Texto por Marco Fialho
Ruas da Glória assinala o segundo trabalho de Felipe Sholl como diretor de cinema. Entretanto, em paralelo a esse trabalho como diretor incipiente, Felipe se destaca também como colaborador em roteiros de filmes como Hoje (2011), com Jean-Claude Bernardet e Rubens Rewald; Campo Grande (2015), com Sandra Kogut; M8 - Quando a Morte Socorre a Vida (2018), com Jeferson De; Casa de Antiguidades (2020) com João Paulo Miranda Maria; o premiadíssimo Manas (2024) com Marcelo Grabowsky; e (Des)controle (2025), com Iafa Britz. Toda essa cancha o fez amadurecer até chegar ao roteiro de Ruas da Glória.
Entretanto, um roteiro azeitado não é garantia em si de total êxito, mesmo que ajude consideravelmente o trabalho da direção. E Felipe Sholl demonstra competência na estruturação de sua mise-en-scène, com interpretações consistentes e maduras do elenco, uma câmera inquieta (muitas vezes na mão) que permite ao espectador mergulhar na intimidade e angústias do protagonista Gabriel (Caio Macedo), embora extrapole na emoção em algumas cenas.
Ruas de Glória investe no amadurecimento do personagem Gabriel, um pernambucano vindo de uma família privilegiada e que após a morte da avó, seu maior vínculo afetivo, parte para o bairro da Glória, no Rio de Janeiro, para dar aula de literatura em um colégio e conhecer de perto a vida noturna em um bar LGBT comandado pela transexual Mônica (Diva Menner), onde tem acesso a corpos sedentos por prazer. Especialmente, começa uma relação fervorosa com o garoto de programa uruguaio Adriano (Alejandro Claveaux), no qual fica com uma fixação. Mas Adriano não é exatamente aquele rapaz a procura de uma relação madura ou duradoura, já que sua maior preocupação é sobreviver em um ambiente hostil.
Felipe Sholl trabalha muito bem com as carências emocionais de Gabriel em meio a um círculo social instável, onde viver é viver no limite e à base das energias da cocaína e do álcool. Ele se mostra uma presa fácil para um relacionamento abusivo e é o que acaba acontecendo. O grande acerto da direção é explorar a vivência de Gabriel ao máximo, inclusive a faceta sensorial, com cenas de sexo muito bem ensaiadas e performadas, tanto a de casais quanto as grupais. Sholl ainda investe como um todo nas relações de Gabriel com o universo gay do bairro da Glória, conhecido por ser um reduto de trans e garotos de programa no Rio de Janeiro, conforme podemos ver nas cenas reais da abertura de Ruas da Glória.
Mesmo que Sholl aposte em uma representação às vezes de superexposição do personagem de Gabriel, a interpretação de Caio Macedo se afirma pela visceralidade, embora Alejandro Claveaux se mostre um canastrão em algumas cenas. Há, portanto, uma centralidade na figura de Gabriel em relação a todos os outros personagens e uma necessidade de se alongar uma história que na verdade é a mesma em boa parte do tempo, que se resume a busca de Gabriel por Adriano. Quando eles se encontram novamente, na parte final do filme, as cenas atingem um excesso dramático, com Gabriel e Adriano dominados pelo vício da cocaína, com um histrionismo típico das relações que exploram os limites dos sentimentos.
Ruas da Glória se revela um drama denso e exagerado, mas que se salva por conseguir resguardar um mínimo de afeto entre alguns personagens, como o de Gabriel por Mônica e suas amigas (uma nova família?), e entre ele e a avó, que aparece apenas como cinza e em alguns áudios que ele ainda manda para ela. A violência de Ruas da Glória apesar de ser intensa, se justifica pelo território escolhido para ser retratado, o do bairro carioca da Glória, conhecido pela prostituição que está presente à noite, especialmente nas ruas com maior fluência de pedestres.
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Meu amigo que crítica excelente! Vou assistir. Valeu a dica!
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