Texto por Marco Fialho
Papagaios é um filme talhado para o talento do ator Gero Camilo. Cada aparição sua é uma dádiva, é impossível não admirar cada segundo em que ele está em cena como Tunico. Mas Papagaios felizmente não é só isso, a direção de Douglas Soares também merece destaque por apresentar uma mise-en-scène bem construída, econômica, elegante e instigante, que não mostra tudo, que se esquiva no momento certo, dando espaço para a dubiedade da trama.
Papagaios centra sua narrativa em um universo típico da contemporaneidade, o das subcelebridades, essas pessoas que mesmo não tendo um talento em especial, buscam a fama a qualquer preço, graças ao papel que desempenham os meios de comunicação. Tunico poderia ser um personagem dos atuais reality shows, mas não, ele é o que chamamos de papagaio de pirata, aquelas pessoas que se põe atrás de uma reportagem para aparecer, mesmo que seja em segundo plano.
Tunico não é o único a exercer esse papel, volta e meia um pequeno grupo deles se reúnem para discutir o estranho "ofício" de querer aparecer a todo custo como papagaio de pirata. Há códigos que chegam a ser bem rigorosos, como o de marcar características que identificam aquele "personagem", pode ser uma roupa específica como o caso do terno alinhado de Tunico ou um chapéu como acontece com outro papagaio de pirata.
Entretanto, não é só a temática diferente que marca Papagaios, mas também o jogo cênico que o diretor Douglas Soares propõe para o universo fílmico ao estabelecer um presentismo severo à trama. Assim, nada sabemos do passado dos personagens, apenas somos apresentados ao que é mostrado de cada um, o que embute uma graça e um mistério na história, já que não conhecemos os reais interesses de nenhum dos personagens. Douglas alterna bem os planos com a câmera fixa com outros em que a sua movimentação jamais tenta tirar a atenção do principal. A câmera sabe que o mais importante é Gero Camilo, nada funcionaria sem a sua presença luminosa, ele é a luz que mantém o filme aceso e a câmera parece perceber isso e não perde nenhuma de suas magníficas interpretações.
Embora o filme trabalhe com diversos personagens que atuam como papagaios de pirata (destaque para Roney Villela que mais uma vez compõe um personagem que beira o sobrenatural), Papagaios gira mais em torno de Tunico e de Beto (Ruan Aguiar), este último um misterioso jovem que se torna um aprendiz e acaba adentrando na vida do primeiro, um sistemático e exemplar papagaio de pirata. Se estabelece então uma estranha relação entre eles de pai e filho, mas que fica misteriosa em todo o desenvolvimento da história. Tudo que acontece com Beto cheira a dúvida, pois sua figura está sempre a rondar e vasculhar pertences e situações, sua atitude é no mínimo de suspeição. Beto é o personagem mais enigmático do filme, ele quase não fala, mas age... e muito. Tudo que sabemos dele só aumenta a nossa desconfiança. No decorrer da trama, Beto se mostra um sabotador, um incendiário e um assassino, características nada benfazejas que o definem como indivíduo e mostra como a história está inserida em um sinistro mundo da Zona Oeste carioca.
O personagem de Beto fica mais misterioso ainda quando entra em cena mais dois personagens, Clau (Ernesto Picollo), um motorista de uma autoridade, e o cantor Léo Jaime, que interpreta ele mesmo nesse enredo bem cabuloso. A presença de um famoso real torna Papagaios um filme mais complexo, já que a ficção (sim, aqui a trama é estritamente ficcional) é invadida por um elemento vindo de um universo existente em nosso mundo. O filme passa a habitar nesse fio tênue entre um mundo quase fantástico ditado por armas e crimes e um outro que lembra o nosso cotidiano mais banal e desinteressante. Contudo, há ainda um terceiro mundo, aquele que aparece na televisão todos os dias e ganha uma proporção incontrolável, embora seja sempre volátil, pois notícia constitui um artigo de efemeridade, já que logo outro precisa ser fabricado para manter o interesse do público.
Papagaios se equilibra em um delicado mundo onde muitos querem ser celebridades em meio a uma cidade onde habitam milhões de pessoas. É puro suco de uma cidade como o Rio de Janeiro, que comporta cada tipo que o filme apresenta. Observa-se como a trama transcorre em Curicica, bairro inexpressivo da cidade, cujo maior atrativo é sediar o maior estúdio de TV do país. Em certo momento, Tunico diz numa entrevista na TV em um programa que abordava personagens que buscam a fama a qualquer preço, que mora ao lado do estúdio.
Papagaios sobretudo dialoga com esse universo socialmente mesquinho que é o das subcelebridades, mas que convenhamos, faz um baita barulho. A canção Rock Estrela, cantada por Léo Jaime brinca exemplarmente com esse estranho universo, quando ele diz que "quem sou e quem é você, nessa história eu não sei dizer. Mas eu acredito que ninguém tenha vindo pro mundo a passeio". Esse trecho poderia ser a própria sinopse do filme e revela o quanto nada sabemos sobre as pessoas e o que elas podem fazer para atingir os seus objetivos mais íntimos e secretos.

Comentários
Postar um comentário
Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!