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O DESPERTAR DE LILITH (2016) Dir. Monica Demes


Texto por Marco Fialho

O Despertar de Lilith parte de uma adaptação contemporânea da mitologia de Lilith, uma enigmática personagem que foi mulher de Adão antes de Eva, mas não se submeteu a ideia de inferioridade, e se manda do paraíso para se tornar uma figura demoníaca. Recentemente, foi ressignificada como símbolo de liberdade e resistência feminista contra o patriarcado.

O filme narra a história de Lucy (Sophia Woodward), uma jovem que vive oprimida em uma rotina insuportável, entre a vida com o autoritário e indiferente marido Jonathan (Sam Garles); o trabalho na loja de conveniência de um posto de gasolina, cujo pai é o chefe e trabalha numa oficina mecânica nos fundos da loja; e ainda precisa aturar o assédio sexual do mecânico Arthur (Matthew Lloyd Wilcox), que tenta estuprá-la. 

A narrativa da diretora Monica Demes se constrói sem pressa, em um límpido e marcante P&B. O clima opressor é ditado por cenas com poucos diálogos e um clima sonoro que salienta o tom misterioso da trama, que sugere a todo instante que algum acontecimento provocará uma reviravolta na vida de Lucy, o que efetivamente vem a ocorrer. 

O que faz tudo revirar em O Despertar de Lilith é a aparição de Lilith (Barbara Eugenia), uma vampira contemporânea que Lucy incorpora durante as noites. A masculinidade tóxica do pai, do marido e do colega de trabalho tornam-se algo a ser eliminado para que a alma e o corpo de Lucy se liberte desses homens exploradores do trabalho, do sexo e da boa vontade da personagem, que não aguenta mais viver tendo eles por perto.  

O Despertar de Lilith me remeteu ao filme iraniano Garota Sombria Caminha Pela Noite, dirigido também por uma mulher, a cineasta Ana Lily Amirpour, por retrabalhar igualmente a simbologia vampiresca sob um viés feminista de resistência ao patriarcado. Em ambas as situações, estamos diante de uma jovem em busca de libertação perante um universo opressor.

É bem interessante como a diretora Monica Demes demarca o clima opressivo, com diversos planos próximos e closes, com a câmera quase sempre na mão, o que ressalta o aspecto psicológico perturbador de Lucy. Aliás, O Despertar de Lilith tem muitas cenas pensadas e filmadas para acentuar o incômodo de Lucy perante o mundo organizado e feito para os homens, o que justifica sua constante inquietude em vários momentos. 

O Despertar de Lilith se utiliza de outros artifícios cinematográficos cruciais em sua narrativa. como a contínua sensação de vertigem que temos no decorrer da fruição. Imagens sobrepostas, como a de Lilith em close com um carro em movimento na estrada à noite, numa das incorporações que Lucy vivencia em nome de sua libertação espiritual. Cenas impregnadas por simbolismos se sucedem e trazem para o filme elementos expressivos. A direção retrabalha significantes impressionistas, especialmente com Lucy, para que possamos viver sua crise emocional e sua libertação de maneira mais plena. 

Os velhos argumentos de loucura feminina aparecem nas visões masculinas do pai e do marido, de que Lucy herdou a esquizofrenia da mãe. As reações extremadas de Lucy soam como racionais pela serenidade com que são efetivadas e não ratificam os pensamentos masculinos acerca da sua incapacidade de discernimento do mundo em que vive. O ato de Lucy é extremo, não a sua ação, o que demarca a consciência que ela exerce em cada ação que toma na história.  

Plasticamente, O Despertar de Lilith é um filme muito bem cuidado, com cenas fortes filmadas com extrema beleza imagética. Mesmo depois de liberta dos opressores, o passado é algo que deixa suas marcas e cicatrizes. Entretanto, esse é um filme que sabe trabalhar com eficácia o simbólico e a contemporâneo, com o vampirismo assumindo um viés feminino e libertador, enquanto na tradição masculina, ele representa o conservadorismo e o desejo da permanência do patriarcado. São os bons sinais dos tempos.              

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