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PROUST PALIMPSESTO: PASTICHES E MISTURAS (2026) Dir. Carlos Adriano


Texto por Marco Fialho

Creio que a melhor maneira de iniciar uma análise sobre Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas seja pelo título, pois muitos na certa nunca ouviram ou leram algo acerca da palavra palimpsesto. Ela pode ter vários significados, dependendo do contexto em que é utilizada, portanto, o relevante é entender como ela foi inserida no filme. Dois sentidos dela cabem aqui, um primeiro que a explica pela sobreposição, já que a própria concepção do filme de Carlos Adriano é a sobreposição de imagens com textos em tela e sons. Mas há ainda um sentido figurado da palavra palimpsesto que o diretor também se apropria, em que uma obra incorpora ou guarda traços de outra. De qualquer maneira estamos a refletir aqui sobre sobreposição, que é o elemento mais utilizado neste documentário ensaístico. O subtítulo Pastiches e Misturas, foi extraído de uma das obras de Marcel Proust publicado aqui no Brasil com o título Pastichos e Miscelânea.  

Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas é sobretudo um documentário experimental e conceitual, que parte de uma ideia proustiana e que sustenta, ou questiona, a tese da impossibilidade de adaptação cinematográfica da obra de Marcel Proust, a consagrada Em Busca do Tempo Perdido (lançada de 1913 a1927 e escrita entre 1906 e 1922, e contava com 7 volumes). É também um filme de tese ou de ensaio, com citações incontáveis e que exercita e incita teorias, bem ao feitio de outras obras de Carlos Adriano, afeito à colagem cinematográfica para construir concepções filosóficas no cinema. 

Durante as quase duas horas de projeção, Carlos Adriano cola imagens consagradas de dezenas e dezenas de diretores que forjaram a ideia do cinema como linguagem. Proust (1871-1922) não chegou a presenciar em vida o cinema como arte, apenas o conheceu em sua fase embrionária, de ser um mero registro da imagem em movimento ou algo que caminhava para ser uma atração com historinhas que beiravam o burlesco e a comédia popular. Mas Proust aparece em um único registro em movimento, como uma metáfora de si mesmo e de seu tempo perdido.  

Por isso, Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas trabalha como uma apropriação das revoluções narrativas que Proust realizou na literatura para examinar o cinema que Proust não conheceu. Assim surgem Hitchcock com seu Vertigo (1958), Orson Welles e diversos outros fragmentos de filmes, que Carlos Adriano mistura com as imagens do chamado primeiro cinema, ou cinema silencioso, dos cavalos de Muybridge, de Chaplin dançando com suas botas em Em Busca do Ouro (1925). Enfim, Carlos Adriano quer realizar no cinema, ou incorporar ao cinema, elementos que Proust não pode ver pois morreu prematuramente com 51 anos.  

Mas o filme vai se utilizando de textos impressos na tela como uma forma de se fazer um discurso gráfico, são intervenções, como tantas outras que aparecem na obra, como os efeitos de frames repetidos inúmeras vezes como um efeito visual. Em um determinado momento, cineastas falam sobre o cinema como arte em contraste com a proposta dele ser meramente um produto rentável. O tema da adaptação de obras literárias e teatrais entram em cena, com a máxima de Welles de que nada suplantaria ou seria maior do que a própria obra de Shakespeare, reflexão que cabe para qualquer outra obra clássica e basilar adaptada para o cinema. 

A proposta de Carlos Adriano, sem dúvida, contém ousadias, sobretudo no aspecto formal. Os próprios livros da coleção Em Busca do Tempo Perdido vão servindo como um guia, mesmo que de maneira despojada e aparentemente sem maiores pretensões, com os volumes sendo citados graficamente, em textos. Contudo, mesmo que Carlos Adriano despeje muitas citações, e todas sempre muito instigantes, essa proposta causa uma dose de poluição na tela, o que a torna enfadonha em um certo momento, como se ela virasse uma fórmula dentro do filme e assim fosse se lentamente escalonando uma perda de interesse pela forma fílmica apresentada. Inicialmente, há uma surpresa encantadora, mas a narrativa vai se repetindo e os textos vão soando como um exercício acadêmico exaustivo, como se quisesse se afirmar por uma erudição que se impõe por sucessivas citações de grandes nomes da literatura. São incontáveis citações de textos, mas também de filmes, uma pesquisa realmente exaustiva, embora todas intelectualmente bem conhecidas ou pelo menos de autores consagrados na literatura e no cinema. Não há parcimônia, apenas uma colagem minuciosa de um exibicionismo acadêmico que beira o insuportável.     

Tolstói, Machado de Assis, Jean Genet, Adorno, Guimarães Rosa, Walter Benjamin, Freud, Fernando Pessoa, Borges, Fanon, Pignatari, Deleuze (a maioria esmagadora de intelectuais brancos masculinos, diga-se de passagem, talvez Fanon seja a exceção que justifique a regra), dentre tantos outros, que fica até difícil de citar todos, desfilam frases pela tela, que se acumulam na tentativa de construção de um discurso anárquico e pomposo sobre o papel da arte no mundo contemporâneo. Entretanto, eis que quase no final da obra o diretor insere um depoimento em áudio do cineasta Carlos Nader que é um discurso sobre Proust e o cinema, sobre objetividade/subjetividade no cinema e então termina por abrir um rombo na proposta do filme por clarificá-la demais. Até então, o discurso se ambicionava ser multifacetado e multiforme, além de vir de vários lugares: às vezes de uma citação, depois de uma imagem de um filme, o que sugere uma confrontação provocativa, mas nada surgia de uma maneira direta, tudo estava nas entrelinhas ou nas sobreposições e o ensaio portanto possuía um viés fragmentado. Agora não, na fala de Nader o discurso se evidencia, a intenção do diretor se explicita frontalmente, o que cria uma rusga na proposta turva e imprecisa que vigorava desde o início. 

Mas Proust Palimpsesto: Pastiches e Misturas ainda assim vale como experiência visual e sonora, como um ensaio ousado e tributário ao autor de Em Busca do Tempo Perdido, como um palimpsesto capaz de pensar a literatura contestatória das formas contemporânea, repleta de ruídos e demolições e trazê-la para a perspectiva do cinema, essa arte que ronda o mundo a pouco mais de 100 anos. De certo, algumas citações são inspiradas e trazem interessantes reflexões sobre a arte e a humanidade, embora o excesso delas revelem um quê de presunção egocêntrica, de superioridade e uma ideia da existência de uma cultura hierarquizada a partir de uma perspectiva europeia, e com um ar academicista (mesmo que haja aqui e acolá um alívio popular, como nas imagens de Carmen Miranda ou na citação de um Guimarães Rosa) de que o mundo se divide entre aqueles que possuem conhecimento os que carecem dele. 

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