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EU NÃO TE OUÇO (2026) Dir. Caco Ciocler


Texto por Marco Fialho

A eleição de 2022 ficou marcada pela derrota de Jair Bolsonaro ao tentar a sua reeleição para presidente. Depois do anúncio fatídico, o ainda presidente Bolsonaro começou a insuflar seus apoiadores de que o processo eleitoral foi manipulado politicamente para beneficiar a chapa do então candidato Lula, do PT. Atos insanos foram estimulados nas redes sociais e realizados publicamente em diversas regiões do país. Entretanto, alguns atos ficaram mais marcantes, como a de um grupo que rezou para um pneu e um outro sujeito que se agarrou desesperadamente na frente de um caminhão como se pudesse fazê-lo parar e sensibilizar a todos sobre o que ocorria no país, pelo menos na sua embaçada visão. 

É baseado nesse último episódio, o do caminhão, que Caco Ciocler resolveu dirigir Eu Não Te Ouço, um filme que trata a dificuldade de um determinado grupo social de ouvir e ver a realidade a sua frente, o que gerou neles um entendimento muito próprio acerca da política do país. As cenas iniciais mostram fatos verídicos de manifestantes interrompendo uma rodovia para contestar contra a derrota nas eleições, considerada duvidosa por esse grupo político. Eles almejavam parar um país sob uma suposta irregularidade nas urnas que jamais chegou nem perto de ser aventada pela justiça eleitoral. 

Eu Não Te Ouço é sobre esse momento de delírio, que infelizmente ainda não foi apaziguado, basta ver o incidente com uma marca de detergente que forneceu manifestações grotescas e anticiência pelas redes sociais do nosso país. Ainda hoje, a onda de desinformação se enraíza como uma doença que parece crônica. Dessa triste realidade, sobressai a importância do filme de Ciocler, por tentar elaborar um retrato acerca da insanidade política que divide o país, pelo simples fato de se ignorar ora a história ora a ciência, e indo mais além, da capacidade de se forjar uma realidade paralela e delirante por esse grupo político que aderiu a uma ideologia de extrema-direita.     

Mas vamos ao filme, afinal, é ele que aqui nos interessa. Caco Ciocler parte de dois dispositivos interessantes para abordar esse controverso tema: o do mockumentário (um filme ficcional narrado como documentário) e o road movie (ou o filme de estrada). Ciocler, que aparece somente como um suposto diretor de cinema pegando uma carona com o intuito de realizar um filme sobre a participação política dos caminhoneiros e entrevista então o caminhoneiro, interpretado por Márcio Vito. 

A base narrativa pleiteada por Ciocler se configura em formato de entrevista, com o caminhoneiro respondendo as perguntas majoritariamente sobre política no Brasil e o papel dele como agente político na sociedade. Algumas perguntas iniciais exploram aspectos da filmagem em si, especialmente de como o caminhoneiro se vê como entrevistado. No decorrer do filme esse viés é abandonado e ficamos apenas com o predomínio da ficção como mote narrativo, me ressenti de um maior desenvolvimento dessa falsa narrativa documental proposta no início e que tornava Ciocler um pensador de um processo que se constituía como falso, mas que revelava intenções oportunas e verdadeiras no âmbito da direção do filme, pois a narrativa se assenta na premissa de um filme dentro do filme, o que sempre é um charme cinematográfico para os amantes do cinema.

Todavia, entra em cena um terceiro personagem, o do fanático de extrema-direita que se aboleta na parte da frente do caminhão, aquele que não negocia nem recua em uma palavra sequer de suas convicções políticas, por mais absurdas que elas sejam. Um dado interessante é que esse bolsonarista, esse suposto patriota que se veste de verde e amarelo, é interpretado também por Márcio Vito. Vale refletir sobre esse duplo que se estabelece, tendo apenas um vidro frontal do caminhão como um elemento a dividir esses dois indivíduos. O viés performativo nesse ponto é bem visível. O mais fascinante disso é o poder simbólico dessas imagens, de que eles mesmo estando muito visíveis um para o outro, ainda assim, não conseguem se ouvir, e portanto, não estabelecem efetivamente um diálogo. 

