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CINCO DA TARDE (2025) Dir. Eduardo Nunes


Texto por Marco Fialho

Quem acompanha o diretor Eduardo Nunes desde o seu primeiro longa, o belíssimo Sudoeste (2011), sabe o quanto o seu cinema é singular. Em seu terceiro projeto, Cinco da Tarde podemos comprovar a originalidade narrativa emanada de sua obra. Um filme que impõe um ritmo e que nos lança numa imersão no tempo das personagens, o que nos faz querer acompanhá-lo do início ao fim.

Na trama, Anabel (Bárbara Luz, de Ainda Estou Aqui), uma jovem de 17 anos, perde a vó e precisa lidar com essa ausência, com a falta dela depois de tanto compartilhamento de vida e de cotidiano, já que a mãe mora longe, em Belo Horizonte. Ela é acolhida nesse momento difícil pela sua vizinha Meiko (a estreante Sharon Cho), mas o filme é mais sobre Anabel, de como ela vai lidar com a solidão e o desemparo afetivo que sente, especialmente porque o filme se desenrola durante a pandemia da Covid-19, época marcada pelo isolamento social. Bárbara Luz constrói uma personagem com rara sensibilidade e nos apegamos muito facilmente tanto à sua docilidade quanto às suas dores. 

Entretanto, o melhor de Cinco da Tarde é como Eduardo Nunes concebe e filma essa história que beira o banal e o corriqueiro, afinal, perder a vó não é um privilégio de Anabel. Contudo, o incrível é como a direção consegue criar uma atmosfera lúdica em torno de Meiko e Anabel e isto não é nada banal e nem tão pouco corriqueiro. O filme flerta com artifícios do filme de terror, mas é importante frisar que ele efetivamente não se instaura e isso porque Eduardo Nunes é muito meticuloso ao tratar do fantasmagórico. 

Cinco da Tarde me remeteu bastante aos filmes do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul (Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, Cemitério do Esplendor e Memórias) ao tratar os fantasmas como entes verdadeiros advindos do subconsciente de Anabel. A presença da vó se faz porque de fato a menina ainda não assimilou emocionalmente essa falta e o espaço físico do apartamento está vinculado à presença da vó.      

A memória não está relacionada apenas com a vó, com o apartamento e com Anabel, mas também no próprio prédio, que antes de ser construído foi um cinema de rua (o Cine São Bento), cujo nome se justificava pela localização do cinema, que era bem em frente ao bonito Campo de São Bento. O filme inclusive se passa todo em Niterói, cidade de nascimento do diretor e das personagens, o que gera um toque orgânico e verdadeiro à trama. 

A câmera de Cinco da Tarde é fiel ao habitual estilo de Nunes e o seu movimento está condicionado à delicadeza da abordagem, típica do seu cinema, que privilegia o uso de imagens desfocadas e a alternância entre o primeiro e o segundo planos, além dos famosos travellings lentos e sempre reveladores, como o da cena final. A fotografia em P&B de Mauro Pinheiro Jr. é magnífica ao jogar com contrastes muito bem contornados e que salientam a atmosfera misteriosa, que esbarra no universo onírico, do qual Nunes tanto explora em seus filmes. O formato da tela 4x3 é outro aspecto interessante, pois o filme dialoga tanto com um quê de memória quanto a um sentimento de aprisionamento emocional provocado pela morte da vó de Anabel e nas incertezas que a vida proporciona a ela e a Meiko.   

Algumas cenas são tão bonitas quanto reflexivas, como a do aquário (ver imagem de abertura), em que Anabel e Meiko conversam sobre os peixes e o sentimento de liberdade de quem vive em um pequeno espaço. A reflexão vai para além dos bichinhos, lógico, e nos faz pensar igualmente em nossa frágil existência no mundo e nas limitações que o mundo nos coloca e nos aprisiona, já que nascemos dentro de uma família na qual não escolhemos e vivemos a partir das condições inerentes à ela. Essa cena, não deixa de ser uma ótima parábola para se pensar a vida que vivemos.   

Essa discussão do aquário é fundamental no filme para melhor pensarmos Anabel, que está a querer expandir a sua vivência ao se mudar para a casa de Meiko e assim romper com os afetivos laços familiares. Eduardo Nunes é muito feliz em como introduz a trama LGBT no filme. Ela se costura sutilmente e afetuosamente, para muito além do carnal, que surge quase imperceptível, embora sentimentos a respeito sempre paira no ar, mas volta e meia pousa em ações que reafirmam uma profunda conexão entre elas. A cena delas fazendo carinho no rosto, no cabelo e nas costas uma da outra é filmada com extrema sensibilidade e vale mais do que se víssemos uma cena de sexo mais explícita.

O mais bonito de Cinco da Tarde é o quanto ele flerta a todo o instante com o sensorial, com a manipulação dos sentimentos e com o tempo, já que os planos longos e silenciosos possibilitam a imersão emocional do espectador. Se a maioria dos filmes mais lentos trabalham com uma ideia de distanciamento dos personagens em relação com o espectador, aqui o que temos é o inverso, um elo afetivo e empático que parte da tela, da relação entre as personagens e contagia a nós na mesma medida. O tal olhar de cachorrinho pertencente a Anabel, que é descrito no filme pelo fantasma da mãe de Meiko expressa detalhes que fazem de Cinco da Tarde um filme especial, tal como o raciocínio da vó de não entender o porquê do sino tocar às 18 e não às 17 horas já que a luz nesse horário é mais bonita. É a força do imaginário indo além, podendo quebrar as barreiras que uma determinada tradição estabeleceu. É o cinema explorando a força vital que pode caber numa narrativa.

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