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MAMBEMBE (2025) Dir. Fabio Meira


Texto por Marco Fialho

Mambembe se propõe a narrar o processo de pesquisa e feitura por 15 anos do diretor Fabio Meira para realização do que seria o seu primeiro longa-metragem. Não deixa de ser interessante a decisão do diretor de embarcar numa aventura francamente híbrida entre o universo ficcional e o documental. Da pesquisa nasce o filme, cujo roteiro ficcional aparece citado aqui e acolá, embora a montagem de Affonso Uchôa, Fabio Meira e Juliano Castro seja oscilante sobre os caminhos narrativos do filme.

A ideia inicial lá em 2010 era viajar por cidades para descobrir personagens para compor uma obra ficcional, mas os personagens reais começaram a pedir passagem e foram sendo incorporados ao filme, que assume assim um lado mais documental, por mais que o ficcional invada em alguns momentos a trama e a perturbe.  

O personagem Rui, um topógrafo viajante por natureza pelas características da profissão, desde o início seria interpretado por um ator profissional, o que se manteve até o final. Outros personagens como a dona do circo e outras profissionais encontradas nesse ambiente, ainda não estavam bem definidos, sendo mais fluídas. Mas quando Meira encontra Índia Moreno, Madona show e Jessica Alves suas dúvidas vão se evidenciando. A força cênica de Índia Moreno é irresistível, ela praticamente se impõe como a atriz a fazer ela mesma. assim como Madona Show. Já Jéssica abandona a empreitada para se casar e ter outra vida, sendo substituída pela atriz Dandara Ohana, que também é assistente de direção em Mambembe

Fabio Meira se assume igualmente como personagem, narrando o difícil processo de realização do filme, que de estreia em longas se transforma na terceira obra da ainda recente filmografia de Meira. Mambembe assume a forma circulante, tal como a natureza circense o é. De início, alguns personagens aparecem, mas depois são abandonados, pois a direção vai se apegando especialmente nos três personagens que mais se dedicam ao projeto. 

Índia Morena é disparada a personagem mais cativante e convincente. Ela convence ao diretor que ninguém faria melhor o seu papel do que ela própria. Cada aparição sua salva Mambembe de ser algo frio e meramente automático. Índia se entrega em cada depoimento, mesclando improviso e texto decorado, se saindo bem nas duas propostas. Madona Show é a personagem trans, que só engrena mais para o final do filme, nas primeiras cenas ela não está tão integrada, ainda performa com certa dificuldade para a câmera. Um dos melhores momentos do filme é a aparição de Jéssica lá pelo meio quando ela retorna para dizer como valeu a pena participar da trama lá no início. 

Contudo, nem sempre esse vai e vem narrativo oscilando entre o documental e o ficcional funciona a contento. Há momentos de instabilidade, em que a mistura atravanca mais do que ajuda na fluência narrativa, principalmente porque gera uma confusão desnecessária para a narrativa. Em certo momento, uma pergunta então se impõe: Mambembe é sobre o processo ou sobre os personagens? Seria mais um jogo sobre brincar com os formatos documentais e ficcionais? Essas são dúvidas que acompanham o filme até o final, sem que saibamos de fato qual é a maior intenção da direção. A inserção do personagem Rui (Murilo Grossi) na trama colabora para aumentar o incômodo, pois ele não consegue gerar uma boa interação com o documental, parece até deslocado em boa parte do tempo.

Se a filmagem em si descobre personagens incríveis e esse era o objetivo da viagem inicial da equipe do filme, o encantamento pelo processo da busca dos artistas circenses se sobrepõe sobre a própria ideia geral, sem a tornar mais interessante do que a pesquisa em si. Mambembe se revela uma obra aberta demais e essa proposta que sublinha o processual não deixa de ser interessante por possibilitar reflexões tanto sobre o fazer cinematográfico quanto o que vemos efetivamente na tela.

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