Texto por Marco Fialho
Tem filmes que acontecem dentro um tempo delimitado e esse fator determina muito de sua mise-en-scène. É o caso de Seis Dias Naquela Primavera, do diretor francês Joachim Lafosse, que no próprio título já informa a temporalidade que viveremos durante a narrativa do filme. O interessante é que podermos pensar como aqueles seis dias citados se transformarão em 90 minutos, o que se pode deduzir que a maioria desse tempo será de elipse (tempo não extraído na narrativa cinematográfica).
Pode parecer que essa nossa primeira observação seja óbvia, mas não é, ainda mais que a narrativa proposta por Lafosse é calcada em uma concepção realista, tanto da encenação quanto do tempo. Sana (interpretada pela competente atriz Eye Haïdara) é uma mulher separada do marido e que cria dois filhos Tom (Teudor Pinero Müller) e Raphael (Leonis Pinero Müller), mas que precisa assumir uma jornada tripla, entre dois empregos e cuidados com os filhos. Eis que chegou sua hora de tirar uma semana de férias para passear, e é esse período que acompanharemos no filme.
Como é de se esperar, os planejamentos são postos à prova logo de cara quando o apartamento pretendido dá um problema, embora seja da família de Jules (Jules Waringo), um jovem rapaz, um professor de futebol que é apresentado aos filhos como amigo, mas que na verdade é um namorado de Sana, o que os força a procurar um outro lugar em cima da hora. Jules vai com eles e Sana decide ir às escondidas para a casa de luxo dos pais de seu ex-marido, na Riviera francesa, na certeza de que ninguém ocupará a casa no período escolhido.
Obviamente, que essa é uma trama que por si prenuncia o fracasso da pretensão de Sana. É sabido que mentira tem pernas curtas e aqui não será diferente, e a sucessão de equívocos é uma questão de tempo. É muito interessante como apesar dessas dificuldades enfrentadas pelos personagens, a luz das cenas são exuberantes, com predominância da atmosfera solar, que marca as férias como um período primaveril. O realismo das cenas fazem esses dias fluírem, entre momentos radiosos de diversão e outros de tensão, quase sempre provocados por dois meninos ávidos por aventuras.
A câmera de Joachim Lafosse atua de maneira a colocar o espectador dentro da cena, na maioria das vezes com a câmera na mão, que funciona como uma invasora, como se emulasse ou espelhasse o nosso olhar, nos tornando cúmplices daquelas aventuras e dramas que a direção conduz com muita lucidez e com absoluta convicção do que quer mostrar. A qualidade dos movimentos de câmera colaboram na fluidez que sentimos em todos os momentos, algo raro em um filme onde a câmera está sempre acompanhando os atores.
O personagem de Jules é fundamental à trama, pois será a figura desestabilizadora do equilíbrio familiar, ainda mais quando as crianças descobrirem que ele não é bem um amigo e sim um namorado de Sana. Mas Jules é também o elemento solar dessa família forjada em meio às férias de Sana, com ele vem uma leveza e uma delicadeza na resolução dos problemas. E como consequência de seus atos, Jules traz uma harmonia para a relação entre mãe e filhos, mais frequente do que havia antes.
As muitas cenas noturnas sugerem intimidade e segurança e isso porque a fotografia se constrói por um predomínio de um amarelo bastante contrastado, que passa a sensação de permanente aconchego. Mas esse também é um filme sobre amadurecimento, em que as crianças terão que aprender a viver em um mundo em que os desejos não são sempre satisfeitos.
Seis Dias Naquela Primavera é marcado por outra tensão permanente, a de serem descobertos pela família do ex-marido de Sana. Ela se esquiva de vizinhos e de priva de frequentar vários locais da cidade, mas os problemas parecem ter pernas para alcançar quem não caminha como a sociedade espera. Essa tensão impregna várias cenas, ela instaura um estranhamento de que a qualquer instante todos serão desmascarados pela dolorosa verdade, de que eles não tem autorização para estarem ali naquela casa de luxo.
Vale lembrar, de que em Seis Dias Naquela Primavera há o personagem do pai dos meninos. Ele é uma sombra que nunca aparece, embora traga um peso enorme para o filme. Só escutamos a sua voz e isso já é o bastante para sabermos o que ele representa, o quanto se impõe pelo poder financeiro, enquanto Sana trabalha como uma moura para manter a dignidade da casa. Enquanto o encontro dela com Jules é marcado pelo respeito e pelo companheirismo, o dela com o ex-marido vem carimbado pela arrogância, autoritarismo, superioridade e a indiferença.
Esse é o maior mérito da direção de Lafosse, fazer emergir pela simplicidade a força da esperança na humanidade. É pela força do realismo da mise-en-scène que embarcamos nessa aventura ora feliz ora repleta de angústias. São 6 dias de uma mãe com seus filhos, uma típica família contemporânea desestruturada, que poderia ser qualquer outra, afinal tal como disse Léon Tolstói no início célebre de Anna Karênina, "todas as famílias felizes se parecem; cada família infeliz o é à sua maneira". Aqui, a família de Sana carrega simultaneamente a felicidade e a infelicidade, talvez por isso ela soe tão realista aos nossos olhos. A felicidade dela é genérica e sua infelicidade nos chega através de um pai ausente em que as crianças sequer o mencionam. Lafosse preferiu nitidamente sublinhar a felicidade e escantear a infelicidade, mesmo que até esbarre esporadicamente nela, uma escolha amparada em princípios regidos pela empatia.
E como é bom lembrar o quanto a decisão pela felicidade tangencia o realismo de Seis Dias Naquela Primavera. Aliás, é a partir de uma concepção realista que o cinema mais pulsa sua verdade intrínseca, talvez por ele evocar tanto as instabilidades quanto as fragilidades. Mas como é bom ver Lafosse optar por não se deixar levar por elas ao privilegiar a necessidade de elegermos a felicidade como o motor a impulsionar as nossas vidas. E isso faz mais sentido ainda sendo emanada numa primavera.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!