Pular para o conteúdo principal

ERA UMA VEZ MINHA MÃE (2025) Dir. Ken Scott


Texto por Marco Fialho

Era Uma Vez Minha Mãe narra a história da relação conturbada de Roland (Jonathan Cohen) com sua mãe Esther (Leila Bekhti). Esse filme representa um tipo de cartilha, do que é chamada uma mãe judia, aquela que às vezes aparece nos filmes cômicos de Woody Allen e em tantos outros. 

O filme explora os aspectos positivos e negativos dessa mãe que faz tudo pelo filho, ainda mais que Roland nasceu com uma deficiência, a de ter o pé torto. Desde o início Esther não aceita os diagnósticos e batalha contra a deficiência do filho com todas as suas forças, chegando até a deixar de lado os outros 5 filhos. O menino anda se deslizando pelo chão, já que o ato de andar, ou a sua simples tentativa, pioraria seu quadro. 

O diretor Ken Scott realiza uma obra leve na abordagem, embora um pouco apressada com planos que passam lépidos e uma montagem que almeja manter uma comunicação constante com o espectador, embora jamais o tire de uma zona de conforto. Nesse ponto, Ken Scott se sai muito bem, entregando uma história com toques cômicos que amenizam a dramaticidade de alguns momentos da história, ainda que a celeridade não permita uma verdadeira conexão com os personagens.

A primeira parte é toda de Esther buscando tratamentos que solucionem o problema do filho. até que fique evidente o quanto ela se esforçou para que o filho pudesse chegar na fase adulta sem maiores problemas. A segunda parte é prioritariamente de Roland, que tenta levar uma vida sem tantas interferências da mãe, que mesmo já um homem tem a mãe em seu encalço. Essa é a estrutura narrativa que se consolida no filme, mesmo que a família tenha mais 5 filhos, eles são deixados de lado na segunda parte e aparecem apenas circunstancialmente na primeira parte. Como podemos de uma só vez fazermos tanto o bem quanto o mal para uma pessoa que amamos. Esse é o instável lugar que Era Uma Vez Minha Mãe caminha, no fio tênue de se encontrar um espaço da realização do outro sem gerar uma sensação de sufocamento.

Como o filme é baseado em uma história real, extraída do livro escrito pelo próprio Roland, algumas curiosidades da chamada vida real podem ser notadas, como a participação da popular cantora francesa Sylvie Vartan, que participa fazendo o papel dela mesma. Isso porque as suas músicas serviram como um remédio espiritual para Roland durante toda a sua fase em que não podia andar. 

A arguta atriz Jeanne Balibar interpreta a Sra. Fleury, uma assistente social que quer tirar a guarda de Esther do filho, já que a mãe diz que o filho só irá para escola depois que começar a andar, o que parecia algo praticamente impossível e contrariava um dos direitos básicos do cidadão francês, o do estudo. Era Uma Vez Minha Mãe é bom de se ver, embora trate a história de Roland do ponto de vista mais anedótico do que reflexivo, tudo em nome de uma suposta leveza narrativa, que contraditoriamente mais exaure o ato de narrar do que realmente o facilite. 

Era Uma Vez Minha Mãe tem como foco a relação tóxica entre mãe e filho, ponderando os aspectos positivos da dedicação da mãe, como o fato de recuperar a vida "normal" do filho por não aceitar sua deficiência como algo irreversível. Tamanha dedicação fez até o presidente da França lhe oferecer uma comenda. Mas o filme também trabalha o lado danoso desse apego pela cura do filho, que se expressa no sentimento de sufocamento sentido por Roland devido o excesso de zelo e de amor que lhe é dedicado pela mãe. 

O maior problema de Era Uma Vez Minha Mãe ocorre porque toda essa abordagem não escapa do expositivo e não deixa margens para que o público saia do cinema refletindo sobre o que viu. Ken Scott apenas transforma o espectador em um passageiro, que de ponto em ponto chega ao final do trajeto sem pensar com mais profundidade em um tema muito rico e bastante corriqueiro em nossa frágil sociedade contemporânea, o da super proteção maternal. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...