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ECLIPSE (2026) Dir. Djin Sganzerla


Texto por Carmela Fialho e Marco Fialho

Eclipse parte de uma lenda indígena que trata de dois elementos separados pelas suas naturezas (sol e lua), e juntados pelas garras da onça, guardiã das estrelas, segundo a tradição indígena. Essa explicação serve de metáfora para que a diretora Djin Sganzerla adentre em um universo para lá de atual, o da cultura da violência do patriarcado contra a mulher. 

Na trama, Cleo (Djin Sganzerla) é uma astrofísica que estuda os corpos celestes, isto é, vive o maior tempo cuidando de fenômenos espaciais enquanto não vê fatos que ocorrem na Terra e que afetam diretamente a sua vida. É o caso do casamento que mantem com o advogado Tony (Sergio Guizé), do qual espera um filho, que a trata como princesa, mas oculta segredos sinistros no tempo em que não está com ela. 

Mas é justamente no encontro com a sua meia-irmã indígena Nalu (Lian Gaia), que a sua vida tem uma reviravolta. Eclipse é um filme com fortes tintas sociais e construído numa narrativa de suspense e que lentamente vai trabalhando com aspectos que vão revelando a vulnerabilidade de Cleo em um determinado contexto de família e casamento. A principal crítica do filme é ao patriarcado que dispõe sexualmente dos corpos femininos segundo a sua vontade, cometendo crimes de estupro e pedofilia.

Eclipse também significa o encontro sem hierarquias das duas culturas, dos saberes indígenas ancestrais com os saberes científicos baseados na astronomia. A cumplicidade das irmãs, que antes eram separadas por questões familiares, descortina um mundo de revelações sinistras e criminosas tanto do pai quanto do marido. A masculinidade tóxica se revela uma questão evidente no filme, pois ela está por detrás dos pontos nevrálgicos tanto de Cleo quanto de Nalu, uma dentro de casa e a outra no mundo do trabalho, respectivamente.  

A forma como a diretora trabalha o desvendar de vários segredos entrelaça na narrativa paralelamente as situações das irmãs, intercalando cenas do passado recente de Nalu na fazenda onde foi vítima de assédio sexual no trabalho, com as memórias de criança de Cleo com o pai e ainda os ensinamentos da avó indígena de Nalu. Além dos saberes ancestrais, Nalu domina muito bem os conhecimentos das redes sociais podendo ajudar a desatenta Cleo a rastrear o marido e a descobrir seus segredos. A irmã indígena enfrenta um problema que é historicamente intrínseco ao Brasil, o de se misturar relações profissionais com a intimidade doméstica, esquemas em que a propriedade, a família, os negócios e o sexo estão emaranhados e inseridos na organização patriarcal do trabalho. 

Por isso, o patriarcalismo torna-se o objeto central da narrativa de Djin Sganzerla, o que justifica Eclipse se situar a partir da relação conjugal entre Cleo e Tony, e o que vemos no decorrer da narrativa é a desconstrução desse casal que a princípio parece saído de um comercial de margarina. Os horrores da cultura patriarcal brasileira são combatidos pelas próprias personagens femininas, o que reafirma o jargão feminista de que "mexeu com uma, mexeu com todas". Eclipse vê o nosso mundo em uma guerra permanente contra as mulheres, o que podemos dizer que errado o filme não está, pois as elevadas taxas de feminicídio reafirmam esse triste fato.   

Eclipse surpreende por tratar de um tema tão atual sob um formato de filme de suspense, com os seus devidos pontos de virada até chegar numa proposta de resolução dos problemas apresentados no decorrer da narrativa. A câmera funciona aqui como o olho dessas duas meias-irmãs, se seduzindo quando possível, com as investidas amorosas de Tony em Cleo, e reagindo com assombro à violenta agressão do assédio sofrido por Nalu e respondido na mesma moeda, como se fosse uma onça acuada. Djin Sganzerla levanta um ponto interessante ao introduzir a simbologia indígena dos animais na discussão do feminino em nossos dias: será que não está faltando sermos mais instinto do que razão? Reagir mais perante os absurdos do que apenas aceitarmos passivamente as dores impostas por esse mundo violentamente machista, o que justifica que vejamos Nalu como uma guerreira indígena preparada para todas as lutas e pronta a utilizar todas a armas necessárias para defender tanto ela quanto outras mulheres.

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