Texto por Marco Fialho
Em documentários como Ninguém Pode Provar Nada - A Inacreditável História de Ezequiel Neves a melhor coisa a fazer é buscar ser coerente com o personagem retratado, e nesse ponto, o diretor Rodrigo Pinto acerta em cheio o alvo. Falar de Ezequiel Neves, conhecido pela sua verve, rebeldia incontrolável e uma anticaretice extrema, é por si um imenso desafio, que a direção dribla com bastante desenvoltura.
O documentário traz momentos diversos da trajetória dessa personalidade que foi ator, jornalista e produtor musical, além de ator da vida, como bem define Cazuza em certo momento do filme. Rodrigo Pinto narra Ninguém Pode Provar Nada... sem pressa, valorizando bem todas as principais fases de Ezequiel, sem procurar esconder as polêmicas e idiossincrasias do personagem e isso valoriza a abordagem.
Rodrigo Pinto não abre mão de nada, usa filmes dos quais Ezequiel participou como ator, voz off, ficção, imagens de arquivo e até inteligência artificial em narrações de textos de Ezequiel para dar conta desse personagem complexo e que odiaria ser retratado de maneira careta. Ninguém Pode Provar Nada... tem a pulsão de Ezequiel, sua adrenalina e eloquência. São 100 minutos irrespiráveis e intensos tal como o personagem exige.
Personagem bom é aquele que suscita bons títulos e esse documentários tinham vários possíveis. Ficaria fiel ao personagem se o filme se chamasse "Não preciso de conselhos, eu sei errar sozinho", frase dita tanto no início quanto no fim do documentário. O título adotado pela direção tendeu para a fase jornalística, que igualmente bem definia Ezequiel, o fato inerente e incorrigível dele inventar fatos como jornalista, de partir de algo real para depois aterrissar na imaginação fértil que tinha, como a de inventar que Keith Richards havia gravado um determinado disco solo que realmente não ocorreu à época que havia escrito a matéria.
Mas como é interessante assistir a história de um personagem que parece a todo instante ser ficcional, tamanho a loucura que ele viveu, sem jamais flexibilizar seus princípios ou parecer ser incoerente. Essa sensação de que esse era um personagem irreal é flagrante durante o filme, mesmo que você já conhecesse previamente algo da vida dele.
Ezequiel Neves sempre foi um ser proativo, que não abria mão de usar de subterfúgios enviesados desde novo quando fazia teatro em Belo Horizonte, como falsificar uma autorização do escritório do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que segundo ele utilizava a mesma marca e modelo de máquina de datilografar ou de continuadamente inventar reportagens sarcásticas, escritas para a revista Rolling Stones Brasil.
A fotografia de Flora Dias explora muito bem as diferentes texturas que o material filmado apresenta, o que reforça bem esse lado múltiplo e dinâmico da personalidade de Ezequiel. Os depoimentos em voz off dos personagens interagem com imagens vivazes, que fortalecem a figura efervescente e versátil de Ezequiel Neves. A montagem é complexa por amarrar voz e imagens que na maior parte não são sincrônicas e que desenham uma atmosfera alvoroçada, bem ao feitio do personagem retratado. Ninguém Pode Provar Nada... é de uma só vez hecatômbico, energético e auto-implosivo, o que é ótimo por sinal.
A cereja do bolo do documentário são as frases eloquentes, mesmo tendo que reconhecer que assistir Ezequiel as proferindo, por si só, já vale o filme. Os depoimentos são ótimos (especialmente os de Neville D'Almeida), mas ouvir a maneira insólita de Ezequiel proferir seu pensamento é de outra ordem. Ouvi-lo idolatrar personas e depois torná-los desafetos não tem preço, como o caso exemplar de Rita Lee, que passou de deusa a mulher horrorosa em um piscar de olhos, com desfecho digno de uma boa briga de rua.
Mas a relação de Ezequiel com Cazuza, evidente, é a mais aguardada e Rodrigo Pinto constrói essa parte como algo a ser esperado. Ficamos aguardando o momento que só chega no momento certo. Daí vem as rusgas com a mãe Lucinha Araújo, que reconhecia a inteligência, mas não escondia o quanto Ezequiel piorava a personalidade conturbada de Cazuza, o incentivando às drogas e à homossexualidade. Rodrigo Pinto não esconde nada e por isso realiza um documentário repleto de vida, paixão e rebeldia, que Ezequiel Neves aprovaria, mesmo que seu personagem fictício interpretado por Emílio de Mello soe desnecessário na maior parte do tempo.

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