Texto por Marco Fialho
"Quando a lenda torna-se fato, publique-se a lenda". Essa conhecida sentença do cineasta John Ford, inserida na sua obra-prima O Homem Que Matou o Facínora (1962) cabe como uma luva para Michael, novo filme de Antoine Fuqua, que ressalta a imagem mitológica do maior astro da indústria fonográfica dos Estados Unidos. Evidente ser essa uma tarefa inglória, ter que lidar com um dos artistas mais arrebatadores em termos de talento da história e também um dos mais polêmicos, em que os fatos sempre nos chegaram enevoados e envoltos de mistérios aparentemente insolúveis.
Entretanto, Michael confirma alguns fatos já bastante repisados pela mídia em geral, como o da vilania do pai Joseph, um Colman Domingo que sabe ratificar expressivamente essa vilania, e uma obsessão de Michael Jackson pela aparência, agravada por acidentes e doenças. Não há fatos novos acrescidos pelo filme, apenas o que já foi amplamente noticiado pela imprensa.
Desde muito jovem Michael Jackson precisou lidar com a fama e com o perfeccionismo, elementos que favorecem o esgotamento psíquico de qualquer pessoa. É muito difícil tratar em um filme de uma história em que várias pessoas que a presenciaram ainda estão vivas e possuem um envolvimento emocional com o personagem mitológico abordado. Por isso, Michael suscita tantas reações abruptas de defesas que beiram o irracional.
A escolha por Antoine Fuqua para dirigir esse projeto trouxe para o seu resultado final um ritmo frenético e excessivamente dramático, já que o diretor tem em seu currículo filmes de ação e grande carga emocional, como Lágrimas do Sol (2003), Atirador (2007), a franquia O Protetor (2014, 2018 e 2023) e 7 Homens e um Destino (2016), só para citar algumas de seus trabalhos. Esses aspectos provocam uma oscilação na narrativa do filme, que alterna trechos apelativos emocionalmente com momentos mais frenéticos das apresentações musicais que engolem a própria história.
O roteiro de Michael é assinado pelo experiente John Logan (O Aviador, Gladiador, entre muitos outros), mas não deixa de ser um dos calcanhares de Aquiles do filme, com algumas ausências injustificáveis como não mencionar que a carreira de Michael Jackson como cantor solo começou ainda criança (em 1972 com 13 anos, tendo realizado outros 3 discos até 1975) e não em Off The Wall (1979), que embora tenha sido um divisor de águas para o pop internacional, não se deveria esquecer de suas gravações solo anteriores, todas independentes do Jackson 5.
Uma pena o filme não considerar as contradições de Michael Jackson e jogar todas as falhas para cima exclusivamente do pai, construído como um vilão ambicioso e inescrupuloso. A obsessão pelo trabalho por parte de Michael é fruto de uma educação rígida que o levou a ter uma disciplina e que sem ela dificilmente se tornaria um astro da estatura que atingiu na carreira. Mas e as plásticas por não aceitar o seu rosto, cabia jogar para o pai? O filme de Antoine Fuqua aceita essa imposição de Michael como vítima e trata a indústria fonográfica como um paraíso a salvar a sua vida e carreira. A CBS é tratada como a melhor companhia capitalista do mundo, um lugar perfeito que dava total liberdade para os artistas. Quincy Jones tem um papel mínimo na trama, algo que salta aos olhos de quem admira a música de Michael e sabe do seu papel como seu produtor musical.
Jaafar Jackson se esforça do ponto de vista da performance e se sai muito bem. A escolha de dublar as cenas foi acertada porque ouvir outra voz que não fosse de Michael seria algo desastroso e poderia por tudo a perder. Jaafar se entrega demais ao papel, não resta dúvida e o seu maior mérito não querer ser mais do que Michael, o que torna sua performance quase que invisível como uma emulação possível e crível.
Pelo que o próprio filme indicou ao final, essa é a primeira parte de algo em andamento. A parte mais polêmica ficou para essa segunda parte e ela será decisiva para Michael. Até o momento, essa primeira vale pelos ótimos números musicais, embora sejam poucos e às vezes repetitivos. Falar do álbum Thriller (1982) parece sempre pouco, perto da magnitude que foi esse álbum para a história da música. Quem viveu essa época sabe do que estou a falar. Um ponto favorável para o filme é quando se atrela Michael Jackson ao cinema e a influência dessa estética para o seu trabalho. O filme de terror, os cômicos, os dramas, e principalmente os musicais dançantes, são importantes na concepção dele como artista. Uma decepção em Michael é a forma rápida pela qual se passa pelo disco Bad (1987), tratado de maneira bastante superficial pelo roteiro, embora seja o último trabalho dele com Quincy Jones. O filme também passa batido pela relação de Michael com os diversos artistas com os quais construiu parcerias como Paul McCartney e Steve Wonder, fora a organização e mobilização do artista perante o maior encontro musical da história para a gravação do super hit We Are The World, em 1985, para ajudar as crianças que passavam fome no mundo.
Mas a pergunta que fica ao término de Michael é a relação rasa do cantor com os seus irmãos do Jackson 5. Não há sequer uma cena em que eles conversem entre si, o que causa no mínimo um estranhamento, já que eles faziam turnês anuais juntos. Esse é mais um ponto de fragilidade de um roteiro que não consegue dar uma boa liga numa história complexa, repleta de detalhes e que passa pelas mãos comprometidas do espólio de Michael Jackson. Sua irmã mais crítica, Janet Jackson, por exemplo, se recusou a participar do filme e não autorizou sua veiculação como personagem.
Michael não é tão interessante quanto seus fãs inveterados sugerem, mas ao mesmo tempo se sustenta sobretudo pelo impacto sonoro que a música genial de Michael Jackson proporciona na tela do cinema. Precisamos esperar a continuação do filme para realmente avaliar o quanto Antoine Fuqua vai aderir ou não a uma visão mais crítica sobre um personagem que pairam dúvidas acerca de sua vida privada, ou vai assumir de vez a lenda Michael, inquestionavelmente um artista de grande valor para a música pop mundial.

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