e de desprendimento típicos do universo da contracultura. A verdade é que Ignez vive a sua revolução. Como é linda e inspiradora a cena inicial em que a sua personagem acorda Lírio (Ney Matogrosso, lindo, leve e solto) e lhe faz uma delicada declaração de amor ("você é a pessoa mais importante que eu conheço") e lhe dá um baseado ainda na cama. Essa cena tem um simbolismo do amor de Ignez ao dirigir e se relacionar com a arte e as pessoas que a cercam. Já a vi diversas vezes pelos eventos de cinema e o que eu posso dizer é que ela emana o amor e é sempre carinhosa com as pessoas. Jamais encontrei alguém que tivesse uma reclamação sequer dela. Digo isso, porque esse amor que tanto menciono aqui transborda para os seus filmes e talvez esse "Alegria é a prova dos nove" seja o mais transbordante de todos nesse amor latente que a artista sempre emana. 

A impressão que eu tenho é que a cada novo filme Helena Ignez filma como se fosse o primeiro, tamanho frescor e espontaneidade que os mesmos exalam. Em "Alegria é a prova dos nove" isso fica evidente tanto na coragem de homenagear a antropofagia oswaldiana, expressa no título, quanto no exorcismo do passado em uma cena em que assistimos a mais uma violência masculina contra o corpo de uma mulher. Ignez se utiliza desse acontecimento infeliz do passado para apontar para frente na necessidade da mulher conhecer seu próprio corpo e os caminhos naturais que a levam a felicidade. Jarda Ícone é isso, essa mulher que quer viver o hoje e que quer dividir isso com outras mulheres, que quer expandir o prazer feminino para além do prazer masculino e nisso Ignez está a anos luz de todos ao criar um filme que fala diretamente para as mulheres e isso é lindo demais. 

É muito interessante como Ignez cita abertamente as influências que usou para fazer o filme, como a sexóloga norte-americana Betty Dodson, que morreu recentemente, em 2020, aos 91 anos, musa inspiradora da sua personagem Jarda Ícone. Mas outros pensadores perpassam o filme, como o coreano Byung-Chul Han, um crítico feroz do modelo capitalista atual que impõe às pessoas um desempenho total que gera o cansaço de viver. "Alegria é a prova dos nove" é um tratado niilista, ao jeitim de Ignez, pela felicidade plena e pela autodescoberta dos corpos oprimidos e escravizados pelo capitalismo. 

Ignez mescla um discurso direto com diálogos que vão no X da questão política com imagens de pura inspiração anárquica e libertária. É lindo quando Ignez filma cenas de um grupo de seguidoras de Jarda Ícone, seus encontros e suas conversas informais, pois tudo é tão orgânico que chega a chocar pelo desprendimento dessa câmera. Em certo momento nos libertamos da câmera e passamos a viver com Jarda Ícone, a estar com ela e suas amigas. 

O filme tem sacações geniais como a da seguidora e amiga Sheyla (uma impagável Bárbara Vida) que se apaixona por um palestino. A abordagem de Ignez é sensacional ao exaltar a justeza da luta palestina ao mesmo tempo que expõe a fragilidade masculina daquela cultura, sem julgá-la, pois há um carinho imenso emanado dela pelo personagem Ahmad. 

"Alegria é a prova dos nove" é sobretudo um filme de ideias, elas proliferam a todo instante porque Ignez quer generosamente dividi-las conosco, como a ideia que ela prega de voltar a pensamentos que no passado foram esquecidos, mas que podemos olhar novamente para eles, e reconsiderá-los. Há no filme um desejo de performar, embora haja um desgaste dessa palavra no momento (aqui em Tiradentes ela é a palavra da hora), em Ignez é algo orgânico, pois a sua performance é muito própria, inspirada numa frase dita e redita no filme: "se você quer uma vida, aprenda a roubar". 

Comentários

  1. Visão generosa à respeito do conteúdo explícito de Helena Ignez.

    ResponderExcluir
  2. Eu não consegui entender muito o que você quis dizer. De todo o caso, não há generosidade, da minha parte, em relação ao conteúdo explícito do filme de Ignez, mas sim concordância, além de admiração em como Helena trata o tabu social acerca dos corpos, em especial nas obras artísticas.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...