Texto por Marco Fialho
Preciso começar esse texto com um relato pessoal. Quando o Zico começou a jogar no profissional do Flamengo, em 1974, eu tinha 9 anos, idade que comecei a jogar bola na escola e na rua. Eu morava ao lado do Maracanã e assistia a quase todos os jogos do Flamengo. Por isso, quem me conhece sabe das minhas duas maiores paixões, o futebol e o cinema. Ainda hoje, com 60 anos de idade, jogo futebol todo o domingo e faço isso como uma homenagem a Zico, para mim o maior jogador depois de Pelé.
Escrevo essas palavras preliminares para situar a todos sobre o meu comprometimento emocional perante o tema. Acredito que a minha experiência de 40 anos no cinema permita que eu consiga refletir acerca do documentário Zico, O Samurai de Quintino, dirigido por João Wainer.
Lá pelo meio da projeção do filme comecei a me indagar de qual era o mote principal da proposta de João Wainer e confesso que fiquei confuso, pois não consegui identificar a intenção da direção. Evidente que um documentário sobre Zico, tudo se torna relevante e importante para melhor conhecê-lo, o que faz a tarefa ser mais complexa do que parece. Há um problema grave de concepção, de precisão em torno de um tema tão apaixonante, em especial para quem é flamenguista.
Zico, O Samurai de Quintino se perde em uma montagem dispersa, justamente pela direção não esboçar uma ideia clara sobre o seu personagem. É a carreira, o homem, a família, os amigos, o clube, afinal, qual é o direcionamento que se pretende dar ou priorizar? Ao final, ficamos imersos em um quebra-cabeça difícil de montar, com a impressão que as peças ficaram embaralhadas e sem um sentido maior.
A princípio se dá a entender que o mote principal será a sua rígida disciplina, o da imagem metafórica de que o homem Zico forjou o profissional, daquele ser humano que não perde um voo nem um ônibus, do rigor extremo que leva à perfeição, mas eis que Zico, O Samurai de Quintino se encanta com o seu sedutor personagem e dali a pouco está a divagar sobre o amor à família. Parece que os incontáveis gols de falta vieram do céu e não de uma rotina de sacrifícios, onde todos os jogadores ao final do treino íam embora para casa enquanto Zico ficava a repetir exaustivamente as cobranças de falta, até aperfeiçoa-las. Como seria educativo para as gerações posteriores e atuais saber o quanto aqueles gols eram fruto de muito esforço e determinação.
De certo, há muita informação over em Zico, O Samurai de Quintino, e muitas delas sobram, como uma sessão longa que perpassa todo o filme, de José Carlos Araújo, Mauro Beting e Daniela Boaventura na sala de troféus de Zico literalmente postos ali para puxar o saco do Galinho, que nada acrescenta ao documentário, que caberia quem sabe em um programa de televisão, mas não em um documentário.
Vale registrar que o filme passa muito rápido pela experiência de Zico na Udinese da Itália e torna confusa a passagem dele pelo Japão, que são menos conhecidas aqui no Brasil devido ao distanciamento geográfico que dificulta o acesso a essas informações. Praticamente todas as falas de Zico em 2025 foram filmadas na sala de troféus, sempre com outros personagens e às vezes sem a sua presença, o que emperrou depoimentos mais interessantes, ainda mais que é sabido o potencial dele como personagem.
Alguns fatos são inseridos em Zico, O Samurai de Quintino de maneira a despertar mais o tom sensacionalista do que visar construir um sentido mais restrito, como o que enfoca sua relação com Roberto Dinamite ou o soco do atacante Anselmo no zagueiro Soto, no fim do jogo contra o Cobreloa, no final da Libertadores de 1981, ou ainda as bodas de ouro do casal. O filme assume uma faceta muito episódica, com alguns acontecimentos soltos, como sua participação no Governo Collor como ministro do esporte, que é apenas citada meteoricamente, sem sabermos o porque da sua aceitação, o que fez e porque saiu.
De maneira geral, Zico, O Samurai de Quintino não desenvolve as principais características dele como jogador, além de mostrar poucas cenas dos inúmeros gols feitos ao longo da extensa carreira. Algumas músicas famosas, como a da vitória do Flamengo no mundial de clubes, a célebre "em novembro de 81 botou os ingleses na roda, 3 a 0 no Liverpool, ficou gravado na história...", adaptada da famosa canção de Kiko Zambianchi. Pela grandeza de Zico no esporte brasileiro, o documentário de João Wainer fica devendo, mesmo que algumas cenas por si causem emoção no espectador, como os títulos relevantes conquistados e as posturas éticas e profissionais que só os ídolos são capazes. O nosso maior jogador depois de Pelé merecia bem mais.

Falando como torcedor do Flamengo, de uma geração próxima da tua ( 1962), concordo que o filme promete muito e entrega pouco, Marco!
ResponderExcluirFalta mesmo um fio condutor que desse unidade e não deixasse uma história tão rica, cair na mesmice da validação do ídolo via coleção de elogios dos fãs-celebridades, reunidos em uma sala de troféus...
Talvez, para um ídolo, que se sentia como um representante dos torcedores em campo, tenha faltado uma narrativa mais próxima dessa relação de amor recíproco, nos triunfos e na cura das feridas, como na morte de Geraldo...
Faltou a Geral, faltou a Arquibancada, faltou emoção genuína, meu amigo!
O Galinho merece mais e nós também! Ainda bem que guardarmos ótimos filmes não filmados, em nossas memórias rubro negras...