Texto por Marco Fialho
Lírio Ferreira se vale da figura felliniana de Alceu Valença para reconstruir o imenso mosaico que compõe as raízes musicais desse pernambucano nascido na pequena cidade agreste de São Bento de Una. O circo é nitidamente um elemento a acrescentar criatividade à concepção artística de Alceu e está presente em sua obra como algo estrutural em seu trabalho, inclusive em Vivo 76. Mas em Vivo 76, o que vemos são dois Alceus: um primeiro, que aos 80 anos já possui uma reconhecida carreira enquanto revisita o passado quando ainda sequer supunha onde chegaria como cantor e compositor; o outro Alceu, é um jovem rebelde repleto de uma energia no palco que deixaria atônito até o irrequieto Mick Jagger.
Logo no início do filme Lírio Ferreira nos convida a um enigmático passeio bucólico, ao adentrar em uma estreita estrada de chão margeada por uma densa vegetação que leva à casa onde Alceu Valença nasceu. Depois vemos Alceu entrando numa casa grande e antiga com um olhar perscrutador e dominado pelas reminiscências da infância. Daí entra em cena o circo, local privilegiado por onde Alceu vivenciou experiências e aprendizados que levaria para a sua carreira de cantor.
O roteiro de Lírio, Claudio Assis e Dillner Gomes se apropria desse momento e traça como determinante o fato de Alceu ter nascido no interior do nordeste. O melhor de Alceu 76 realmente é o próprio Alceu, com sua verve inconfundível, que torna até prescindível os outros depoimentos que aparecem ao longo do filme. Sempre é mais oportuno quando a direção narra sua história a partir do artista retratado, pois a sua força torna tudo a sua volta menor.
Vivo 76 é o show que Alceu gravou com uma banda formada por músicos pernambucanos e paraibanos (do qual Zé Ramalho fazia parte), e que selou musicalmente o caminho que o artista seguiria em sua bem-sucedida carreira. Um ano depois ele gravaria o LP Espelho Cristalino (1977) e Coração Bobo (1980), que o levaria ao auge da fama e do reconhecimento popular. Lírio explora e delimita em Vivo 76 a importância das referências populares que Alceu Valença buscou em sua formação. Lírio Ferreira não quer o Alceu bombado nas rádios e televisões dos anos 1980 em diante, estabelece o show Vivo 76 como um divisor de águas e o fim de uma Era de experimentações.
De olho no passado de Alceu, Lírio vai catando as referências, como a do mestre Luiz Gonzaga (que aparece no trecho do filme Sem Essa, Aranha - 1970, de Rogério Sganzerla, resgatado com muita sapiência por Lírio), e a de Jackson do Pandeiro, que participa na apresentação de Alceu no Festival Internacional da Canção de 1972, quando defendeu a música Papagaio do Futuro.
Alceu introduziu guitarra (Paulo Raphael) e flauta transversa (Zé da Flauta) em seus shows e gravações, mas segundo ele todas essas interferências inovadoras apenas serviram para reafirmar a brasilidade de sua música. Em uma de suas falas, ele diz que "minha música tem o DNA do sertão profundo". Alceu, em determinado momento cita Luiz Gonzaga, depois que esse assistiu a um show seu: "Você é danado, criou uma banda de pífanos elétrica".
Além de Sganzerla, outro cineasta que aparece com relevância em Vivo 76 é Sérgio Ricardo, que ao conhecer Alceu Valença na casa de Geraldo Azevedo logo diz que ele era o espantalho que estava procurando para o seu novo filme, o musical vanguardista A Noite do Espantalho (1974). Muitos dos trejeitos que Alceu criou para o filme foi incorporado a sua maneira de cantar no palco.
A montagem de Mair Tavares e Luisa Dowsley mergulha na proposta lisérgica da direção de Lírio Ferreira ao brincar com as texturas das películas e dos diversos materiais de arquivo. A ideia de passado fica engendrada na própria imagem que remete sempre a uma viagem por energias vindas de outra época, seja pelas imagens de processos revolucionários mundiais, na África e Estados Unidos, seja pelas duras imagens da ditadura militar brasileira.
Vivo 76 joga com esse aspecto político da ditadura militar, sobretudo pelas formas encontradas por Alceu para ludibriar a sanha dos censores, ávidos para ver insurgências nos mínimos detalhes das letras das músicas. Lírio se utiliza em várias cenas de uma vitrola portátil para registrar essa atmosfera em que o vinil possuía uma força vital para a proliferação da música. Mas essa imagem também reforça a ideia lisérgica de um objeto a girar como que salientando uma sensação de vertigem.
O que fica de Vivo 76 é a força pulsante de um artista cujo corpo ostenta 80 anos, mas cuja alma se mostra jovem e ativa, incapaz de abrir mão de sua rebeldia. Revisitar o Vivo 76 depois de 50 anos é a comprovação de que nem toda criação artística envelhece. O bom de Vivo 76 é o fato dele não se contentar em ser uma mera homenagem nostálgica. Talvez isso aconteça porque a direção caminhou alinhada com uma máxima que Alceu Valença lança quase no fim do documentário e que fica como um belo depoimento de encerramento: "sem um pingo de loucura o artista se torna um escravo do mundo do entretenimento". Essa frase tem um impacto, e soa paradigmática para os dias que estamos vivendo.

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