Texto por Marco Fialho
Era Uma Vez Minha Mãe narra a história da relação conturbada de Roland (Jonathan Cohen) com sua mãe Esther (Leila Bekhti). Esse filme representa um tipo de cartilha, do que é chamada uma mãe judia, aquela que às vezes aparece nos filmes cômicos de Woody Allen e em tantos outros.
O filme explora os aspectos positivos e negativos dessa mãe que faz tudo pelo filho, ainda mais que Roland nasceu com uma deficiência, a de ter o pé torto. Desde o início Esther não aceita os diagnósticos e batalha contra a deficiência do filho com todas as suas forças, chegando até a deixar de lado os outros 5 filhos. O menino anda se deslizando pelo chão, já que o ato de andar, ou a sua simples tentativa, pioraria seu quadro.
O diretor Ken Scott realiza uma obra leve na abordagem, embora um pouco apressada com planos que passam lépidos e uma montagem que almeja manter uma comunicação constante com o espectador, embora jamais o tire de uma zona de conforto. Nesse ponto, Ken Scott se sai muito bem, entregando uma história com toques cômicos que amenizam a dramaticidade de alguns momentos da história, ainda que a celeridade não permita uma verdadeira conexão com os personagens.
A primeira parte é toda de Esther buscando tratamentos que solucionem o problema do filho. até que fique evidente o quanto ela se esforçou para que o filho pudesse chegar na fase adulta sem maiores problemas. A segunda parte é prioritariamente de Roland, que tenta levar uma vida sem tantas interferências da mãe, que mesmo já um homem tem a mãe em seu encalço. Essa é a estrutura narrativa que se consolida no filme, mesmo que a família tenha mais 5 filhos, eles são deixados de lado na segunda parte e aparecem apenas circunstancialmente na primeira parte. Como podemos de uma só vez fazermos tanto o bem quanto o mal para uma pessoa que amamos. Esse é o instável lugar que Era Uma Vez Minha Mãe caminha, no fio tênue de se encontrar um espaço da realização do outro sem gerar uma sensação de sufocamento.
Como o filme é baseado em uma história real, extraída do livro escrito pelo próprio Roland, algumas curiosidades da chamada vida real podem ser notadas, como a participação da popular cantora francesa Sylvie Vartan, que participa fazendo o papel dela mesma. Isso porque as suas músicas serviram como um remédio espiritual para Roland durante toda a sua fase em que não podia andar.
A arguta atriz Jeanne Balibar interpreta a Sra. Fleury, uma assistente social que quer tirar a guarda de Esther do filho, já que a mãe diz que o filho só irá para escola depois que começar a andar, o que parecia algo praticamente impossível e contrariava um dos direitos básicos do cidadão francês, o do estudo. Era Uma Vez Minha Mãe é bom de se ver, embora trate a história de Roland do ponto de vista mais anedótico do que reflexivo, tudo em nome de uma suposta leveza narrativa, que contraditoriamente mais exaure o ato de narrar do que realmente o facilite.
Era Uma Vez Minha Mãe tem como foco a relação tóxica entre mãe e filho, ponderando os aspectos positivos da dedicação da mãe, como o fato de recuperar a vida "normal" do filho por não aceitar sua deficiência como algo irreversível. Tamanha dedicação fez até o presidente da França lhe oferecer uma comenda. Mas o filme também trabalha o lado danoso desse apego pela cura do filho, que se expressa no sentimento de sufocamento sentido por Roland devido o excesso de zelo e de amor que lhe é dedicado pela mãe.
O maior problema de Era Uma Vez Minha Mãe ocorre porque toda essa abordagem não escapa do expositivo e não deixa margens para que o público saia do cinema refletindo sobre o que viu. Ken Scott apenas transforma o espectador em um passageiro, que de ponto em ponto chega ao final do trajeto sem pensar com mais profundidade em um tema muito rico e bastante corriqueiro em nossa frágil sociedade contemporânea, o da super proteção maternal.

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