Texto por Marco Fialho
A princípio, a profusão de personagens de Retiro - A Casa dos Artistas, dirigido por Pedro Bronz e Roberto Berliner, parece excessiva, por não permitir um aprofundamento acerca deles. Mas logo somos demovidos dessa ideia quando nos damos conta que essa pluralidade almeja a construção de algo maior, a teia de relações que forjam a alma do Retiro dos Artistas. O central então é a ideia de coletivo que esse espaço quase etéreo proporciona por abrigar artistas das mais variadas manifestações, que convivem em um lugar onde pares artísticos podem se encontrar e conviver.
Pode-se dizer que o acolhimento é a argamassa que sustenta esse documentário, filmado com muito cuidado pelos diretores, atentos ao registro das individualidades dentro de um condomínio de casas que respeita seus moradores dentro de uma estrutura material que permite uma velhice com dignidade entremeada de arte e amizade.
São todos personagens especiais, tocados pela arte que cultivaram durante toda a sua vida. Cada qual com suas idiossincrasias e vaidades, levando uma vida quase sempre de tranquilidade e amparo. O dispositivo adotado em Retiro - A Casa dos Artistas é o da conversa livre e amigável, com o intuito de acompanhar como é o cotidiano de quem vai morar nas casinhas bem aprumadas, onde cada um leva a vida como quer, apesar de se restringir que duas pessoas morem juntas na mesma casa, embora o músico Mauro Continentino e a produtora cultural Rita Maia tenham de alguma forma subvertido isso ao iniciarem um namoro.
Aos poucos, os personagens surgem em um efeito cascata, sempre tendo o afeto como aporte, forma que o filme encontrou de se relacionar com os entrevistados, o que torna o documentário leve. Muitos depoimentos são ricos, pois todos são artistas com algo a dizer e muitos ainda aptos a produzir. Um dos mais ativos é o genial músico Robertinho Silva, percusionista e baterista de artistas fundamentais para a nossa cultura, como Milton Nascimento e Lô Borges, tendo tocado no icônico disco O Clube da Esquina (1972). Outro músico que reside no Retiro dos Artistas é o guitarrista Mirabeaux, que no passado acompanhou dentre tantos, a cantora Lana Bittencourt, por quem se enamorou.
Como bons artistas que são, eles se aproveitam de seus carismas para oferecerem ótimos depoimentos. Não tem como não se encantar com a desenvoltura da modelo Claire Digon ou o talento de ator de Jaime Leibovich. Como será viver em um retiro com as características culturais apresentadas nesse condomínio de casas? São perguntas que o filme faz para si mesmo e assim vamos sendo também conduzidos por elas. Nota-se que há uma preocupação, inclusive para além do normal, de retirar o peso negativo que ainda recai sobre a ideia de se ir para um retiro, o que, por incrível que pareça, acaba por se acentuando a ideia que a princípio se quer negar.
Como comum nesse tipo de documentário, alguns personagens acabam assumindo mais tempo na tela do que outros (e consequentemente mais protagonismo), o que causa um notório desequilíbrio. O músico Ary Piassarollo por exemplo, passa batido ao aparecer apenas para tocar o clássico Carinhoso no violão, enquanto o escritor Marco Antônio Coutinho dá um breve e impactante depoimento sobre o papel do artista e da arte na sociedade. Outros personagens tem mais presença em cena, como o casal Mauro Continetino e Rita Maia que possuem bem mais tempo de tela. É o preço que o filme paga por trabalhar com muitos personagens.
Mesmo que Retiro - A Casa dos Artistas contenha suas irregularidades, alguns depoimentos valorizam a obra como um todo, alguns repletos de poesia e outros de filosofia. Ideias inusitadas sobre a morte são pronunciadas, como uma fala que diz que "a morte é como o trabalho do ator, quando a peça acaba, o que morre é o personagem não o ator". Ou outra que diz que "a morte é como aquela cidade que você visita com um determinado objetivo, e quando este acaba, você quer voltar para casa".
O documentário mostra que enquanto estamos vivos, estamos ávidos e capazes de se expressar sobre a vida e resistir à morte. O retiro conta com um teatro, um cinema e uma biblioteca, ótimos espaços para manter o interesse de todos no poder magnético da arte e sua capacidade de ajudar a driblar a morte. Cada qual ali, resiste à morte do seu jeito, Robertinho Silva por exemplo, foge da bengala e diz que ela queima o filme ao entregar a idade e a velhice de quem a usa. Para Marco Antônio Coutinho, "não existe sociedade sem o artista. E uma das funções dela é dar o dedo do meio para a sociedade". Esse espírito inconformado, se não está em todos pelo menos está presente no comportamento da maioria dos depoimentos, o que mostra que o artista ainda é o último refúgio da insubordinação e indignação humana.

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