Texto por Marco Fialho
Como é notável ver um diretor consagrado, como Ruy Guerra, com 93 anos dirigir um filme tão jovem em frescor e pulsação como é A Fúria, mesmo que a direção seja dividida com Luciana Mazzotti. Que vigor, emana de cada quadro filmado por essa obra absolutamente genial. Impressionante como tudo que ecoa na tela é tão demolidoramente brasileiro. Ali está a nossa história e também a de Ruy Guerra, lembrando que aqui ele fecha a trilogia iniciada em Os Fuzis (1964), um dos maiores filmes do cinema brasileiro e continuada em A Queda (1976), que dividiu a direção com Nelson Xavier. O roteiro maravilhoso é de Pedro Freire e Leandro Saraiva, tendo sido finalizado pela própria direção.
Os dois filmes (Os Fuzis e A Queda) invadem A Fúria, tal como um documentário, eles interagem com a narrativa de A Fúria e com os corpos de alguns personagens, como Mario (antes Nelson Xavier e agora Ricardo Blat). Mas o que seria de A Fúria sem a excepcional concepção fotográfica capitaneada por Luís Abramo Campos, com suas sombras, ângulos e movimentos inusitados, cores sinistras, e uma câmera inquieta a nos colocar dentro de cada cena. Esse é um filme ousado na narrativa, mas igualmente na camada imagética. A câmera funciona como um olhar labiríntico a distorcer corpos, rostos, objetos e cenários. Esse é o Brasil movido pela vertigem do poder, do quanto se é nojento para quem participa do poder. Ruy e Luciana parecem se inspirar na câmera alucinada de Dib Lutfi em Terra em Transe, do genial Glauber Rocha, que também versava sobre a nossa política pós ditadura militar. Aqui, a direção faz uma condensação de tempos, agrega toda a nossa história de misérias políticas em um só filme.
Um das facetas mais brilhantes de A Fúria são os personagens e cada qual funciona como um arquétipo. Tem general golpista, presidente vaidoso que gosta de motociata (Joelson Medeiros), tem deputado corrupto que foi comunista (um Daniel Filho irreconhecível e fabuloso), pastor evangélico fascista (Julio Adrião), empresário comprando políticos com negociatas infinitas (Lima Duarte, um fenômeno como sempre), enfim, todo o esgoto que conhecemos tão bem e que marca a trajetória política das elites brasileiras. Ainda tem a deputada negra de esquerda (Grace Passô, simplesmente soberba), o ex-militar que virou esquerdista e foi torturado pelos militares (Ricardo Blat), Laura, a garota rebelde (Simone Spoladore, estonteante), a artista trans Monalisa (Lux Nègre, irretocável e fascinante), o indígena Palavra (Urutau Guajajara) e o velho comunista (Antonio Pedro). Ruy Guerra e Luciana Mazzotti realizam uma direção de elenco simplesmente impecável, conferindo uma unidade extraordinária no tom de cada um.
É muito bom como a direção se utiliza da presença fantasmagórica de Mario, como aquele que morreu torturado e vem cobrar a dívida política dos corruptos traidores. Mas a fantasmagoria se faz presente ainda nas projeções que vão povoando o fundo do cenário e interagindo com as cenas e atores. O cenário se apresenta como um espaço cênico que brinca com a teatralidade, um artifício que denota a atmosfera de falsidade que predomina nessas relações, e flerta com o obscurantismo, já que os ambientes estão quase sempre submersos em sombras, numa arte que lembra a estética expressionista. Como pano de fundo de A Fúria tem o debate sobre uma CPI para demarcação das terras indígenas e o mais impressionante é que vem de uma flecha, lançada por Palavra (o indígena) que atinge a garganta do presidente, no momento em que ele profanava os esquerdistas.
Ruy Guerra e Luciana Mazzotti não negligenciam ao atualizar a representatividade da nossa sociedade e incluem personagens negras, indígenas e trans em papéis expressivos na narrativa, o que confere um novo vigor à trilogia. Monalisa é uma mulher trans, que desliza pelo submundo cantando e protegendo mulheres e outros seres oprimidos. Grace Passô faz Petra, uma duvidosa política enamorada por Monalisa e que encara os sórdidos políticos na câmara dos deputados. A interpretação de Passô se mostra segura e convincente ao ocupar uma centralidade na transformação da história, e é assim que a direção a posiciona na trama, como um elemento que vem modificar as estruturas arcaicas, ao mesmo tempo que negocia com elas em paralelo. Tanto Petra quanto Monalisa atraem uma trilha sonora radical e roqueira, que traduz a força de suas personagens e o poder de mudança que elas trazem em si.
Mesmo não sendo uma sequência das mais importantes de A Fúria, o encontro entre Mario e Pedro (Paulo Cesar Pereio) é um de seus melhores momentos. A montagem alterna a famosa cena em que Pedro em Os Fuzis apresenta seu fuzil para a tropa com eles no presente repetindo as mesmas fala, o que marca uma bela homenagem a Pereio e Nelson Xavier. Mas é divino como tudo em A Fúria leva ao delírio e a uma eloquência política certeira e direta. Esse é um filme para se ver, rever e admirar sua coragem, e que sinaliza a importância de se limpar o mar de lama que insiste em imperar no Brasil.

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