Pular para o conteúdo principal

NINO DE SEXTA A SEGUNDA (2025) Dir. Pauline Loquès


Texto por Marco Fialho

A primeira imagem de Nino de Sexta a Segunda, diz muto sobre o que veremos no restante do filme. O protagonista Nino é visto apenas parcialmente na tela enquanto fala com uma atendente em um hospital, e com isso, a diretora estreante em longas Pauline Loquès salienta a personalidade de Nino e o desafio do próprio filme de desvelar esse personagem em franco processo de autoconhecimento ao descobrir que sofre de uma grave doença. 

A interpretação de Théodore Pellerin como Nino é extraordinária e lhe valeu um prêmio de ator revelação no César, conhecido como o Oscar do cinema francês, além de angariar um prêmio semelhante no prestigioso Festival de Cannes de 2025. Outro prêmio recebido por Nino de Sexta a Segunda foi o de Melhor Primeiro Filme de um(a) diretor(a), também no César. 

Como Nino é um personagem em busca de si mesmo, a diretora mostra os três dias dele antes do início do tratamento e essa peregrinação é colaborada pelo fato do rapaz ter perdido a chave e não conseguir retornar ao seu apartamento. Nesses três dias, Nino passa pela casa da mãe (Jeanne Balibar); pela casa do melhor amigo, Sofian (William Lebghil), que organiza uma festa surpresa para ele; e pela casa de uma ex-colega do colégio, Zoé (Salomé Dewaels), que encontra casualmente na fila de um banheiro de um café, quando pinta um clima entre eles. 

O fantástico da interpretação de Théodore Pellerin é o quanto ele vai construindo esse personagem à medida que faz as cenas, o que passa uma impressão de frescor, já que o próprio Nino vive acontecimentos que lhe são sombrios em um curto espaço de tempo, o que faz com que tenha que descobrir rapidamente como lidar com diversas adversidades que a vida lhe reservou.

O filme de Pauline Loquès se empenha em fazer um minucioso estudo de personagem a partir de Nino. Ficamos querendo a cada cena o conhecer mais e curiosos para saber se terá coragem de falar do seu grave problema de saúde com cada novo personagem que encontra. Essa dificuldade de falar de si é uma das características de sua personalidade introspectiva, que não esconde o quanto de afeto é capaz de proporcionar ao outro. Cenas de carinho com a mãe, na qual poupa por não falar a verdade sobre sua moléstia (o que também não deixa de ser um ato afetuoso); com a amiga Zoé, inclusive as melhores cenas são com ela, que se mostra disponível a dar e receber afeto.

Assim, Nino de Sexta a Segunda vai caminhando, por meio de encontros onde os olhares dizem tanto quanto as palavras proferidas. O encontro com a ex-namorada também é marcado pelo carinho e respeito, com Nino expondo sua condição de doente por meio de um cartão postal. A sensibilidade de Nino é construída nas cenas onde ele esconde a sua condição de saúde para não frustrar os colegas que vão a sua festa surpresa. Essa sequência diz muito sobre a natureza dócil de Nino, de sua predisposição a pacificação e não dramatização das situações. 

A narrativa de Nino de Sexta a Segunda é de uma fluência tal, que tudo transcorre sem pressa, embora essa característica não torne o ritmo em um só momento arrastado. A festa é verossímil, a consulta médica também, as relações humanas igualmente. O realismo imposto pela diretora Pauline Loquès é impressionante, tudo acontece com verdade e é isso que queremos ver, algo que soe factível e humano. 

A humanidade que salta da tela é o melhor que podemos tirar da mise-en-scène fluida de Nino de Sexta a Segunda. A câmera está sempre posicionada em ângulos corretos, sem maiores acrobacias ou invencionices, o que ela quer é capturar os personagens em suas rotinas, sem planos mirabolantes que tirem o foco do espectador, uma fotografia sóbria que embora se recuse a roubar a cena também não se deixa ser tomada pelo desleixo. Esse aparato técnico, permite que testemunhamos personagens urbanos solitários, em que cada um deles poderia ser um de nós, perdidos em um mundo onde os sonhos são inexistentes e a realidade não serve de consolo para ninguém. 

Quando Nino está passando a noite no apartamento de Zoé, tem uma cena que muito diz sobre o que o filme quer discutir. Ele está parado defronte a um quadro com a fotografia estilizada da artista contemporânea Marina Abromovic e Zoé esboça uma explicação de quem é ela. E fala de sua exposição, em que a artista ficava sentada numa cadeira recebendo o público, que era convidado a sentar e ficar de frente para ela a encarando. E vem a pergunta de Nino: "E para quê?" Zoé responde de maneira bem breve: "Para nada. Para sentir algo." Como artista, Marina busca um sentido para vida por um ato desesperado e forçado que faz as pessoas simplesmente olharem uma para as outras. Essa talvez seja a discussão que o filme nos deixe, a de buscar um sentido e uma nova reconexão com o mundo a partir do olhar que lançamos para o outro. Um olhar que não desista pela perenidade e que escape da velocidade que o mundo contemporâneo nos impõe todos os dias.  

        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...