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A SOMBRA DO MEU PAI (2025) Dir. Akinola Davies Jr.


Texto por Marco Fialho

Qual a relação da política em nossas vidas? Raramente nos perguntamos isso, embora esse peso seja mais efetivo do imaginamos em nosso cotidiano. A Sombra do Meu Pai, produção inglesa dirigida pelo diretor nigeriano Akinola Davies Jr., aprofunda essa interação de uma maneira sensível, tendo duas crianças como importantes alicerces narrativos, o que confere ludicidade e maior carga emotiva ao filme. 

Essas crianças são dois irmãos nigerianos, Olaremi (Chibuike Marvellous Egbo), de 11 anos e Akinola (Godwin Egbo) de 8 anos, que vivem com seus pais numa região afastada do Centro e raramente veem o pai Folarin (Sopé Dirísù), um homem de pouco estudo, precisa ir buscar o sustento da família na agitada Capital Lagos. A política está a todo instante como um pano de fundo na trama, seja por manchetes de jornais impressos, nos noticiários da TV ou nas ruas de Lagos, com discussões sobre a eleição e com grupos militares carrancudos desfilando com seus carros do exército.

O diretor Akinola Davies Jr. é quem conta essa história semi autobiográfica e reparem que o menino mais novo representa ele na história. A atmosfera é francamente fantasmagórica, sobretudo evocada por uma rebuscada e instigante trilha sonora assinada por Pius Olamilekan Fatoke e CJ Mirra. Tudo leva a crer que essa é uma trama criada a partir de uma junção de fatos históricos com uma dose de fantasia, que se fundem em uma curiosa narrativa em que não sabemos quais os limites entre realidade e imaginação.

Omar Guzmán Castro é responsável pela bela montagem que consegue manter o filme no limbo pretendido, sem hierarquizar realidade e imaginação e como uma boa história africana, A Sombra do Meu Pai não separa o onírico do real, o que faz o filme crescer na esfera narrativa, tudo é tão crível quanto não o pode ser, com a parte histórica cimentando uma dose vigorosa de consistência à experiência cinematográfica. O filme é imaginativo e histórico na mesmo medida e isso faz bem a ele.

A Sombra do Meu Pai aborda um importante viés da história de vários países africanos mergulhados em guerras civis intermináveis, que arruinaram muitas famílias cujas paternidades foram ceifadas, deixando marcas profundas no desenvolvimento de crianças, que conheceram pouquíssimo seus pais, caso do cineasta Akinola Davies Jr. ao narrar essa história repleta de tristeza e de saudades do pai que mal pode conhecer e se relacionar.

Por isso, a memória é um dos pontos mais cruciais de A Sombra do Meu Pai. Por mais que ela seja enevoada pelo tempo, sua presença permite a manutenção de um passado fugidio, mas entremeado por muitos afetos e lembranças, que precisam existir para que a vida continue. Algumas cenas são permeadas por clarões, como se flashes da memória fossem o único elo vivo entre filho e pai.   

É muito bonito como Akinola Davies Jr. constrói o lúdico em A Sombra do Meu Pai e algumas cenas são bem expressivas quanto a isso. A onírica cena do parque de diversões onde a vertigem dos brinquedos, talvez a única em que Folarin está perto da mãe dos meninos, ela numa janela e eles a rodar numa nave giratória do parque. Ali, o perto e o distante estão lado a lado, numa única cena e ela é tão fugidia quanto a presença do pai na vida dessa desestruturada família. Estranho como o filme é sobre uma família que mal conseguimos ver em sua inteireza, embora nutra um desejo imenso da existência dela. 

A Sombra do Meu Pai é sobre esse encontro imaginário, guiado por reconciliações que precisamos fazer em vida, para podermos nos conectar com o mundo que estamos. Em certo momento, Folarin fala ao filho da importância de cuidar da família, fala de seu passado e dos sacrifícios que fez e dos medos que tinha na infância, do irmão que morreu afogado no mar. O filme passeia por essas memórias, em um esforço de reconstituir fatos, por mais que alguns sejam acrescidos pela imaginação.

Uma característica muito marcante de A Sombra do Meu Pai é o quanto sua experiência é imersiva, com um som envolvente e uma câmera que está sempre muito próxima dos personagens, o que cria uma intimidade nossa com a obra, faz com que nos tornemos cúmplices da vivência deles. Folarin era um militante político, mas também mais uma vítima da violência de um regime ditatorial que se recusa a sair do poder depois de perder legitimamente uma eleição. Akinola Davies Jr. mergulha na política por meio do drama familiar, de suas memórias e pela imaginação onírica, pois como diz o jovem Akinola: "meu querido pai, eu te verei em meus sonhos". Esse é um filme político filtrado pelas consequências que ela provoca na vida das pessoas, sem esquecer da poética que faz das memórias fraturadas objeto de beleza e saudade.                                      

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