Pular para o conteúdo principal

VIVO 76 (2026) Dir. Lírio Ferreira


Texto por Marco Fialho

Lírio Ferreira se vale da figura felliniana de Alceu Valença para reconstruir o imenso mosaico que compõe as raízes musicais desse pernambucano nascido na pequena cidade agreste de São Bento de Una. O circo é nitidamente um elemento a acrescentar criatividade à concepção artística de Alceu e está presente em sua obra como algo estrutural em seu trabalho, inclusive em Vivo 76. Mas em Vivo 76, o que vemos são dois Alceus: um primeiro, que aos 80 anos já possui uma reconhecida carreira enquanto revisita o passado quando ainda sequer supunha onde chegaria como cantor e compositor; o outro Alceu, é um jovem rebelde repleto de uma energia no palco que deixaria atônito até o irrequieto Mick Jagger.

Logo no início do filme Lírio Ferreira nos convida a um enigmático passeio bucólico, ao adentrar em uma estreita estrada de chão margeada por uma densa vegetação que leva à casa onde Alceu Valença nasceu. Depois vemos Alceu entrando numa casa grande e antiga com um olhar perscrutador e dominado pelas reminiscências da infância. Daí entra em cena o circo, local privilegiado por onde Alceu vivenciou experiências e aprendizados que levaria para a sua carreira de cantor.    

O roteiro de Lírio, Claudio Assis e Dillner Gomes se apropria desse momento e traça como determinante o fato de Alceu ter nascido no interior do nordeste. O melhor de Alceu 76 realmente é o próprio Alceu, com sua verve inconfundível, que torna até prescindível os outros depoimentos que aparecem ao longo do filme. Sempre é mais oportuno quando a direção narra sua história a partir do artista retratado, pois a sua força torna tudo a sua volta menor. 

Vivo 76 é o show que Alceu gravou com uma banda formada por músicos pernambucanos e paraibanos (do qual Zé Ramalho fazia parte), e que selou musicalmente o caminho que o artista seguiria em sua bem-sucedida carreira. Um ano depois ele gravaria o LP Espelho Cristalino (1977) e Coração Bobo (1980), que o levaria ao auge da fama e do reconhecimento popular. Lírio explora e delimita em Vivo 76 a importância das referências populares que Alceu Valença buscou em sua formação. Lírio Ferreira não quer o Alceu bombado nas rádios e televisões dos anos 1980 em diante, estabelece o show Vivo 76 como um divisor de águas e o fim de uma Era de experimentações.

De olho no passado de Alceu, Lírio vai catando as referências, como a do mestre Luiz Gonzaga (que aparece no trecho do filme Sem Essa, Aranha - 1970, de Rogério Sganzerla, resgatado com muita sapiência por Lírio), e a de Jackson do Pandeiro, que participa na apresentação de Alceu no Festival Internacional da Canção de 1972, quando defendeu a música Papagaio do Futuro

Alceu introduziu guitarra (Paulo Raphael) e flauta transversa (Zé da Flauta) em seus shows e gravações, mas segundo ele todas essas interferências inovadoras apenas serviram para reafirmar a brasilidade de sua música. Em uma de suas falas, ele diz que "minha música tem o DNA do sertão profundo". Alceu, em determinado momento cita Luiz Gonzaga, depois que esse assistiu a um show seu: "Você é danado, criou uma banda de pífanos elétrica".  

Além de Sganzerla, outro cineasta que aparece com relevância em Vivo 76 é Sérgio Ricardo, que ao conhecer Alceu Valença na casa de Geraldo Azevedo logo diz que ele era o espantalho que estava procurando para o seu novo filme, o musical vanguardista A Noite do Espantalho (1974). Muitos dos trejeitos que Alceu criou para o filme foi incorporado a sua maneira de cantar no palco.           

A montagem de Mair Tavares e Luisa Dowsley mergulha na proposta lisérgica da direção de Lírio Ferreira ao brincar com as texturas das películas e dos diversos materiais de arquivo. A ideia de passado fica engendrada na própria imagem que remete sempre a uma viagem por energias vindas de outra época, seja pelas imagens de processos revolucionários mundiais, na África e Estados Unidos, seja pelas duras imagens da ditadura militar brasileira. 

Vivo 76 joga com esse aspecto político da ditadura militar, sobretudo pelas formas encontradas por Alceu para ludibriar a sanha dos censores, ávidos para ver insurgências nos mínimos detalhes das letras das músicas. Lírio se utiliza em várias cenas de uma vitrola portátil para registrar essa atmosfera em que o vinil possuía uma força vital para a proliferação da música. Mas essa imagem também reforça a ideia lisérgica de um objeto a girar como que salientando uma sensação de vertigem.  

O que fica de Vivo 76 é a força pulsante de um artista cujo corpo ostenta 80 anos, mas cuja alma se mostra jovem e ativa, incapaz de abrir mão de sua rebeldia. Revisitar o Vivo 76 depois de 50 anos é a comprovação de que nem toda criação artística envelhece. O bom de Vivo 76 é o fato dele não se contentar em ser uma mera homenagem nostálgica. Talvez isso aconteça porque a direção caminhou alinhada com uma máxima que Alceu Valença lança quase no fim do documentário e que fica como um belo  depoimento de encerramento: "sem um pingo de loucura o artista se torna um escravo do mundo do entretenimento". Essa frase tem um impacto, e soa paradigmática para os dias que estamos vivendo.     

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...