Texto por Marco Fialho
São muito os filmes que retratam a infância durante a 2ª Guerra Mundial, podemos citar aqui Adeus, Meninos (1987), de Louis Malle; Esperança e Glória (1987), de John Boorman; Império do Sol (1987), de Steven Spielberg; Filhos da Guerra (1990), de Agnieszka Holland; Vá e Veja (1985), de Elem Klimov, apenas para citar alguns, e todos entre 1985 e 1990. Todos esses abordam a posição de crianças separadas de suas famílias em plena guerra e sempre do lado da resistência.
Por isso, Uma Infância Alemã tem um diferencial em relação a essas obras por centrar a discussão em torno de uma criança do lado alemão, de Nanning (Jasper Billerbeck), uma criança cuja família defende e acredita na ideologia nazista. Ele e a família, são de Hamburgo, mas vivem na Ilha de Amrum e o filme mostra as vivências desse menino em meio ao inferno da guerra em 1945, nos últimos instantes da supremacia nazista. É interessante pensar o quanto o ambiente da guerra é pernicioso para qualquer criança e que provoca uma antecipação da maturidade. O filme parte de um argumento de Hark Bohm, que divide o roteiro com Fatih Akin, baseado em experiência de vida de Bohm durante à guerra.
O diretor alemão Fatih Akin, conhecido por filmes radicais como Em Pedaços (2017) e Do Outro Lado (2008) e o inusitado e polêmico O Bar da Luva Dourada (2019), embarca agora em um filme sobre a Segunda Guerra, tema que ainda não constava em sua vasta filmografia de longas-metragens. Pela sua origem turca, muitas de suas obras fazem uma conexão entre personagens turcos e alemães, o que não ocorre em Uma Infância Alemã.
Fatih Akin trabalha em Uma Infância Alemã com a surrada dicotomia nazista de um lado e resistentes do outro, embora não implemente com radicalidade essa divisão social. Nanning é um ilhéu e como tal vive em um círculo muito fechado e sua família é essencialmente adepta ao nazismo, mas o menino se afeiçoa mais com pessoas que se opõem abertamente a Hitler. A fotografia, com primazia do tom pastel, cria um contraste interessante entre a beleza do lugar e a feiúra advinda da violência da guerra.
Apesar de retratar um período de guerra intensa, em que a reação dos oponentes era feroz, Fatih Akin impulsiona a narrativa de Uma Infância Alemã no ritmo lento da Ilha de Amrum, salientando os trabalhos de membros da comunidade, como a agricultura da família de Tessa (Diane Kruger) e dos peixes secos de Fischer Sam Gangster (Detlev Buck), personagens que influenciam muito o jovem Nanning, que o faz vivenciar experiências para além de seu núcleo familiar nazista. Fatih Akin busca extrair poesia de um momento difícil e duro, em que a intolerância e o radicalismo político-ideológico imperavam no mundo. A câmera registra a bonita luz de Amrum, assim como as suas paisagens paradisíacas e adota o ponto de vista de Nanning como guia para a narrativa.
Uma Infância Alemã costura com habilidade a dureza da vida durante a Segunda Guerra, com os alimentos rarefeitos e alguns que se tornam até luxo, como o caso do mel e da manteiga, para mostrar a dificuldade de ser humano em uma situação extrema e violenta, onde a morte e a humilhação caminhavam de braços dados. O que seria viver, numa época em que a vilania mudava de mão em um piscar de olhos? O exemplo dos poloneses diz muito sobre isso. Eles volta e meia eram humilhados, mas quando o nazismo cai tudo muda bruscamente. Uma Infância Alemã pode até conter alguma dose de ingenuidade e moralismo, mas a sequência do afogamento do rapaz polonês ao tentar roubar mais uma vez Nanning tem a sua graça, quando o menino alemão o salva a vida e a irmã fica profundamente agradecida e vê o quanto é possível estabelecer um convívio saudável entre dois seres humanos.
Fatih Akin mesmo realizando um filme dentro de um conflito extremamente cruel como foi a Segunda Guerra, mostra o quanto humano se pode ser, logo ele um diretor que já demonstrou diversas vezes o quanto violento é o mundo em que vivemos tanto no presente quanto no passado. Mesmo que Uma Infância Alemã careça de grandes surpresas ou ações inesperadas, ou até de uma linguagem que exija mais do espectador, no todo ele se sai bem ao possibilitar um debate sobre a necessidade da tolerância e do amor fraterno entre as pessoas, independente das políticas de Estado que estejam em vigor.

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