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FANON (2024) Dir. Jean-Claude Barny


Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho

Embora o filme Fanon, dirigido por Jean-Claude Barny, seja narrado cronologicamente e apresentado dentro de uma linearidade e de uma narrativa clássica, a força da encenação serve como uma escora vigorosa para que a sua fluência e contundência permita que o personagem de Frantz Fanon seja arrebatador da primeira à última cena, isso tanto para o bem quanto para o mal. 

Os méritos e os problemas de Jean-Claude Barny começam na escolha do elenco, Alexandre Bouyer está imponente com Fanon e Déborah François está incrivelmente forte como Josie Fanon, a esposa branca e esquerdista que apoiou Frantz até o fim. Ainda assim, cabe questionar a escolha tanto do ator quanto da atriz, por ambos possuírem corpos em um padrão estético mais para as exigências do século 21 do que do século 20. O Fanon cinematográfico é bem mais atlético do que o original (e isso é muito visível nas cenas em que seu corpo é mostrado nu) e o mesmo vale para a escolha de Déborah François como Josie. Isso causa um leve incômodo, em especial essa necessidade de atribuir um quê a mais nas aparências de ambos, talvez como um atrativo a mais para cativar o público, como se suas ideias de luta, justiça e o seu engajamento social não fossem o bastante.

 O filme é baseado no período em que Fanon chega à Argélia em 1953 para trabalhar como médico psiquiatra no Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville, dedicando seus cuidados a ala dos pacientes árabes, cargo que ocupa até 1956. O princípio de seu tratamento era o da humanização que visava penetrar na psiquê dos pacientes com traumas resultantes do violento processo de colonização francesa. Os métodos de Fanon foram questionados pela elite médica branca desde o início, quando Fanon pediu um tradutor árabe e libertou os pacientes das masmorras fétidas do hospital, criou um campo de futebol, aulas de pintura e horta comunitária. Ele acreditava na recuperação do ser humano dentro de uma lógica de pertencimento comunitário e coletivo. Os métodos de Fanon lembram bastante os da psiquiátrica brasileira Nise da Silveira, que acreditava no lúdico e na afetividade para transformar a vida dos pacientes antes tratados com choques elétricos.

O seu envolvimento com as questões políticas e sociais da Argélia a partir da sua vivência no hospital, da sua origem na Martinica e da sua participação na luta pela libertação da França do nazismo na Segunda Guerra Mundial, o levaram a se comprometer no movimento para a libertação da Argélia sob o domínio colonial francês, o que o fez passar rapidamente de herói a traidor aos olhos da elite francesa. O filme aborda justamente esse momento, em que escreve o livro Os Condenados da Terra a partir de sua experiência na luta anticolonial, uma obra que logo se tornaria um clássico para além da luta anticolonial, por trabalhar as entranhas que alimentam as práticas racistas que vigoram até os nossos dias. O filme ainda mostra reiteradas vezes a colaboração ativa da sua esposa Josie, que datilografava seus pensamentos enquanto ele os ditava em voz alta. 

A encenação de Jean-Claude Barny salienta muito o realismo das imagens, a reconstituição dos ambientes psiquiátricos e as humilhações e as violências impostas ao povo árabe, tratados como seres inferiores e que para os médicos franceses não precisavam de maiores cuidados. A trilha sonora vem complementar a proposta da direção de investir em um viés épico da trajetória de Fanon, para fortalecer a visão heroica de um homem enfrentando as injustiças e a desproporcionalidade da resposta colonialista dos agentes militares franceses. 

Inclusive, o maior esforço da direção é o de criar uma forte identificação do espectador com Fanon, um personagem que talvez não precisasse assim de tanto apelo, já que sua luta é eloquente por si, o que já provoca o senso de justiça de qualquer espectador. Essas escolhas narrativas se mostram excessivas e fazem o espectador sentir mais do que refletir. A indignação é sempre necessária, mas ela não pode obliterar a reflexão racional que nos faz compreender os contextos e suas lutas específicas e esse é o maior senão desse filme cuja temática é imprescindível. 

Cinema é construção narrativa e por isso a forma fílmica não deve ser aqui tratada com indiferença, sob o risco de dramatizar por demais uma luta que ainda está presente em nossos dias. O pensamento antirracista de Fanon não deveria ser sintetizado por frases de efeito ou por construções dramáticas exageradas. Pesar a mão em elementos narrativos contradiz o personagem retratado e a justeza da conduta e de seus pensamentos, calcados na sua vivência como psiquiatra, mas indo além nos estudos das estratégias capitalistas que buscavam manter as estruturas políticas, econômicas e sociais para que  regime colonial continuasse dominando. 

Não casualmente, Frantz Fanon se aproximou do marxismo, por entender que a discussão sobre raça, colonialismo e pós-colonialismo vão além de atos heroicos individuais e dos chavões. Nesse aspecto, o filme fica devendo uma experiência para além da visão épica e personalista de um personagem complexo, que lutou e pensou a realidade em um só tempo, mas cuja atuação política jamais pleiteou ser uma espécie de super-herói terceiro-mundista. Afinal, melhor deixarmos essa tarefa heróica e espetaculosa para o cinema hollywoodiano.                  

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