Texto por Marco Fialho
Falar das domésticas no Brasil sempre é revirar e reavivar o tema da origem escravocrata de nossa complexa formação social. Isso porque essa atividade profissional se relaciona direta e profundamente com as estruturas coloniais que se sustentaram pelo trabalho escravo. Aqui Não Entra Luz, dirigido por Karol Maia, trata frontalmente dessa questão tão delicada que precisa ser debatida com maior constância no Brasil.
A ideia de realizar o documentário partiu da experiência de Miriam, a mãe da diretora, que trabalhou a vida toda como doméstica e babá em casas luxuosas de famílias privilegiadas economicamente em São Paulo. Quem são essas mulheres? O que elas vivem e sonham? Quais as humilhações elas sofreram no decorrer de suas carreiras como domésticas? Para quem tem um mínimo de consciência de como o Brasil se estrutura socialmente, essas são perguntas nas quais intuímos as respostas. O filme exibe imagens de senzalas e de quartos de empregadas, ambos projetados sem luz, um no subsolo e outro minúsculo nas áreas de serviço dos apartamentos de classe média. São áreas de isolamento social, de quem supostamente seria da família, mas que vivia em condições de óbvia inferioridade espacial e social.
A ideia inicial de Karol Maia era mergulhar no tema a partir de sua mãe Miriam, mas a jovem cineasta encontrou resistência da própria mãe que não topou a empreitada e que não queria que a filha levasse o projeto do filme adiante, talvez mais por não querer falar das humilhações do que por vergonha, como a própria Miriam diz no início dos depoimentos. O filme é também sobre esse processo, o de convencimento, embora Karol diante da negativa domiciliar inicial tenha partido para entrevistar outras mulheres que trabalharam como empregadas domésticas em outros Estados brasileiros, como Bahia, Maranhão, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o que também traz uma ideia mais ampla para essa profissão que é mais comum nos grandes centros urbanos.
Era de se esperar que esse processo de entrevistas dessas profissionais, por mais que cada pessoa seja diferente da outra, levasse a vivências não muito diferentes, como o fato de todas viverem em um mínimo quarto claustrofóbico durante 5 dias da semana e aturarem as vicissitudes e autoritarismo de cada família ou o assédio sexual dos patrões. Assim, Karol chega em Rosarinha (MG), uma mulher que na adolescência começou a trabalhar em troca de comida, sem salário; e chega também em Cris (RJ), uma mulher negra que trabalhou em regime de escravidão para uma tia; ainda chega em Mãe-Flor (MA), que conta sobre a ausência de direitos básicos, como almoço e sem ter sequer uma cadeira para sentar; e tem Catarina (BA), que se recusa a ser chamada como membro da família, ou algo do tipo, ela prefere ser denominada de empregada e celebra as conquistas da carteira assinada, como direito às férias e 13º salário. Catarina fala das vantagens do projeto Minha Casa, Minha Vida, de se ter uma casa por meio de um convênio entre Governo Federal e Sindicato das empregadas. Sua fala investe na importância de ser sindicalizada para lutar por melhores condições de trabalho e dignidade. Por mais que suas práticas políticas destoe da maioria, vale ouvir sua voz em busca de mais conscientização desse ofício puxado que não deixa margem de tempo para se pensar sobre ele, fora o quanto ele exige do físico em sua rotina, o que faz com quem o corpo seja por demais sacrificado.
A narrativa de Aqui Não Entra Luz se revela um pouco caótica, mas vale observar que a impressão desordenada apresentada pelo filme emana de dúvidas que Karol Maia levanta no decorrer da construção da própria narrativa, já que ela também está posta como personagem e narradora do documentário. Essas oscilações que o filme traz são interessantes, pois Karol as assume no próprio processo de narração, o que leva à reflexões sobre o próprio andamento e vivências do processo de pensar, filmar e montar um filme. Essa honestidade é benéfica à obra e evidencia a busca de Karol por contar a história da mãe, não à toa ela diz buscar a mãe nos outros depoimentos.
Mas qual é essa busca e o que quer Karol extrair com essas falas? Em certo ponto Catarina indaga Karol do que a levou querer realizar um filme sobre as empregadas domésticas, já que esse não é um tema que evoca vidas felizes, já que são estigmatizados e enevoados pelo lastro da escravidão herdada do longíguo período colonial brasileiro. Me parece que a ideia de Karol é mexer em um terreno repleto de segredos e dores, de injustiças históricas que precisam ser expostas, encaradas, discutidas e superadas. Aqui Não Entra Luz foi construído como uma espécie de espelho, e o que ele reflete é um tema necessário para se repensar o país, de ver as marcas da escravização que ainda reside nos trabalhos domésticos brasileiros de hoje.
Quando Karol finalmente, depois de muita insistência chega na mãe, que seria a grande motivação para se filmar Aqui Não Entra Luz, o que temos é um renascer do documentário, que atinge o máximo do afeto que ele carrega. A ideia de Karol de sair de trás da câmera e ir para frente dela é o que faz a mãe ceder em falar sobre o seu ofício. Enquanto algumas entrevistas são muito chapadas, com a câmera colocada em frente das entrevistadas, com a mãe, ela se liberta para buscar detalhes e ângulos inusitados. É nesse momento que o filme mais se revela.
Há uma aproximação afetiva que é promovida aqui e mediada pelo cinema. Karol entrecorta essas cenas mais íntimas dela com a mãe com fotos antigas delas, além de vídeos de aniversários e da formatura universitária de Karol. O filme tem esses dois movimentos, um interno, dela com a mãe, e outro externo, delas com a sociedade opressora. A leitura de que traços do passado ainda persistem no presente vem com uma força efetiva. Em certo momento, Karol compara o tal do desconforto sentido pelas empregadas pelo fato de serem quase da família com o fazer cinema dela na faculdade e que realizar esse filme é uma forma de revide à sociedade. Por isso, cabe ainda se perguntar até quando viveremos como sociedade alimentando a ideia colonial e escravagista de manter relações supostamente íntimas entre patroas e empregadas, para apenas se perpetuar vínculos laboriais opressivos constituídos lá no passado e que só beneficiam um lado da moeda?

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