É evidente a força dessa imagem metafórica do vidro, que gera um incômodo até o final do filme. A transparência do vidro não garante a conversa entre eles, que vociferam sem que um esteja realmente ouvindo o outro. Essa ideia é fantástica, mesmo que no decorrer do filme ela perca um pouco de sua força por uma exaustiva reiteração. Eu Não Te Ouço possui ainda uma estranha sensação de aprisionamento, pois ficamos sempre esperando que outra paisagem venha substituir a que estamos imersos, mas ela nunca vem, provavelmente porque os personagens estejam mesmo presos em suas posições inegociáveis, o que oblitera a ideia de mudança imagética. Tão perto e tão longe é uma definição para eles.  

Cinematograficamente, a câmera de Eu Não Te Ouço revela uma gama de oscilações dos personagens e das cenas. Há uma dinâmica determinada por uma variação de ângulos e enquadramentos, embora o espaço físico em que a trama se desenrole seja a mínima possível. A base do roteiro, escrito pelo próprio Caco Ciocler junto com Márcio Vito e a atriz Isabel Teixeira, se sustenta por diálogos bem amarrados que desenvolvem o tema a ponto de manter ativo o interesse do espectador. A manutenção do patriota na parte da frente do caminhão cria uma ideia de alargamento temporal, além de inspirar um clima de irrealidade e absurdo intrínsecos à narrativa, ainda mais que não seria possível a figura do Ciocler realizar as duas entrevistas, a interna e a externa do caminhão quando este está em movimento. 

É sabido o quanto o road movie é um formato narrativo do cinema propício a transformações, já que é no inesperado do caminho que chegamos a algum lugar. Mas o próprio filme responde à possibilidade de que o ato de rodar pelo mundo um personagem pode modificar suas ideias. Vale observar que Eu Não Te Ouço não se consolida como uma viagem aberta ao externo e à transformação. Praticamente todas as cenas de estrada são internas e os personagens não se mostram disponíveis ao diálogo nem entre eles nem com o mundo. O filme se compreende na incomunicabilidade e na constatação de que é quase inexistente o diálogo, o que torna o caminho intransponível. Apenas o entrevistador realiza algum tipo de troca, mas mesmo assim, focado para o filme que quer fazer.

É nítida, no personagem do patriota, a representação dos golpistas de 8 de janeiro de 2023, as ideias que a princípio podem parecer ingênuas, mas que produziram, e ainda produzem, ações perniciosas contra a democracia brasileira. Já o personagem do caminhoneiro possui mais camadas do que o patriota, mesmo que suas ideias soem confusas e tateantes, quando ele aponta sua dúvida de "onde está a verdade, na internet"? O que sabemos, de fato, é que os memes gerados a partir da imagem do patriota grudado na frente do caminhão, ou da reza de militantes da extrema-direita para um pneu, impactaram tanto quanto as ideias de que a Terra era plana, e que todos eles não foram suficientes para que se brotasse uma consciência crítica vinda desse obtuso grupo político. Há uma cegueira que os torna doentes politicamente e isso é muito evidente. 

Mesmo que a narrativa de Eu Não Te Ouço canse um pouco lá pela metade, em especial por ficar repisando uma única situação insolúvel e repetitiva, traz à tona uma discussão que não cessa no país, e que até pelo contrário, se mostra interminável e só aprofunda os problemas seculares da nossa desigual sociedade, que até hoje tende à exclusão dos mais pobres e a salientar e sedimentar os privilégios dos mais ricos. Triste esse nosso trópico, mergulhado em tanta desinformação e manipulação política pelas fake news. Não fiquei convicto de que quando o caminhoneiro e o patriota cantam juntos o hino nacional isso possa trazer alguma esperança ou perspectiva de alento para o futuro. E que isso possa resultar em um esforço para que ambos se ouçam, mas entendo apenas como uma minúscula trégua que entretanto não é suficiente para criar algum laço possível de convivência respeitosa acerca das diferenças. O diálogo ainda é algo a ser construído e as bases verdadeiramente não existem. Por isso, como sociedade, estamos no fundo do poço.           

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